A clivagem ocupa um lugar central na teoria e na clínica psicanalítica, sendo um dos mecanismos mais complexos e fundamentais para compreender a constituição do psiquismo humano. Desde Freud, que a descreveu como a coexistência de atitudes contraditórias no eu, até os desenvolvimentos posteriores de Melanie Klein e da psicanálise contemporânea, a clivagem revela como o sujeito lida com experiências emocionais intensas, conflitos insolúveis e angústias primitivas. Trata-se de um processo que permite ao indivíduo dividir representações, afetos e partes do self, impedindo que se integrem em uma unidade coerente quando essa integração se torna ameaçadora ou insuportável.
Mais do que um simples mecanismo defensivo, a clivagem é um modo de funcionamento psíquico que participa ativamente da organização da vida mental desde os primeiros momentos de existência. Ela pode proteger o sujeito, preservando aspectos bons do objeto e afastando aspectos vividos como persecutórios, mas também pode limitar o desenvolvimento emocional quando se mantém rígida e impermeável à integração. Na clínica, manifesta-se em oscilações afetivas intensas, dissociações, idealizações extremas e dificuldades na construção de uma identidade estável.
Este texto explora a clivagem em cinco grandes eixos: sua formulação inicial em Freud; sua ampliação e centralidade na obra de Melanie Klein; sua presença nas teorias contemporâneas sobre trauma, borderline e relações objetais; e, por fim, suas manifestações e desafios na prática clínica. Ao percorrer essas perspectivas, busca-se oferecer uma compreensão ampla e aprofundada desse conceito essencial, destacando sua importância para o entendimento da subjetividade e para o trabalho analítico com pacientes que apresentam formas fragmentadas de experiência emocional.
CLIVAGEM COMO MECANISMO FUNDAMENTAL DO APARELHO PSÍQUICO
A clivagem, ou cisão, é um dos conceitos mais complexos, intrigantes e fundamentais da psicanálise. Embora frequentemente associada ao pensamento kleiniano, sua origem remonta ao próprio Freud, que a introduziu para explicar fenômenos clínicos que não se encaixavam nos modelos clássicos de repressão. A clivagem se refere à capacidade do psiquismo de dividir representações, afetos ou partes do self em compartimentos relativamente independentes, impedindo que se integrem em uma unidade coerente. Essa divisão não é apenas uma metáfora: ela descreve uma operação psíquica concreta, que organiza a experiência subjetiva e molda a forma como o indivíduo lida com conflitos, angústias e relações objetais.
Freud utilizou o termo “Spaltung” para descrever situações em que duas atitudes contraditórias coexistem no sujeito sem se influenciarem mutuamente. Um exemplo clássico é o fetichismo: o sujeito sabe que a mulher não possui pênis, mas simultaneamente acredita que ela possui. Essas duas crenças, mutuamente excludentes, permanecem lado a lado, sem síntese. A clivagem, nesse sentido, é uma solução psíquica para um conflito insuportável: ao invés de integrar a percepção traumática, o sujeito divide o campo representacional, permitindo que duas realidades paralelas coexistam.
No entanto, a clivagem não se limita ao fetichismo. Freud também a descreveu em fenômenos psicóticos, como a recusa da realidade (Verleugnung), e em situações de trauma. A clivagem aparece quando a repressão não é suficiente para lidar com a intensidade da angústia. Enquanto a repressão mantém conteúdos inconscientes afastados da consciência, a clivagem impede que partes do eu se integrem, criando “ilhas psíquicas” relativamente autônomas.
Com Melanie Klein, o conceito ganha nova amplitude. Para ela, a clivagem é um mecanismo primitivo, presente desde o início da vida psíquica, essencial para a organização do ego infantil. A clivagem permite ao bebê separar experiências boas e más, preservando objetos idealizados e afastando objetos persecutórios. Essa operação é vital para a sobrevivência psíquica inicial, mas, se persistir de forma rígida, pode comprometer o desenvolvimento emocional, levando a patologias graves, como estados borderline e psicóticos.
A clivagem, portanto, não é apenas um mecanismo defensivo, mas um modo de funcionamento psíquico que estrutura a relação do sujeito consigo mesmo e com o mundo. Ela pode ser adaptativa ou patológica, dependendo de sua intensidade, rigidez e da capacidade posterior de integração. A psicanálise contemporânea reconhece a clivagem como um fenômeno multifacetado, que atravessa desde a constituição do self até a clínica das patologias graves.
A CLIVAGEM EM FREUD: ENTRE A RECUSA DA REALIDADE E A DUPLA ATITUDE DO EU
Para compreender a clivagem em sua profundidade, é essencial revisitar a obra freudiana. Freud introduziu o conceito para explicar fenômenos que não podiam ser compreendidos apenas pela repressão. A repressão pressupõe um eu relativamente coeso, capaz de expulsar representações para o inconsciente. A clivagem, por outro lado, surge quando o eu não consegue integrar percepções contraditórias e, portanto, divide-se.
