A formação em psicanálise, independentemente da vertente, é sempre um percurso exigente, que envolve estudo teórico, análise pessoal e supervisão clínica. No entanto, quando comparamos a formação de base freudiana com a formação lacaniana, percebemos que, embora ambas se inscrevam no campo da psicanálise, elas se estruturam a partir de pressupostos distintos sobre o inconsciente, o sujeito, a técnica e até mesmo sobre o que significa “formar” um analista. Essas diferenças não são meros detalhes metodológicos; elas refletem concepções divergentes sobre a própria natureza da experiência analítica.
Fundamentos teóricos e concepção de sujeito
A primeira grande diferença entre as formações freudiana e lacaniana está na base teórica que sustenta cada uma. A formação freudiana se ancora diretamente na obra de Sigmund Freud, privilegiando a metapsicologia clássica: tópica, dinâmica e econômica. O sujeito freudiano é estruturado a partir de instâncias psíquicas (Id, Ego e Superego) e o inconsciente é concebido como um reservatório de conteúdos reprimidos, acessíveis por meio da interpretação dos sonhos, atos falhos e associações livres.
Na formação lacaniana, embora Freud continue sendo a referência fundamental, a leitura que Lacan faz de Freud desloca radicalmente o eixo da teoria. O sujeito lacaniano é um sujeito do significante, marcado pela linguagem e pela falta estrutural. O inconsciente, para Lacan, não é apenas um depósito de conteúdos reprimidos, mas uma estrutura que “se articula como uma linguagem”. Isso muda tudo: muda a forma de escutar, de interpretar, de conceber o sintoma e, consequentemente, de formar analistas.
Enquanto a formação freudiana tende a enfatizar a compreensão dos mecanismos psíquicos e das dinâmicas intrapsíquicas, a formação lacaniana enfatiza a estrutura simbólica, o lugar do Outro, a função do significante e a lógica do desejo. O analista lacaniano é treinado para operar com cortes, pontuações e intervenções que visam produzir efeitos de significante, e não necessariamente interpretações explicativas.
Essa diferença teórica se traduz diretamente na prática clínica e, portanto, na formação. O estudante freudiano aprende a manejar conceitos como transferência, resistência, pulsão, recalque e conflito psíquico. O estudante lacaniano, por sua vez, se debruça sobre noções como o Nome-do-Pai, o objeto a, o Real, o Simbólico e o Imaginário, além de uma leitura estrutural do sintoma.
Estrutura da formação e o lugar da instituição
Outro ponto de divergência importante diz respeito à forma como cada vertente organiza institucionalmente a formação do analista. A formação freudiana, especialmente nas instituições ligadas à IPA (International Psychoanalytical Association), segue um modelo mais padronizado e regulamentado. Há critérios formais para ingresso, número mínimo de horas de análise pessoal, supervisões obrigatórias, cursos teóricos estruturados e uma progressão relativamente definida.
Esse modelo busca garantir uma certa uniformidade na formação, preservando a tradição freudiana e assegurando que o analista passe por um percurso considerado mínimo para o exercício clínico. A instituição, nesse caso, tem um papel normativo e certificador.
Já a formação lacaniana rompe deliberadamente com essa lógica. Lacan criticava a padronização da formação e a burocratização da psicanálise, defendendo que o analista não é “formado” pela instituição, mas produzido pela própria experiência analítica. Daí surge o conceito de “passe”, um dispositivo criado por Lacan para avaliar não apenas o percurso do candidato, mas o modo como ele se posiciona como analista.
Nas escolas lacanianas, a formação é mais aberta, menos padronizada e mais centrada na responsabilidade do próprio sujeito. Não há um currículo rígido, e a formação é concebida como permanente. A instituição não “certifica” um analista no sentido tradicional; ela reconhece, a partir do passe ou de outros dispositivos, que alguém se autoriza como analista, e, como dizia Lacan, “o analista só se autoriza de si mesmo”.
Essa diferença institucional tem implicações profundas. Enquanto a formação freudiana tende a ser mais previsível e estruturada, a formação lacaniana é mais singular, mais dependente do percurso subjetivo e menos vinculada a critérios formais.
A técnica analítica e o manejo da transferência
A técnica é outro ponto em que as formações divergem de maneira significativa. Na tradição freudiana, a técnica clássica envolve sessões de duração fixa, geralmente de 45 a 50 minutos, com o paciente deitado no divã e o analista sentado atrás. A interpretação é um instrumento central, e o analista busca tornar consciente o inconsciente, elucidando conflitos e resistências.
