Quem foi SIGMUND FREUD e qual a sua importância para a Psicanálise?
Nascido em 1856 em Freiberg (na época Império Austríaco, hoje República Tcheca), Freud transformou-se de um jovem médico recém-formado no "pai da psicanálise", uma disciplina que não apenas revolucionou a psicologia e a psiquiatria, mas alterou permanentemente a literatura, a arte e a compreensão da cultura ocidental sobre o desejo e a moralidade.
A trajetória de Freud foi marcada por uma curiosidade implacável e pela coragem de tocar em temas que a sociedade vitoriana preferia manter sob sete chaves: a sexualidade, os sonhos e os impulsos irracionais. Ao longo de sua vasta obra, ele propôs que a maior parte da nossa atividade mental ocorre abaixo da superfície da consciência, governada por forças que mal compreendemos.
O Nascimento da Psicanálise e a Descoberta do Inconsciente
A grande virada na carreira de Freud ocorreu quando ele percebeu que a medicina tradicional de sua época, focada estritamente em causas orgânicas e neurológicas, falhava em explicar diversos fenômenos psíquicos. Ao estudar com Jean-Martin Charcot em Paris, ele testemunhou o uso da hipnose no tratamento da histeria. No entanto, foi a colaboração com Josef Breuer que o levou à "cura pela fala". Freud observou que, ao encorajar os pacientes a falarem livremente sobre suas experiências, sintomas físicos muitas vezes desapareciam.
Essa observação foi o alicerce para a postulação do inconsciente. Para Freud, o inconsciente não é apenas um depósito de memórias esquecidas, mas uma instância dinâmica e pulsante que exerce pressão constante sobre o comportamento consciente. Ele comparou a mente a um iceberg: a ponta visível acima da água representa a consciência, enquanto a vasta massa submersa, onde residem nossos desejos reprimidos, traumas de infância e impulsos instintivos, é o inconsciente.
Essa descoberta foi um golpe no narcisismo humano. Se antes pensávamos que nossas decisões eram fruto puramente da razão e da vontade própria, Freud nos mostrou que somos frequentemente joguetes de forças que desconhecemos. A psicanálise nasceu, portanto, como um método de investigação desse território oculto, utilizando ferramentas como a associação livre, técnica onde o paciente diz tudo o que lhe vem à mente, sem censura ou filtro lógico, para mapear os caminhos que levam aos conflitos internos.
A Estrutura da Personalidade: Id, Ego e Superego
Com o amadurecimento de sua teoria, Freud desenvolveu o que chamamos de "Segunda Tópica", um modelo estrutural para explicar como a psique funciona e como os conflitos se manifestam. Ele dividiu a mente em três instâncias interativas, porém frequentemente em guerra: o Id, o Ego e o Superego.
O Id é a parte mais primitiva da personalidade, presente desde o nascimento. Ele opera inteiramente no inconsciente e é regido pelo "princípio do prazer". O Id não conhece a lógica, o tempo ou a moral; ele apenas busca a satisfação imediata de impulsos biológicos e desejos agressivos ou sexuais. É o caos interno, a fonte de toda a energia psíquica (libido).
Em contrapartida, o Ego desenvolve-se a partir do Id para servir como mediador entre as pulsões internas e o mundo exterior. Operando sob o "princípio da realidade", o Ego tenta satisfazer os desejos do Id de maneira segura e socialmente aceitável. É a parte racional da nossa personalidade, responsável pela percepção, memória e tomada de decisões. No entanto, o Ego vive sob constante pressão, tendo que equilibrar as demandas insaciáveis do Id com as restrições severas do mundo real.
Finalmente, surge o Superego, que representa a internalização das normas morais e dos valores da sociedade, transmitidos inicialmente pelos pais. O Superego atua como um juiz ou censor, punindo o Ego com sentimentos de culpa quando este falha em atingir os ideais de perfeição ou quando permite que impulsos proibidos venham à tona. A saúde mental, para Freud, depende do equilíbrio precário entre essas três forças. Quando o conflito se torna insuportável, o Ego utiliza mecanismos de defesa, como a repressão, a negação ou a projeção, para evitar a angústia.
A Sexualidade Infantil e o Desenvolvimento Psicossexual
Talvez a contribuição mais controversa de Freud tenha sido sua teoria sobre a sexualidade. Ele rompeu com a ideia de que a sexualidade despertava apenas na puberdade, afirmando que ela está presente desde o início da vida, embora de formas diferentes do que entendemos na vida adulta. Freud introduziu o conceito de libido não apenas como desejo sexual em sentido estrito, mas como uma energia vital de busca por prazer e vinculação.
