O que é o FETICHISMO para a Psicanálise?

A compreensão psicanalítica do fetichismo ocupa um lugar central no estudo da sexualidade humana e de seus modos de expressão. Longe de ser apenas uma curiosidade clínica ou um desvio comportamental, o fetichismo revela aspectos profundos da constituição psíquica, da relação com o desejo e das estratégias que o sujeito desenvolve para lidar com a falta e com a angústia. Desde Freud, passando por autores como Winnicott e Lacan, o tema ganhou camadas de complexidade que permitem enxergá-lo não apenas como fenômeno sexual, mas como operador simbólico, mecanismo defensivo e elemento estruturante da subjetividade. Este texto explora, em cinco eixos principais, as bases teóricas e clínicas do fetichismo na psicanálise, articulando suas origens, funções e implicações na vida psíquica e cultural contemporânea.

Origem do conceito de fetichismo e sua inserção na teoria psicanalítica

O termo “fetichismo” não nasceu na psicanálise. Antes de Freud, ele já circulava em campos como a antropologia, a filosofia e a economia política. Na antropologia, “fetiche” designava objetos investidos de poder mágico; na economia, Marx utilizou o termo para descrever a relação ilusória entre pessoas e mercadorias. Freud, ao apropriar-se da palavra, deslocou-a para o campo da sexualidade, conferindo-lhe um sentido clínico e metapsicológico.

Para Freud, o fetichismo não é apenas uma preferência sexual peculiar, mas um fenômeno que revela algo essencial sobre o funcionamento da mente humana. Ele aparece como uma solução psíquica para um conflito fundamental: a angústia de castração. A partir da observação clínica, Freud percebeu que certos indivíduos só conseguiam excitar-se sexualmente diante de um objeto específico, um sapato, um tecido, um tipo de cabelo, um cheiro, uma parte do corpo, que funcionava como substituto do objeto sexual “normal”. Esse objeto não era escolhido ao acaso: ele carregava um significado simbólico profundo.

A teoria freudiana sustenta que o fetiche surge como resposta à descoberta infantil de que a mãe não possui pênis. Para a criança, especialmente o menino, essa constatação é vivida como ameaça: se a mãe não tem pênis, isso significa que ele próprio pode perdê-lo. O fetiche, então, funciona como uma espécie de “negação” dessa realidade. Ele substitui o pênis materno que nunca existiu, preservando a fantasia infantil de que a mãe é completa e, portanto, de que a castração não é real.

Essa formulação, embora centrada na sexualidade masculina, abriu caminho para reflexões posteriores sobre o papel do fetichismo em ambos os sexos, bem como sobre sua função na estruturação da subjetividade. A psicanálise contemporânea reconhece que o fetichismo não se limita ao campo da perversão, mas pode aparecer em graus variados na vida psíquica de qualquer pessoa.

Assim, o fetichismo, na psicanálise, não é apenas um desvio sexual, mas um mecanismo de defesa, uma formação de compromisso e uma construção simbólica que permite ao sujeito lidar com a angústia e com a falta.

O fetichismo como defesa contra a angústia de castração

A teoria freudiana do fetichismo está profundamente enraizada no conceito de castração. Para Freud, a descoberta da diferença anatômica entre os sexos é um momento decisivo no desenvolvimento psicossexual. A criança, ao perceber que a mãe não possui pênis, enfrenta uma angústia intensa: a possibilidade de que ela própria possa ser castrada. Essa angústia não é apenas biológica, mas simbólica: trata-se do medo de perder algo fundamental para a identidade e para o desejo.

O fetiche surge como uma defesa contra essa angústia. Ele funciona como um “desmentido” (Verleugnung), termo que Freud utiliza para descrever um mecanismo psíquico peculiar: o sujeito sabe que a mãe não tem pênis, mas ao mesmo tempo recusa-se a aceitar essa realidade. O fetiche é o objeto que permite sustentar essa recusa. Ele ocupa o lugar do pênis materno perdido, preservando a fantasia infantil de completude.

