O que é PULSÃO DE MORTE para a Psicanálise?

Hipnos e Thanatos, por John William Waterhouse.

O desenvolvimento do conceito de Pulsão de Morte pode ser considerado como uma das viradas teóricas mais radicais e polêmicas de Sigmund Freud, consolidada principalmente em sua obra de 1920, Além do Princípio do Prazer. Até aquele momento, a psicanálise baseava-se majoritariamente na ideia de que o psiquismo era regido pela busca do prazer e pela fuga da dor (o Princípio do Prazer). No entanto, a observação clínica de traumas de guerra, de neuroses obsessivas e do fenômeno da repetição levou Freud a concluir que existia algo "além", uma força silenciosa e fundamental que trabalha no sentido oposto à vida, à construção e à união.

A Gênese de um Conceito Disruptivo

Para entender Tânatos, precisamos entender o contexto em que ele emerge. Freud observava crianças brincando (como no famoso exemplo do jogo do Fort-Da) e soldados que retornavam da Primeira Guerra Mundial. Ele notou um padrão curioso e perturbador: as pessoas não buscavam apenas repetir experiências prazerosas, mas repetiam, obsessivamente, situações traumáticas e dolorosas. Se o aparelho psíquico visasse apenas o prazer, por que o sonho traumático persistia em devolver o sujeito ao momento do horror?

Essa "compulsão à repetição" sugeria a existência de uma tendência biológica e psíquica para retornar a um estado anterior. Freud postulou que, se a vida surgiu de um estado inorgânico, haveria no ser vivo uma tensão inerente para retornar a esse estado de repouso absoluto, sem tensões e sem estímulos. A Pulsão de Morte não é, portanto, um simples "desejo de morrer" no sentido consciente ou suicida da palavra, mas uma inclinação fundamental da matéria orgânica para a inércia. Enquanto Eros (a pulsão de vida) busca complicar a vida, criar conexões, unir o que está disperso e manter a tensão vital, Tânatos busca a dissolução, o desligamento e a redução de qualquer tensão ao nível zero.

O Dualismo entre Eros e Tânatos

A introdução da pulsão de morte estabeleceu o dualismo definitivo da segunda tópica freudiana. A vida passa a ser entendida como um campo de batalha, ou melhor, uma dança constante, entre essas duas forças primordiais. Eros representa a libido, o amor, a criatividade, a autopreservação e a união de partículas vivas em unidades cada vez maiores. É a força que nos faz construir cidades, formar famílias e produzir arte. Em contrapartida, Tânatos opera silenciosamente sob a superfície, tendendo à desintegração e ao isolamento.

É crucial compreender que, na vida cotidiana, essas pulsões raramente aparecem em seu estado puro. Elas estão quase sempre "amalgamadas" ou fundidas. Por exemplo, o ato de comer envolve Eros (nutrição e preservação da vida) e Tânatos (a destruição física do alimento, a mastigação). O próprio ato sexual, ápice de Eros, contém elementos de agressividade e dominação que remetem a Tânatos. Quando essa fusão falha e as pulsões se "desmisturam", temos quadros patológicos graves, onde a destrutividade pode se tornar soberana e descontrolada, voltando-se tanto para o mundo externo quanto para o próprio indivíduo.

A Manifestação da Destrutividade e a Agressividade

Como Tânatos se manifesta se ele é, por definição, uma pulsão silenciosa? Freud sugere que, para que o organismo sobreviva, essa energia autodestrutiva precisa ser desviada para fora. É aqui que Tânatos se transforma em agressividade e vontade de poder. Ao projetar a pulsão de morte para o mundo exterior, o sujeito protege a si mesmo da própria tendência à autodissolução, atacando o outro ou o ambiente.