No texto sobre o fetichismo (1927), Freud descreve a clivagem como a coexistência de duas atitudes incompatíveis: uma que reconhece a realidade e outra que a nega. O fetiche funciona como um substituto para o pênis materno que o sujeito sabe que não existe, mas que, ao mesmo tempo, precisa acreditar que existe para evitar a angústia de castração. Essa duplicidade não é resolvida; ela permanece ativa, lado a lado. Freud afirma que o eu se divide para preservar simultaneamente a realidade e a fantasia.
Outro momento importante é o texto “A perda da realidade na neurose e na psicose” (1924). Freud diferencia a neurose, em que a realidade é rejeitada apenas parcialmente, da psicose, em que há uma ruptura mais radical. A clivagem aparece como uma tentativa de conciliar a realidade externa com a realidade interna. Em vez de substituir completamente uma pela outra, o sujeito cria duas versões da realidade, cada uma sustentada por uma parte do eu.
A clivagem também aparece nos estudos sobre trauma. Em situações traumáticas, o eu pode dividir-se para proteger-se da experiência insuportável. Freud descreve, por exemplo, soldados traumatizados que apresentam comportamentos contraditórios: parte deles reconhece o trauma, enquanto outra parte age como se nada tivesse acontecido. Essa duplicidade é uma forma de sobrevivência psíquica.
É importante notar que, para Freud, a clivagem não é um mecanismo universal do desenvolvimento, mas uma solução excepcional para conflitos extremos. Ela aparece quando a repressão falha ou quando a angústia é tão intensa que o eu não consegue integrá-la. A clivagem, portanto, é um mecanismo de emergência, acionado diante de situações traumáticas ou de conflitos insolúveis.
No entanto, mesmo em Freud, a clivagem não é apenas patológica. Ela revela a complexidade do eu e sua capacidade de sustentar contradições. A psicanálise pós-freudiana ampliará essa visão, mostrando que a clivagem é um mecanismo fundamental do desenvolvimento emocional.
A CLIVAGEM EM MELANIE KLEIN: UM MECANISMO PRIMÁRIO DE ORGANIZAÇÃO DO EGO
Com Melanie Klein, a clivagem assume um papel central na teoria do desenvolvimento emocional. Para Klein, o ego está presente desde o nascimento, ainda que de forma rudimentar, e precisa lidar com angústias intensas, especialmente as angústias persecutórias. A clivagem é o mecanismo que permite ao bebê separar experiências boas e más, preservando um objeto idealizado e afastando um objeto persecutório.
Na posição esquizoparanóide, que caracteriza os primeiros meses de vida, a clivagem é predominante. O bebê divide o seio materno em “seio bom” e “seio mau”. O seio bom é aquele que satisfaz, que alimenta, que acalma. O seio mau é aquele que frustra, que se ausenta, que causa desconforto. Essa divisão não é apenas cognitiva; ela é afetiva e fantasmática. O bebê projeta seus impulsos agressivos no seio mau e introjeta o seio bom como fonte de segurança.
A clivagem, nesse contexto, é vital para a sobrevivência psíquica. Sem ela, o bebê não conseguiria lidar com a ambivalência, a coexistência de amor e ódio, que caracteriza a relação com o objeto primário. A clivagem permite que o amor seja preservado, isolado da agressividade. No entanto, essa separação é instável e exige constante manutenção.
Com o desenvolvimento, o ego amadurece e a posição depressiva emerge. Nessa fase, o bebê começa a integrar os aspectos bons e maus do objeto, reconhecendo que o seio bom e o seio mau pertencem à mesma mãe. Essa integração é dolorosa, pois implica reconhecer que o objeto amado também é aquele que frustra. A culpa e a reparação tornam-se centrais.
Quando a clivagem persiste de forma rígida, a integração não ocorre adequadamente. Isso pode levar a patologias graves, como estados borderline, em que o sujeito oscila entre idealização extrema e desvalorização radical dos objetos. A clivagem impede a construção de uma identidade coesa e de relações objetais estáveis.
Klein também descreve a clivagem como um mecanismo que opera em conjunto com outros, como a projeção, a introjeção e a identificação projetiva. A clivagem não é um mecanismo isolado; ela faz parte de um sistema defensivo complexo, que organiza a experiência emocional desde o início da vida.
A CLIVAGEM NA PSICANÁLISE CONTEMPORÂNEA: BORDERLINE, TRAUMA E RELAÇÕES OBJETAIS
A psicanálise contemporânea expandiu ainda mais o conceito de clivagem, especialmente no estudo das patologias borderline e dos traumas precoces. Autores como Winnicott, Bion, Kernberg e Laplanche trouxeram novas perspectivas, mostrando que a clivagem não é apenas um mecanismo primitivo, mas um modo de funcionamento psíquico que pode persistir ao longo da vida.
