O que é o COMPLEXO DE ÉDIPO para a Psicanálise?

Ilustração da tragédia Édipo Rei.

Para entender o Complexo de Édipo, precisamos primeiro olhar para a obra de Sófocles, Édipo Rei. O mito narra a história de um homem que, tentando fugir de um destino profetizado pelo Oráculo de Delfos, acaba exatamente onde a profecia previa: ele mata seu pai, Laio, e casa-se com sua mãe, Jocasta. Sigmund Freud, ao observar seus pacientes e realizar sua própria autoanálise no final do século XIX, percebeu que essa narrativa não era um horror isolado, mas uma representação simbólica de desejos inconscientes que residem na infância de cada indivíduo.

Na psicanálise, o Complexo de Édipo ocorre tipicamente entre os três e cinco anos de idade, durante o que Freud chamou de "fase fálica" do desenvolvimento psicossexual. Nesse estágio, a criança começa a direcionar seus primeiros impulsos libidinais para fora de si mesma, encontrando nos cuidadores primários os seus primeiros objetos de amor. O "triângulo edípico" é formado pela criança, a mãe (ou quem exerce a função materna de cuidado) e o pai (ou quem exerce a função paterna de interdição).

Freud argumenta que o menino desenvolve um desejo possessivo pela mãe e vê o pai como um rival que impede o acesso total a esse objeto de amor. Inversamente, a menina passa por um processo análogo (frequentemente discutido posteriormente como o Complexo de Electra, embora Freud preferisse manter a terminologia unificada). O ponto central não é o ato físico em si, mas a fantasia inconsciente de exclusividade. O desejo edípico é a manifestação da onipotência infantil que busca a satisfação plena e imediata, esbarrando na barreira da realidade representada pela figura terceira.

A Função Paterna e a Lei da Interdição

Muitas vezes, a teoria é mal interpretada como um desejo puramente sexual no sentido adulto. Contudo, para a psicanálise, a "sexualidade" é entendida de forma ampla, como busca de prazer e conexão. O papel do pai, ou da função paterna, é crucial aqui, pois ele atua como o agente da lei. Ele é aquele que diz à criança: "Você não pode possuir sua mãe, e você não pode ocupar o meu lugar".

Essa interdição é o que chamamos de "Castração Simbólica". Não se trata de uma mutilação física, mas de uma ferida narcísica necessária. A criança precisa aceitar que não é o centro do universo e que o desejo da mãe também se dirige a outros lugares (o trabalho da mãe, o marido, seus próprios interesses). Quando a criança percebe que a mãe "falta", ou seja, que ela não é completa e que busca algo fora da relação com o filho, o pai surge como o símbolo daquilo que a mãe deseja.

A função paterna introduz a cultura e a regra social no psiquismo. Sem essa quebra da simbiose entre mãe e filho, o indivíduo permaneceria capturado em uma relação dual sufocante, impedindo o desenvolvimento da autonomia. É através do "Não" paterno que a criança é empurrada para fora do núcleo familiar para buscar seus próprios objetos de desejo na sociedade. O Édipo é, portanto, o rito de passagem psíquico da natureza para a cultura.

O Complexo de Castração e a Diferenciação Sexual

A dinâmica edípica é indissociável do Complexo de Castração, que se manifesta de forma distinta entre os gêneros, segundo a visão clássica freudiana. Para o menino, a descoberta da diferença anatômica entre os sexos gera o "angústia de castração". Ele teme que, como punição por seus desejos incestuosos em relação à mãe, o pai possa privá-lo de seu órgão genital. Esse medo é o motor que o leva a renunciar à mãe e a se identificar com o pai, internalizando suas leis e valores.

Para a menina, o processo é mais complexo e foi alvo de muitas revisões teóricas posteriores, inclusive por psicanalistas mulheres como Melanie Klein e Karen Horney. Freud sugeriu que a menina, ao notar a ausência do pênis, sente-se já "castrada" e desenvolve o que ele chamou de "inveja do pênis". Ela se afasta da mãe (a quem culpa pela falta do órgão) e se volta para o pai, buscando simbolicamente o pênis através do desejo de ter um filho dele.