Essa exteriorização é o que fundamenta muitos dos conflitos humanos e a própria natureza da cultura. No entanto, quando essa agressividade não pode ser dirigida para fora, devido às exigências da civilização e da moralidade, ela é internalizada novamente. O Ego, então, torna-se o alvo da própria destrutividade. Esse processo é visível na melancolia e na depressão profunda, onde o sujeito se ataca com uma ferocidade implacável. O Superego, em sua face mais cruel, utiliza a energia de Tânatos para punir o Ego, gerando um sentimento de culpa paralisante e uma necessidade de punição que pode levar ao sacrifício do próprio bem-estar.

Tânatos e a Cultura: O Mal-Estar Permanente

Em sua obra posterior, O Mal-Estar na Civilização (1930), Freud expande o conceito de pulsão de morte para o nível sociológico. Ele argumenta que a civilização exige a renúncia pulsional: para vivermos em sociedade, precisamos reprimir nossos instintos agressivos e sexuais. No entanto, a pulsão de morte não desaparece; ela é apenas canalizada. A cultura, para se proteger da agressividade intrínseca dos indivíduos, introjeta essa força na forma do Superego social, que vigia e pune o indivíduo através da culpa.

Isso cria um paradoxo trágico: quanto mais civilizados nos tornamos, mais infelizes e culpados tendemos a nos sentir, pois a agressividade que antes era descarregada no mundo externo agora é voltada contra o próprio "eu". A história da humanidade, sob essa ótica, é o registro da luta de Eros para unir a espécie humana em uma grande massa, enquanto Tânatos ameaça constantemente desintegrar esse esforço através da guerra, do ódio e da destruição. O progresso tecnológico, ironicamente, fornece a Tânatos ferramentas cada vez mais eficientes para cumprir seu objetivo final de aniquilação.

A Relevância Clínica e a Compulsão à Repetição

Na prática clínica, o conceito de Tânatos ajuda a explicar por que os pacientes muitas vezes resistem à cura. Freud percebeu que havia uma "reação terapêutica negativa", onde o paciente piorava justamente quando o tratamento começava a mostrar resultados positivos. Isso revelava uma necessidade inconsciente de sofrimento, um apego à dor que desafiava a lógica do prazer. A pulsão de morte manifesta-se no "vazio" clínico, na falta de palavras, no desejo de interromper o processo analítico e na tendência de repetir padrões de autossabotagem.

Reconhecer a existência de Tânatos permite ao analista entender que nem todo comportamento humano é motivado por um ganho secundário ou por um desejo oculto de felicidade. Às vezes, o sujeito está simplesmente preso em um circuito de desligamento e desinvestimento da vida. O trabalho da análise, nesse sentido, é tentar promover uma "re-fusão" pulsional, onde Eros possa novamente enlaçar a destrutividade de Tânatos, transformando o silêncio da morte em palavras, e a repetição cega em memória e criação.

Referências

FREUD, Sigmund. (1920). Além do princípio do prazer. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 18, pp. 137-162.

FREUD, Sigmund (1924). O problema econômico do masoquismo. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. 19, pp. 195-212.

FREUD, Sigmund (1930). O Mal-estar na Civilização. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 21, p. 81-171.

PAIM FILHO, Ignácio Alves. Metapsicologia: um olhar à luz da pulsão de morte. Movimento, 2016

SILVA, Frederico de Lima. Literatura e violência: efeitos do desmentido na contística de Rinaldo de Fernandes. 2017. 205 f. Dissertação (Letras) - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2017. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/11915. Acesso em: 10 fev. 2026.

SILVA, Frederico de Lima. O pudor da Esfinge ou, simplesmente, mais uma divida/dúvida sobre as mulheres?: um estudo da perversão feminina na literatura de Rinaldo de Fernandes. 2025. 324 f. Tese (Doutorado em Letras) – Centro de Ciência Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2026. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/37167. Acesso em: 10 fev. 2026.

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Sobre o Autor
Frederico Lima é psicanalista em formação contínua, especialista em Teoria Psicanalítica, graduado, mestre e doutor em Letras pela UFPB. Possui trabalhos publicados em Periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.
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