| Por Blatterhin - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=20893841 |
Para Jacques Lacan, o Real é, sem dúvida, o conceito mais enigmático, fugidio e perturbador de sua teoria. Enquanto o Imaginário é o campo das imagens e o Simbólico é o campo da linguagem, o Real define-se pelo que sobra: é aquilo que não pode ser imaginado nem dito.
Entender o Real não é entender a "realidade" tal como a percebemos no dia a dia. Pelo contrário, para a psicanálise, o que chamamos de realidade é uma construção feita de imagens e palavras que servem justamente para nos proteger do Real. O Real é o "impossível", o trauma e o que resiste a qualquer tentativa de simbolização.
Real vs. Realidade
A primeira distinção que um estudante de Lacan deve fazer é entre o Real e a realidade cotidiana.
A Realidade: É o mundo tal como o conhecemos, organizado pelo Simbólico (leis, nomes, normas) e pelo Imaginário (identificações, beleza, formas). A realidade é "domesticada" pela linguagem.
O Real: É a coisa em si, bruta e sem sentido. É o que existe antes de darmos um nome a ela. É o corpo em sua biologia pura, a morte em sua crueza ou o sexo sem as fantasias que o acompanham.
Lacan dizia que "o Real é o que não cessa de se escrever" sob a forma de um impasse. Ele é como um buraco negro no centro da experiência humana: sabemos que ele está lá por causa da força que exerce sobre o que o rodeia, mas não podemos olhar diretamente para ele sem sermos sugados ou traumatizados.
O Real como o Impossível
A definição mais famosa de Lacan é: "O Real é o impossível". Mas o que isso significa na prática? Significa que o Real é aquilo que escapa à rede da linguagem. Por mais que falemos sobre um trauma, por mais que tentemos explicar a morte ou a dor de uma perda, sempre haverá um "resto", algo que a palavra não consegue alcançar.
Imagine que você tenta descrever uma dor física extrema para alguém. Você usa metáforas ("parece uma facada"), mas a dor em si permanece inacessível à palavra do outro. Esse núcleo de experiência pura, indizível e intransmissível, é o Real. Ele é impossível de ser totalmente simbolizado.
O Encontro com o Real: O Trauma e a Tuché
Para Freud e Lacan, o encontro com o Real é quase sempre traumático. Lacan utiliza o termo grego Tuché para descrever esse "encontro faltoso" com o Real. É o momento em que a realidade "rasga" e o sujeito fica face a face com o absurdo, com o acidente ou com a morte.
O trauma, na psicanálise, não é o evento em si, mas a incapacidade do sujeito de processar esse evento através da linguagem. Quando algo acontece e não temos "palavras para dizer", estamos no terreno do Real. É por isso que o Real causa angústia: a angústia é o afeto que surge quando o anteparo da linguagem falha e o sujeito é confrontado com o vazio ou com o excesso de presença da "coisa".
O Objeto a e o Real
Embora o Real seja vasto e indescritível, ele tem um representante na economia psíquica: o objeto petit a. Este objeto é o "resto" que cai quando o ser humano entra no mundo da linguagem.
Quando nascemos e passamos a ser seres de fala (seres simbólicos), perdemos uma parte da nossa natureza bruta. O objeto a é o fantasma dessa parte perdida. Ele é um pedaço do Real que funciona como motor do nosso desejo. Buscamos esse objeto em parceiros, em compras, no sucesso, mas como ele é um "buraco" de natureza Real, nenhum objeto da realidade pode preenchê-lo plenamente.
A Evolução do Conceito: Do Real Biológico ao Real Matemático
No início de seu ensino, Lacan via o Real muito ligado à biologia e ao corpo "em pedaços" antes da imagem do espelho. No entanto, em seus últimos anos, o Real tornou-se algo muito mais abstrato.
Ele passou a usar a Topologia (estudo das superfícies geométricas) e os Matemas para tentar cercar o Real. Ele acreditava que, já que o sentido (a fala) sempre falha em explicar o Real, talvez a lógica matemática, que não busca "fazer sentido", mas apenas demonstrar uma estrutura, pudesse chegar mais perto da verdade do sujeito. É aqui que surge o Nó Borromeano, onde o Real é um dos elos que sustenta a estrutura da subjetividade. Sem o Real, o Simbólico e o Imaginário não teriam onde se apoiar.
O Real na Clínica Psicanalítica
Qual o objetivo de lidar com o Real em uma análise? Se o Real é o impossível e o traumático, por que buscá-lo? Na clínica lacaniana, o analista não busca apenas que o paciente "entenda" seus problemas (o que seria puramente Simbólico/Imaginário). O objetivo é que o paciente possa "tocar o Real" do seu sintoma.
Isso significa chegar ao ponto onde a explicação para o sofrimento acaba. É o ponto do "é assim porque é". Quando o sujeito para de dar desculpas e explicações infinitas para seu fracasso ou sua dor, ele confronta o Real de seu modo de gozo. A cura, para Lacan, não é a eliminação do Real (que é impossível), mas a capacidade do sujeito de criar um "saber-fazer" com esse Real, transformando o peso do trauma em algo com o qual ele possa viver.
Conclusão
O Real é o limite da condição humana. É o lembrete constante de que não somos deuses, de que nosso corpo falha, de que a morte existe e de que a linguagem nunca dará conta da totalidade da vida. Estudar o Real de Lacan é aceitar que existe um vazio central em cada um de nós, e que é justamente esse vazio que nos mantém em movimento, desejando e buscando, mesmo sabendo que a satisfação plena é, estruturalmente, impossível.
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