O que significa ABASIOFILIA para a Psicanálise?
A abasiofilia, quando observada a partir da psicanálise, situa-se em um ponto de tensão entre fantasia inconsciente, escolha objetal, dinâmica pulsional e construção do desejo. Longe de ser apenas uma curiosidade clínica, ela convoca questões fundamentais sobre como o sujeito organiza seu erotismo, como lida com a diferença e como inscreve o corpo do outro em seu próprio cenário fantasmático. A atração por parceiros com limitações motoras, nesse sentido, não é compreendida apenas como um “interesse atípico”, mas como expressão de formações inconscientes que articulam vulnerabilidade, poder, cuidado e dependência.
Definição e lugar na economia psíquica
O termo “abasiofilia” designa a erotização da dificuldade de locomoção do outro. Na perspectiva psicanalítica, porém, o foco desloca-se da descrição comportamental para a função psíquica que essa escolha objetal cumpre. O corpo claudicante, o movimento interrompido ou a dependência física tornam-se significantes privilegiados no cenário fantasmático do sujeito, condensando representações inconscientes de fragilidade, desamparo, proteção ou domínio.
A distinção contemporânea entre parafilia e transtorno parafílico pode ser relida pela psicanálise como diferença entre um modo singular de organização do desejo e uma fixação rígida, que produz sofrimento ou impede a circulação da libido. A abasiofilia, portanto, não é por si mesma patológica; torna-se problemática quando funciona como defesa rígida contra angústias mais profundas.
Abasiofilia, fetichismo e escolha objetal
A psicanálise permite diferenciar nuances importantes:
- Quando o foco recai sobre o objeto (cadeira de rodas, órtese, gesso), aproximamo-nos do fetichismo, no qual o objeto funciona como substituto simbólico que vela e revela uma falta.
- Quando o núcleo da excitação é o corpo vulnerável, a deficiência pode operar como significante da castração, condensando fantasias de cuidado, reparação, domínio ou submissão.
- Quando o sujeito busca ativamente parceiros com deficiência, podemos pensar em uma fixação objetal, na qual o outro é investido como figura que encena aspectos recalcados da própria história do sujeito.
A psicanálise não reduz esses fenômenos a categorias diagnósticas, mas os lê como soluções singulares encontradas pelo sujeito para lidar com conflitos inconscientes.
Hipóteses etiológicas em chave psicanalítica
Embora a literatura empírica seja escassa, a psicanálise oferece modelos interpretativos consistentes:
Fantasias de cuidado e reparação
A deficiência do outro pode funcionar como palco para fantasias de:
- resgate,
- proteção,
- reparação de culpas infantis,
- restauração narcísica.
O sujeito erotiza a posição de quem “cuida” ou “salva”, transformando a vulnerabilidade do outro em fonte de excitação.
Dinâmicas de poder e castração
A limitação motora pode simbolizar:
- a castração,
- a fragilidade do corpo,
- a dependência primordial.
O sujeito pode erotizar essa diferença como forma de dominar a angústia ligada à própria castração, colocando-se em posição de superioridade, controle ou onipotência.
Identificação com o desamparo
Em alguns casos, a atração por corpos marcados pela limitação expressa uma identificação inconsciente com o desamparo infantil. O sujeito erotiza no outro aquilo que teme ou recusa reconhecer em si.
Fixações no desenvolvimento libidinal
A abasiofilia pode ser compreendida como:
- fixação pré-genital,
- defesa contra angústias de separação,
- tentativa de manter o outro em posição não ameaçadora.
O parceiro com deficiência é percebido como menos capaz de abandonar, rejeitar ou competir.
Ética, consentimento e transferência
A psicanálise não moraliza o desejo, mas enfatiza a importância da relação com o outro como sujeito, não como objeto fetichizado. A questão ética central é se o outro é reconhecido em sua alteridade ou reduzido a peça de um roteiro fantasmático rígido.
Quando há:
- consentimento,
- circulação de desejo,
- reconhecimento mútuo,
a abasiofilia pode integrar-se à vida erótica sem prejuízo. Quando há:
- exploração da vulnerabilidade,
- apagamento da subjetividade do outro,
- compulsão repetitiva,
a relação torna-se expressão de uma dinâmica inconsciente que aprisiona ambos os parceiros.
Cultura, fantasia e imaginário social
A psicanálise também considera o papel do imaginário cultural na formação das fantasias. Representações midiáticas que associam deficiência a fragilidade, pureza, perigo ou erotismo influenciam o modo como o sujeito organiza seu desejo. A fantasia nunca é puramente individual; ela se alimenta de significantes sociais.
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