Esse mecanismo é diferente da repressão (Verdrängung). Na repressão, o sujeito exclui uma representação da consciência; no desmentido, ele mantém duas crenças contraditórias ao mesmo tempo. O fetichista sabe que o fetiche não é um pênis, mas age como se fosse. Essa duplicidade é característica da estrutura perversa, mas também aparece em outras áreas da vida psíquica, como na crença religiosa, na superstição e até em certos comportamentos cotidianos.

O fetichismo, portanto, não é apenas uma preferência sexual, mas uma forma de lidar com a realidade traumática. Ele permite ao sujeito evitar a angústia de castração, mantendo uma relação com o objeto sexual que não ameaça sua integridade psíquica. Ao mesmo tempo, essa solução tem um custo: o sujeito fica preso a um objeto específico, que se torna condição indispensável para o prazer.

A psicanálise contemporânea ampliou essa compreensão, mostrando que o fetichismo pode funcionar como defesa não apenas contra a castração, mas contra outras formas de angústia, como a angústia de separação, de perda ou de intrusão. Em todos esses casos, o fetiche aparece como um objeto que estabiliza o sujeito diante de uma ameaça interna.

O fetiche como objeto transicional e como operador simbólico

Embora Freud tenha enfatizado o papel do fetichismo na defesa contra a castração, autores posteriores ampliaram o conceito, mostrando que o fetiche pode funcionar como um objeto transicional ou como um operador simbólico na constituição do sujeito.

Winnicott, por exemplo, introduziu o conceito de objeto transicional para descrever objetos que ajudam a criança a lidar com a separação da mãe. Esses objetos, um cobertor, um brinquedo, um pedaço de tecido, não são fetiches no sentido freudiano, mas compartilham com o fetiche a função de mediar a relação entre o sujeito e o outro. Eles permitem à criança suportar a ausência da mãe, criando um espaço intermediário entre a realidade interna e a externa.

Alguns psicanalistas contemporâneos sugerem que certos fetiches podem funcionar de maneira semelhante: eles ajudam o sujeito a lidar com a falta, com a separação e com a alteridade. Nesse sentido, o fetiche não é apenas um substituto do pênis materno, mas um objeto que organiza o desejo e a fantasia.

Lacan, por sua vez, reinterpretou o fetichismo à luz de sua teoria do significante. Para ele, o fetiche é um significante que ocupa o lugar da falta no Outro. Ele não substitui o pênis materno, mas a falta estrutural que constitui o desejo. O fetiche, então, é um modo de tamponar essa falta, de dar-lhe uma forma visível. Ele funciona como um “semblante”, uma aparência que sustenta o desejo.

Essa perspectiva lacaniana permite compreender o fetichismo não apenas como uma perversão, mas como uma estrutura simbólica que aparece em diversas áreas da cultura. A moda, a publicidade, o consumo e até a arte utilizam objetos fetichizados para capturar o desejo. O fetiche, nesse sentido, é um operador simbólico que organiza a relação entre sujeito e objeto.

Assim, o fetiche pode ser visto como:

  • um objeto que substitui algo perdido (Freud),
  • um objeto que media a relação com o outro (Winnicott),
  • um significante que ocupa o lugar da falta (Lacan).

Essas diferentes perspectivas mostram que o fetichismo é um fenômeno multifacetado, que envolve não apenas sexualidade, mas também simbolização, fantasia e construção da subjetividade.

O fetichismo na clínica psicanalítica: estrutura, fantasia e gozo

Na clínica psicanalítica, o fetichismo aparece como uma forma específica de organização do desejo. Ele não é apenas um sintoma isolado, mas parte de uma estrutura subjetiva que envolve fantasia, defesa e gozo.

O fetichista, ao contrário do neurótico, não reprime a castração: ele a desmente. Isso significa que ele mantém uma relação particular com a realidade. Ele sabe que o fetiche não é o pênis materno, mas age como se fosse. Essa duplicidade permite ao fetichista evitar a angústia, mas também o impede de estabelecer uma relação plena com o outro. O outro é reduzido a um suporte para o fetiche.

