A estrutura perversa ocupa um lugar singular dentro da teoria psicanalítica, não apenas por sua complexidade clínica, mas também por sua capacidade de iluminar pontos fundamentais da relação entre sujeito, desejo e Lei. Desde Freud, e de modo ainda mais elaborado em Lacan, a perversão deixa de ser compreendida como simples desvio comportamental para se tornar uma forma específica de organização psíquica, marcada por uma lógica própria e por um modo particular de lidar com a castração. Longe de se reduzir ao ato sexual ou a práticas consideradas “transgressoras”, a perversão revela uma arquitetura interna rigorosa, sustentada por uma montagem que articula fantasia, fetiche e posição subjetiva.
Essa montagem, ou cenário perverso, funciona como o eixo estruturante do gozo, permitindo ao sujeito operar dentro de uma realidade cuidadosamente construída para desmentir a falta no Outro. Diferente da neurose, onde o desejo se move na incerteza, a perversão se ancora em uma certeza quase técnica sobre como produzir prazer e sobre o papel que o sujeito deve ocupar para fazê-lo. Trata-se de uma economia psíquica que transforma o sujeito em instrumento do gozo do Outro, reorganizando a relação com a Lei, com o corpo e com a angústia.
Explorar essa estrutura implica examinar não apenas o funcionamento interno da montagem, mas também seus efeitos sobre o parceiro, sobre o campo simbólico e sobre a própria subjetividade do perverso. Ao longo do texto, investigamos cinco eixos fundamentais que permitem compreender a perversão como uma forma sofisticada, e profundamente defensiva, de lidar com o Real, revelando tanto sua potência quanto seus limites estruturais.
A NATUREZA DA MONTAGEM E O FETICHE COMO SUPORTE
O cenário perverso não é um acontecimento espontâneo; é uma engenharia psíquica, uma construção meticulosa que organiza o gozo. Enquanto o neurótico oscila, fantasiando para tamponar a falta, o perverso fixa o desejo em uma montagem rígida, quase mecânica. A metáfora da montagem cinematográfica ou da máquina é precisa: trata-se de um dispositivo que precisa funcionar com precisão técnica.
No centro dessa construção está o fetiche. Freud, em 1927, descreve o fetiche como substituto do pênis materno, mas Lacan amplia essa noção: o fetiche é o objeto que vela a falta no Outro, permitindo ao sujeito sustentar a ficção de que a castração não existe. A montagem perversa, então, não é apenas um cenário erótico; é uma realidade paralela, cuidadosamente construída para que o sujeito possa operar como se a Lei simbólica fosse suspensa.
Essa rigidez explica por que detalhes aparentemente banais, a cor de um sapato, uma palavra específica, um gesto, são decisivos. Se a engrenagem falha, o sujeito é lançado ao desamparo, à impotência ou ao pânico. A montagem é, ao mesmo tempo, o palco do gozo e o escudo contra o Real.
O SUJEITO COMO INSTRUMENTO DO GOZO DO OUTRO
Uma das contribuições mais decisivas de Lacan é a inversão da fórmula do fantasma na perversão. Na neurose, o sujeito se relaciona com o objeto causa de desejo; na perversão, ele se identifica com o próprio objeto, oferecendo-se como instrumento do gozo do Outro.
O perverso não busca apenas satisfazer seu prazer; ele se coloca como aquele que detém a “técnica”, a “receita” do gozo do Outro, seja esse Outro uma pessoa concreta, uma instância simbólica ou mesmo uma figura imaginária de autoridade. No sadismo, por exemplo, não se trata simplesmente de infligir dor, mas de extrair do outro uma prova de que o sujeito domina o corpo e o desejo alheios. Ele se torna o executor de uma vontade que o transcende.
A montagem perversa é, portanto, o espaço onde o sujeito abdica de sua divisão subjetiva para funcionar como objeto-instrumento, uma peça eficiente de um sistema de gozo que o ultrapassa.
O DESMENTIDO E A VERDADE DA CASTRAÇÃO
O motor psíquico da perversão é a Verleugnung, o desmentido. O perverso não ignora a castração; ele sabe, mas age como se não soubesse. O cenário perverso é o lugar onde esse desmentido se corporifica, onde a mentira ganha consistência simbólica e sensorial.
A montagem é sempre um diálogo com a Lei. O perverso precisa da Lei para poder desmenti-la. Por isso, elementos de autoridade, uniformes, contratos, protocolos, rituais, aparecem com frequência. No masoquismo de Sacher-Masoch, por exemplo, o contrato não é um detalhe: é o eixo que permite ao sujeito instaurar uma jurisdição própria, onde ele dita as regras do prazer.
O cenário perverso é, assim, uma tentativa de instaurar uma verdade alternativa, uma espécie de microcosmo soberano, onde a castração é suspensa ou manipulada. Trata-se de uma defesa radical contra a ideia de que o sujeito, como qualquer outro, é marcado pela falta.
A DIVISÃO DO OUTRO E A PROJEÇÃO DA ANGÚSTIA
Um dos aspectos mais sofisticados da montagem perversa é o modo como ela opera sobre o parceiro da cena. Enquanto o neurótico carrega sua própria angústia, a dúvida sobre o desejo do Outro, o perverso constrói o cenário para transferir essa angústia ao outro.
Ao colocar o parceiro na posição de vítima, cúmplice ou observador involuntário, o perverso força o Outro a confrontar sua própria falta, seu próprio desejo, suas próprias contradições. O cenário funciona como uma armadilha simbólica: ele divide o Outro, produzindo vacilações morais, afetivas ou existenciais.
Ao ver o Outro angustiado, o perverso se sente protegido. A falta está “lá”, no Outro, e não “aqui”, nele. O cenário é, portanto, um dispositivo de defesa contra a fragmentação psíquica, usando o Outro como superfície de projeção.
A RIGIDEZ DO ROTEIRO E O FRACASSO DA FANTASIA
A montagem perversa é marcada por uma rigidez quase burocrática. Não há espaço para improviso. Cada gesto, cada palavra, cada objeto tem função precisa. Isso ocorre porque o perverso não está simplesmente buscando prazer; ele está executando uma operação defensiva essencial.
Se o cenário falha, o que emerge é o Real, aquilo que Lacan descreve como o impossível de simbolizar, o vazio aterrorizante. A montagem funciona como um anteparo, uma barreira contra esse encontro.
Por trás da teatralidade, da intensidade e, às vezes, do choque, há um sujeito que luta para manter a coesão de seu mundo interno. O cenário é simultaneamente sua obra de arte e sua prisão. Ele é escravo da própria montagem, pois apenas através dela consegue contornar a castração e sustentar um sentido, ainda que alienado, para sua existência.
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