Otto Kernberg, por exemplo, descreve a clivagem como o mecanismo central da organização borderline da personalidade. Para ele, indivíduos borderline apresentam uma incapacidade de integrar representações boas e más do self e do objeto. Isso leva a relações instáveis, marcadas por idealização e desvalorização extremas. A clivagem impede a formação de uma identidade estável e de uma capacidade consistente de regular afetos.
Winnicott, por sua vez, enfatiza a importância do ambiente. Para ele, a clivagem pode ser uma resposta a falhas ambientais graves, especialmente quando o ambiente não oferece holding suficiente. A clivagem surge como uma forma de preservar um núcleo verdadeiro do self, isolando-o de experiências traumáticas. Nesse sentido, a clivagem pode ser vista como uma defesa saudável diante de um ambiente intrusivo ou negligente.
Bion introduz a ideia de que a clivagem pode estar relacionada à incapacidade de transformar experiências emocionais brutas em pensamentos. Quando a função alfa falha, o sujeito não consegue metabolizar experiências traumáticas, que permanecem como elementos beta, não pensáveis. A clivagem, nesse contexto, é uma forma de manter essas experiências separadas do restante do psiquismo.
A psicanálise relacional e intersubjetiva também contribuiu para o entendimento da clivagem. Esses autores enfatizam que a clivagem não é apenas intrapsíquica, mas também intersubjetiva. Ela pode ocorrer na relação analítica, manifestando-se como dissociações, enactments e rupturas na comunicação. A clivagem pode ser compartilhada entre analista e paciente, criando campos emocionais divididos.
No estudo do trauma, especialmente do trauma precoce, a clivagem aparece como uma defesa essencial. Crianças expostas a abuso, negligência ou violência podem desenvolver clivagens profundas, que se manifestam como dissociações, amnésias e estados do self fragmentados. A clivagem protege o sujeito da dor insuportável, mas ao custo de uma identidade fragmentada.
A psicanálise contemporânea reconhece que a clivagem não é apenas um mecanismo defensivo, mas um modo de organização psíquica que pode ser adaptativo ou patológico. Ela pode proteger o sujeito, mas também pode limitar sua capacidade de integrar experiências e construir relações estáveis.
A CLIVAGEM NA CLÍNICA: MANIFESTAÇÕES, DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE INTEGRAÇÃO
Na clínica psicanalítica, a clivagem se manifesta de diversas formas, desde fenômenos sutis até rupturas profundas na experiência subjetiva. Reconhecer a clivagem é essencial para compreender o funcionamento psíquico do paciente e para orientar a técnica.
Uma das manifestações mais comuns é a oscilação entre idealização e desvalorização. Pacientes que utilizam a clivagem de forma intensa podem ver o analista como completamente bom em um momento e completamente mau em outro. Essa oscilação não é apenas cognitiva; ela envolve afetos intensos, que podem desestabilizar a relação analítica.
Outra manifestação é a dissociação. Pacientes podem relatar experiências como se fossem de outra pessoa, ou podem apresentar lacunas na memória. A dissociação é uma forma de clivagem que separa estados do self, impedindo que se integrem em uma narrativa coerente.
A clivagem também pode aparecer na transferência. O paciente pode dividir o analista em partes boas e más, atribuindo a cada uma funções específicas. Essa divisão pode ser projetada no setting, criando climas emocionais distintos em diferentes momentos da sessão.
Do ponto de vista técnico, trabalhar com a clivagem exige paciência, sensibilidade e capacidade de contenção. O analista precisa reconhecer a clivagem sem reforçá-la, ajudando o paciente a integrar experiências contraditórias. Isso implica interpretar não apenas conteúdos, mas também modos de funcionamento.
A integração da clivagem não ocorre de forma rápida. Ela exige um ambiente analítico suficientemente seguro, capaz de suportar angústias intensas. O analista precisa oferecer uma presença estável, que permita ao paciente experimentar a ambivalência sem se desorganizar.
A clivagem, no entanto, não deve ser vista apenas como patológica. Em muitos casos, ela é uma defesa necessária, que protege o paciente de experiências traumáticas. O objetivo da análise não é eliminar a clivagem, mas permitir que ela se torne mais flexível, abrindo espaço para a integração.
A clínica contemporânea reconhece que a clivagem é um fenômeno complexo, que atravessa desde a constituição do self até as patologias graves. Trabalhar com a clivagem é trabalhar com a própria estrutura do psiquismo, ajudando o paciente a construir uma identidade mais coesa e relações mais estáveis.
Sugestão de leitura sobre essa temática
A problemática da clivagem: aspectos teóricos e clínicos
Renata Mello
Este livro aborda a problemática da clivagem como uma importante chave de leitura para a compreensão de sofrimentos psíquicos mais primários do que os sofrimentos clássicos da neurose. A autora mostra articulações potentes entre os desafios encontrados na clínica psicanalítica e as teorias metapsicológicas, desde Freud e Ferenczi até autores atuais.
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