Embora esses conceitos pareçam datados ou excessivamente biológicos, a leitura psicanalítica moderna foca no simbolismo. O pênis é o "Falo", o símbolo do poder e da completude que ninguém realmente possui. A castração, para ambos os sexos, é o reconhecimento da própria finitude e incompletude. Aceitar a castração é aceitar que somos seres "faltantes", e é justamente essa falta que nos move a desejar coisas novas, a estudar, a trabalhar e a criar laços.

Resolução e a Formação do Superego

O que acontece quando o Complexo de Édipo chega ao seu declínio? Freud dizia que o Édipo não apenas desaparece, ele é "destruído" pela repressão. O resultado dessa resolução é a formação do Superego. O Superego é o herdeiro do complexo de Édipo; ele é a autoridade interna, a voz da consciência e da moralidade que surge a partir da internalização das proibições dos pais.

A resolução bem-sucedida ocorre quando a criança desiste do objeto proibido (os pais) em favor de objetos substitutos no futuro. O menino decide: "Eu não posso ter minha mãe, mas quando crescer, terei uma mulher como ela". A identificação toma o lugar do desejo possessivo. Ele deixa de querer "ser" o pai (no sentido de substituí-lo) para querer ser "como" o pai, assumindo um papel social e ético.

Se o Édipo não é bem resolvido, se a interdição falha ou se é excessivamente traumática, o sujeito pode carregar fixações que resultam em neuroses na vida adulta. Dificuldades em estabelecer relacionamentos saudáveis, sentimentos de culpa paralisantes ou uma eterna busca por aprovação são frequentemente rastreados até falhas nessa triangulação inicial. O Superego pode se tornar uma instância cruel e punitiva se a resolução edípica for marcada por um autoritarismo sem amor, ou pode ser fraco demais se a lei nunca foi apresentada.

A Relevância Contemporânea e a Estrutura do Desejo

Muitos críticos questionam se o Complexo de Édipo ainda é válido em uma era de famílias monoparentais, casais homoafetivos e novas configurações sociais. A resposta da psicanálise contemporânea, especialmente através de Jacques Lacan, é que o Édipo não depende de figuras biológicas de "homem" e "mulher", mas de funções.

A "Função Materna" é aquela que oferece o cuidado e a linguagem, introduzindo a criança no mundo dos significados. A "Função Paterna" é qualquer elemento que se coloque entre a mãe e o bebê, quebrando a ideia de que um é tudo para o outro. Pode ser o trabalho da mãe, uma companheira, um companheiro, ou até mesmo um projeto de vida. O fundamental é a existência de um Terceiro que represente a Lei e a Alteridade.

O Complexo de Édipo permanece como a principal ferramenta para entender como o ser humano lida com a autoridade e com a perda. Vivemos em uma sociedade que muitas vezes tenta negar a castração, prometendo satisfação imediata através do consumo. Nesse contexto, o Édipo nos faz lembrar que o limite é civilizatório. Ao aceitarmos que não podemos ter tudo, ganhamos a possibilidade de ter algo que seja verdadeiramente nosso. O desejo, para a psicanálise, só existe porque existe a lei que o proíbe e o organiza. Sem o Édipo, estaríamos perdidos em um mar de impulsos desordenados; com ele, navegamos a complexa arquitetura da alma humana.

Referências

FREUD, Sigmund (1900). A Interpretação dos Sonhos. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v. 4.

FREUD, Sigmund (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972, v. 7, pp. 121-237. 

FREUD, Sigmund (1913). Totem e Tabu. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974, v. 13, pp. 13-194. 

SILVA, Frederico de Lima. Literatura e violência: efeitos do desmentido na contística de Rinaldo de Fernandes. 2017. 205 f. Dissertação (Letras) - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2017. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/11915. Acesso em: 10 fev. 2026.

SILVA, Frederico de Lima. O pudor da Esfinge ou, simplesmente, mais uma divida/dúvida sobre as mulheres?: um estudo da perversão feminina na literatura de Rinaldo de Fernandes. 2025. 324 f. Tese (Doutorado em Letras) – Centro de Ciência Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2026. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/37167. Acesso em: 10 fev. 2026.

Geral

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Sobre o Autor
Frederico Lima é psicanalista em formação contínua, especialista em Teoria Psicanalítica, graduado, mestre e doutor em Letras pela UFPB. Possui trabalhos publicados em Periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.
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