O que é FANTASIA para a psicanálise?

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A Fantasia como Escudo e Suporte: O "Véu" de Freud

No início do desenvolvimento da psicanálise, Sigmund Freud acreditava que as neuroses eram causadas por traumas reais (a Teoria da Sedução). No entanto, ele logo percebeu que muitos dos eventos relatados por seus pacientes não haviam ocorrido factualmente, mas faziam parte de uma realidade psíquica.

A Transição para a Realidade Psíquica

Para Freud, a fantasia não é uma mentira, mas uma verdade subjetiva. Ela atua como um mediador entre o desejo pulsional (interno) e a realidade (externa). Quando a realidade é frustrante ou insuportável, o psiquismo cria fantasias para satisfazer o desejo de forma alucinada ou compensatória.

  • Desejo Inconsciente: A fantasia é o cenário onde o desejo se encena.
  • A Função de Proteção: Ela serve para proteger o sujeito de um contato direto e traumático com a "crueldade" do mundo ou com a própria castração.

Melanie Klein e as Fantasias Inconscientes (Phantasy)

Enquanto Freud focava na fantasia como algo que pode ser consciente (devaneios), Melanie Klein introduziu o conceito de Phantasy (grafado com "Ph" em inglês para diferenciar do uso comum). Para Klein, a fantasia é a base de toda a vida mental desde o nascimento.

A Dinâmica dos Objetos Internos

Para Klein, o bebê já nasce com um mundo de fantasias sobre o corpo da mãe, o próprio corpo e os "objetos" (partes do mundo externo).

  • Fantasia de Incorporação: O desejo de "engolir" o que é bom (o seio) para mantê-lo dentro de si.
  • Fantasia de Expulsão: O ato de projetar o que é ruim ou assustador para fora.

Neste estágio, a fantasia não é apenas um pensamento, mas uma sensação corporal. Se o bebê sente fome, ele fantasia um ataque de um objeto mau. Se está satisfeito, fantasia a união com um objeto idealizado.

Lacan e o Axioma da Fantasia

Jacques Lacan elevou a discussão sobre a fantasia ao nível estrutural. Para ele, a fantasia (ou fantasma) tem uma função matemática e lógica na constituição do sujeito. 

O Papel do Objeto a

Na teoria lacaniana, o sujeito é sempre "barrado" (S), ou seja, dividido pela linguagem e marcado por uma falta fundamental. A fantasia é a tentativa de preencher essa lacuna através do objeto petit a (o objeto causa de desejo).

  • A Fantasia como Janela: Ela não é o que o sujeito vê, mas o quadro através do qual ele olha para o mundo. Sem a fantasia, o sujeito cairia na angústia absoluta perante o desejo do Outro.
  • O "Poinçon": Este símbolo representa as relações de maior que, menor que, convergência e divergência entre o sujeito e o objeto. A fantasia mantém a distância necessária para que o desejo continue existindo.

A Fantasia no Processo de Cura: "Atravessar o Fantasma"

Um dos conceitos mais densos da clínica psicanalítica é o objetivo final da análise em relação à fantasia. Lacan propõe que o fim de uma análise não é a "cura" de um sintoma físico, mas o atravessamento do fantasma.

O que significa atravessar a fantasia?

Durante a vida, somos "escravos" da nossa fantasia fundamental. Se alguém fantasia que "só é amado se sofrer", repetirá padrões de sofrimento inconscientemente. Atravessar o fantasma significa:

  • Reconhecer que a fantasia é uma construção.
  • Perceber que o "objeto" que buscamos na fantasia não existe na realidade.
  • Aprender a lidar com a falta sem o suporte protetor (e limitador) daquela ilusão específica.

Isso não significa que o sujeito para de fantasiar, mas que ele deixa de ser submisso à lógica repetitiva da sua fantasia original.

A Relação entre Fantasia, Desejo e Gozo

Para concluir a compreensão, é preciso diferenciar como a fantasia organiza o desejo e o gozo.

Organização do Desejo

A fantasia ensina o sujeito como desejar. O desejo humano não é instintivo como a fome de um animal; ele precisa de um roteiro. A fantasia fornece esse roteiro, indicando quais objetos são atraentes e sob quais condições o prazer é permitido.

A Economia do Gozo

O "gozo" na psicanálise refere-se a um prazer excessivo, muitas vezes ligado à dor ou à repetição. A fantasia é o que "domestica" esse gozo. Ela permite que o sujeito obtenha uma parcela de satisfação (mesmo que substitutiva) sem se desintegrar psiquicamente.

  • O Lado Sombrio: Muitas vezes, a fantasia nos prende a sintomas dolorosos porque há um ganho secundário (um gozo) naquela estrutura. Entender a fantasia é entender por que, às vezes, escolhemos caminhos que nos fazem sofrer.

Conclusão e Reflexão

A fantasia é a "cola" que une nossa identidade. Ela nos permite dizer "eu sou assim" e "eu quero aquilo". Compreendê-la na psicanálise não é destruí-la, mas ganhar a liberdade de não ser apenas um personagem escrito por desejos inconscientes que não compreendemos.

Sugestão de leitura sobre essa temática

Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan – Vol. 2 (Nova edição): A clínica da fantasia

Marco Antonio Coutinho Jorge

Neste segundo volume da tetralogia Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan , em edição revista e ampliada, Marco Antonio Coutinho Jorge concentra-se em um dos mais poderosos núcleos temáticos da psicanálise desde sua criação ― a fantasia ―, expondo as conquistas que o estudo do tema deu ao campo clínico e avançando na pesquisa teórica sobre o assunto.

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Sobre o Autor

Frederico Lima é escritor, psicanalista em formação contínua, especialista em Teoria Psicanalítica, doutor em Letras pela UFPB, com trabalhos publicados em Revistas científicas, capítulos de livros e anais de eventos.

Aviso Ético

O conteúdo deste blog tem caráter informativo, não substituindo a análise pessoal ou supervisão, e não deve ser utilizado como meio para autodiagnósticos. Se estiver passando por um momento psíquico complicado, busque apoio presencial de um analista.