Ele propôs que o desenvolvimento humano ocorre através de uma série de estágios psicossexuais, cada um focado em uma zona erógena diferente:
Fase Oral: O prazer está centrado na boca (amamentação, sucção).
Fase Anal: O foco se desloca para o controle dos esfíncteres e a relação com a autoridade/ordem.
Fase Fálica: A criança descobre as diferenças genitais e vivencia o famoso Complexo de Édipo.
Período de Latência: Uma fase de calmaria onde a energia é canalizada para o aprendizado e socialização.
Fase Genital: O despertar da maturidade sexual voltada para o outro.
O Complexo de Édipo é o ponto central desta teoria. Inspirado na tragédia grega, Freud argumentou que, na infância, o menino desenvolve um desejo inconsciente pela mãe e uma rivalidade ambivalente com o pai. A resolução desse conflito é fundamental para a formação do Superego e para a estruturação da identidade de gênero e da escolha de objeto na vida adulta. Embora duramente criticada por seu viés falocêntrico, essa teoria abriu portas para entender como as relações primordiais com os cuidadores moldam permanentemente a nossa forma de amar e de nos relacionar.
A Interpretação dos Sonhos e a Vida Cotidiana
Em 1900, Freud publicou "A Interpretação dos Sonhos", obra que ele considerava a mais importante de sua carreira. Para ele, o sonho é "a estrada real para o conhecimento do inconsciente". Freud rejeitava a ideia de que os sonhos fossem apenas ruídos biológicos ou profecias místicas; ele os via como a realização disfarçada de um desejo reprimido.
Ele distinguia entre o conteúdo manifesto (aquilo que lembramos ao acordar, a história do sonho) e o conteúdo latente (o significado oculto e proibido que o sonho tenta expressar). Através do "trabalho do sonho", a mente utiliza processos como a condensação e o deslocamento para mascarar o verdadeiro desejo, permitindo que ele se manifeste sem que o sonhador acorde devido à angústia.
Além dos sonhos, Freud explorou como o inconsciente vaza para a nossa vida desperta através dos atos falhos (os "lapsos freudianos") e dos chistes (piadas). Quando trocamos um nome por outro ou "esquecemos" um compromisso desagradável, não estamos cometendo erros aleatórios, mas revelando uma intenção inconsciente que driblou a censura do Ego. Essas observações transformaram o cotidiano em um campo de análise, sugerindo que nada na mente humana é acidental; tudo possui um sentido e uma motivação subjacente.
Civilização, Mal-estar e o Legado de Freud
Nos anos finais de sua vida, Freud expandiu sua visão para além da clínica individual, analisando a sociedade e a cultura em obras como "O Mal-Estar na Civilização". Ele argumentou que existe um conflito inerente entre os instintos do indivíduo e as exigências da sociedade. Para que a civilização exista, o ser humano precisa renunciar à satisfação direta de seus impulsos agressivos e sexuais, canalizando essa energia (sublimação) para o trabalho, a arte e a ciência.
Essa renúncia gera um sentimento crônico de descontentamento e culpa. Freud também refinou sua teoria das pulsões, introduzindo o dualismo entre Eros (a pulsão de vida, união e criação) e Tânatos (a pulsão de morte, voltada para a destruição e o retorno ao estado inorgânico). Essa visão pessimista, mas profunda, tentava explicar a capacidade humana para a crueldade em massa, como a presenciada na Primeira Guerra Mundial.
O legado de Freud é vasto e, em muitos aspectos, imensurável. Embora muitas de suas ideias tenham sido revisadas, refutadas ou expandidas por seguidores como Jung, Lacan e Klein, os conceitos fundamentais que ele estabeleceu, a importância da infância, a existência do inconsciente, o poder da fala e a complexidade do desejo, continuam sendo os pilares da psicologia moderna.
Freud não nos deu apenas uma terapia; ele nos deu uma nova lente para enxergar a condição humana, fazendo com que aprendêssemos que a consciência é apenas uma pequena parte de quem somos e que a honestidade sobre nossas próprias sombras é o único caminho para a liberdade psíquica. Sua coragem de olhar para o que era considerado "obsceno" ou "insano" permitiu que milhões de pessoas pudessem, pela primeira vez, dar um nome ao seu sofrimento e buscar um sentido para suas angústias.
Referências
GAY, Peter (2012). Freud: uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
HOTHERSALL, David. História da Psicologia. Porto Alegre: AMGH, 2019.
ROUDINESCO, Elisabeth. Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.
THÁ, Fábio. Representação e pensamento na obra freudiana: preliminares para uma abordagem cognitiva. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, v. 7, n. 1, p. 109–128, jan. 2004. Disponível em: https://www.scielo.br/j/agora/a/ww4JRfhWWnDLyDHxDRs9yYF/?lang=pt. Acesso em: 10 fev. 2025.
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