A transferência, nesse contexto, é vista como uma repetição de padrões infantis que se atualizam na relação com o analista. O manejo da transferência envolve interpretar essas repetições e trabalhar a resistência que emerge no processo.
Na formação lacaniana, a técnica é marcada por intervenções mais breves, cortes estratégicos e sessões de duração variável. A famosa “sessão curta” não é um capricho, mas uma ferramenta para desestabilizar o automatismo da fala e produzir efeitos de significante. O analista lacaniano não busca interpretar conteúdos, mas operar com a estrutura da linguagem, intervindo de modo a provocar deslocamentos no discurso do analisando.
A transferência, para Lacan, não é apenas repetição, mas uma relação com o saber suposto ao analista. O manejo da transferência envolve desmontar essa suposição, evitando que o analista se torne um mestre do sentido. A interpretação lacaniana é mais enigmática, mais pontual, menos explicativa.
Essas diferenças técnicas são ensinadas desde o início da formação. O estudante freudiano aprende a interpretar sonhos, analisar resistências, trabalhar com associações livres. O estudante lacaniano aprende a escutar cortes, equívocos, homofonias, lapsos significantes, e a intervir de modo a produzir efeitos de sujeito.
A análise pessoal como eixo da formação
Tanto na formação freudiana quanto na lacaniana, a análise pessoal é considerada indispensável. No entanto, o modo como cada vertente entende essa análise também difere.
Na formação freudiana, a análise pessoal é vista como um processo de autoconhecimento e elaboração das próprias resistências, permitindo que o futuro analista desenvolva uma capacidade de escuta mais neutra e menos contaminada por seus conflitos inconscientes. A análise é longa, regular e segue o modelo clássico.
Na formação lacaniana, a análise pessoal tem um papel ainda mais radical. Para Lacan, é na própria análise que o sujeito encontra o ponto de onde pode se autorizar como analista. A análise não é apenas um requisito técnico, mas o núcleo da formação. O percurso analítico deve levar o sujeito a confrontar sua própria divisão, seu desejo e sua relação com o saber. O fim da análise, nesse contexto, não é simplesmente a resolução de conflitos, mas a produção de um saber sobre o próprio desejo e a queda do sujeito suposto saber.
Além disso, o dispositivo do passe coloca a análise pessoal no centro da formação, pois é a partir do testemunho do analisando sobre o fim de sua análise que a escola avalia sua posição como analista.
A transmissão da psicanálise e o lugar do saber
Por fim, há uma diferença fundamental na forma como cada vertente concebe a transmissão da psicanálise. A formação freudiana tende a transmitir um corpo teórico consolidado, com ênfase na metapsicologia, na técnica clássica e na tradição institucional. O saber é transmitido de forma mais didática, por meio de cursos, seminários e supervisões.
Na formação lacaniana, a transmissão é mais complexa e menos linear. Lacan insistia que a psicanálise não se transmite como um saber positivo, mas como uma experiência. O saber da psicanálise é um saber sobre o inconsciente, e não um conjunto de conceitos a serem aplicados. Por isso, a formação lacaniana enfatiza a leitura rigorosa dos textos, a participação em seminários e cartéis, e a experiência analítica como eixo central.
O cartel, dispositivo criado por Lacan, é uma forma de estudo coletivo que rompe com a lógica professor-aluno. Ele se baseia na ideia de que o saber é sempre dividido e que o estudo deve ser uma experiência de trabalho entre pares, com um responsável pela coordenação, mas sem hierarquia rígida.
Essa diferença na transmissão reflete uma diferença mais profunda: enquanto a formação freudiana tende a organizar o saber psicanalítico de forma mais sistemática, a formação lacaniana insiste na impossibilidade de totalizar esse saber, enfatizando a falta, o furo e o não-todo.
Conclusão
A formação em psicanálise de base freudiana e a formação lacaniana compartilham um ponto de partida comum, a obra de Freud, mas se desdobram em caminhos distintos, tanto teóricos quanto institucionais, técnicos e epistemológicos. A formação freudiana tende a ser mais estruturada, mais normativa e mais centrada na metapsicologia clássica. A formação lacaniana, por sua vez, é mais aberta, mais centrada na experiência analítica e mais orientada pela lógica do significante e pela crítica à institucionalização rígida.
Escolher entre uma formação freudiana e uma lacaniana não é apenas escolher uma técnica, mas escolher uma concepção de sujeito, de inconsciente, de clínica e de transmissão. Ambas têm sua riqueza, sua profundidade e sua complexidade. E, como em toda boa discussão psicanalítica, talvez o mais interessante não seja decidir qual é “melhor”, mas compreender o que cada uma revela sobre o próprio ato de analisar.