Na fantasia fetichista, o objeto ocupa o centro da cena. Ele é investido de um valor erótico e simbólico que ultrapassa sua função real. O fetichista não deseja o outro como sujeito, mas como portador do fetiche. Isso pode gerar dificuldades nas relações afetivas e sexuais, pois o parceiro é frequentemente sentido como secundário.

Ao mesmo tempo, o fetichismo pode ser vivido de maneira menos rígida. Em muitos casos, o fetiche funciona como um elemento que intensifica o desejo, sem substituir completamente o parceiro. A psicanálise contemporânea reconhece que o fetichismo existe em um continuum, que vai desde formas leves e socialmente aceitas até formas mais rígidas e estruturais.

Na clínica, o trabalho com o fetichismo envolve compreender a função do objeto fetichizado na economia psíquica do sujeito. O analista não busca eliminar o fetiche, mas interpretar sua função, permitindo que o sujeito encontre outras formas de lidar com a falta e com o desejo. Em alguns casos, o fetiche pode ser flexibilizado; em outros, ele permanece como elemento estruturante da sexualidade.

O gozo fetichista também merece atenção. Ele é um gozo ligado ao olhar, ao detalhe, ao fragmento. O fetichista não busca o corpo inteiro, mas uma parte específica. Esse recorte do corpo é significativo: ele revela a relação do sujeito com o desejo e com a falta. O fetiche é um modo de organizar o gozo, de torná-lo suportável.

Fetichismo, cultura e subjetividade contemporânea

O fetichismo não é apenas um fenômeno individual; ele também tem uma dimensão cultural. A sociedade contemporânea é marcada pela fetichização de objetos, imagens e corpos. A publicidade, a moda, o consumo e as redes sociais utilizam estratégias fetichistas para capturar o desejo. Objetos são investidos de valor simbólico e erótico, funcionando como promessas de completude.

A psicanálise oferece ferramentas importantes para compreender esse fenômeno. O fetichismo cultural pode ser visto como uma resposta coletiva à falta estrutural. Em uma sociedade que valoriza a imagem, o consumo e a performance, o fetiche aparece como objeto que promete preencher o vazio. Ele funciona como um “tampão” simbólico, semelhante ao fetiche individual.

A cultura contemporânea também produz novos tipos de fetiches. A tecnologia, por exemplo, cria objetos que se tornam extensões do corpo e da identidade. Smartphones, roupas de marca, acessórios e até avatares digitais podem funcionar como fetiches. Eles não apenas despertam desejo, mas também organizam a subjetividade.

Além disso, a cultura atual tende a normalizar certas práticas fetichistas. O que antes era considerado perversão hoje pode ser visto como expressão legítima da sexualidade. Isso não significa que o fetichismo tenha perdido sua função defensiva, mas que a sociedade se tornou mais tolerante à diversidade sexual.

A psicanálise, ao analisar o fetichismo, contribui para compreender como os sujeitos lidam com a falta, com o desejo e com a angústia em um mundo marcado pela hiperestimulação e pela mercantilização do corpo. O fetiche, nesse contexto, é um objeto que revela tanto a singularidade do sujeito quanto as dinâmicas culturais que moldam o desejo.

Conclusão

O fetichismo, na psicanálise, é muito mais do que uma curiosidade sexual. Ele é uma janela para compreender a estrutura do desejo, a relação com a falta, os mecanismos de defesa e a construção da subjetividade. A partir de Freud, o conceito foi ampliado por diversos autores, que mostraram sua complexidade e sua presença em diferentes áreas da vida psíquica e cultural.

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Fetichismo: Colonizar o outro

Vladimir Safatle

Em Fetichismo: Colonizar o outro , Vladimir Safatle analisa o conceito na teoria freudiana e reflete sobre o que estava em jogo quando o psicanalista vienense fazia uso dele.

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