O termo Argonautas designa os tripulantes da nau Argo, um navio mitológico construído com a intervenção direta da deusa Atena e projetado para empreender uma viagem considerada impossível. Liderados pelo herói Jasão, esses heróis notáveis uniram-se em uma missão: navegar desde Iolcos, na Tessália, até as distantes e misteriosas terras da Cólquida, situadas nas margens do Mar Negro, com o objetivo de resgatar o cobiçado Velocino de Ouro, também conhecido como Velo de Ouro. Esta jornada não representa apenas um feito físico de navegação e combate, mas consagra-se como o arquétipo primordial da viagem heroica coletiva, antecedendo inclusive a famosa Guerra de Troia e reunindo a nata dos heróis de uma geração anterior à de Aquiles e Odisseu.
Na cidade de Iolcos, o trono pertencia por direito a Esão, mas o poder foi usurpado por seu meio-irmão Pélias. Para salvaguardar a vida de seu herdeiro legítimo, Jasão foi enviado ainda criança para ser criado pelo centauro Quíron, célebre por sua sabedoria e por instruir os maiores heróis da Hélade. Anos mais tarde, já adulto e determinado a reclamar a herança que lhe pertencia por sangue, Jasão retornou a Iolcos. No entanto, um aviso oracular pesava sobre Pélias, alertando-o para que temesse um homem que se apresentasse calçado com apenas uma sandália. Ao cruzar um rio caudaloso no caminho para a cidade, Jasão ajudou uma velhinha, que na verdade era a deusa Hera, protetora implacável de muitos heróis, e, no esforço da travessia, perdeu uma de suas sandálias na lama. Quando se apresentou perante o usurpador com o pé descalço, Pélias compreendeu o perigo, mas arquitetou um plano astuto: concordou em devolver a coroa sob a condição de que Jasão realizasse uma empresa supostamente suicida, a de recuperar o Velocino de Ouro.
O Velocino de Ouro era a pele de carneiro alado que pertencera a Crisómalo, animal enviado por Hermes para salvar Frixo e Hele do sacrifício iminente. Ao chegar à Cólquida, Frixo sacrificou o carneiro a Zeus e ofereceu o velo dourado ao rei Eetes, pendurando-o em um carvalho sagrado dentro de um bosque dedicado a Ares, onde era permanentemente vigiado por um dragão colossal que jamais dormia. Sob a supervisão de Jasão, o mestre construtor Argos erigiu a nau Argo, uma embarcação inovadora equipada com cinquenta remos e dotada de um pedaço de madeira falante retirado do carvalho oracular de Dodona na sua proa, capaz de emitir profecias e orientar os navegantes.
Jasão convocou os maiores expoentes da mitologia. Entre os cinquenta tripulantes que embarcaram na nau figuravam nomes lendários como Héracles, acompanhado por seu jovem escudeiro Hilas; os gêmeos Dioscuros, Castor e Pólux, célebres por suas habilidades em combate e domínio de cavalos; Orfeu, o músico divino cuja lira mágica tinha o poder de enfeitiçar as feras, acalmar as tempestades e até mesmo embalar o sono do dragão guardião; Teseu, o futuro matador do Minotauro; Atalanta, a intrépida caçadora etólia; Peleu, pai de Aquiles; além de adivinhos renomados como Anfiarau e Idmon. Esta constelação de talentos singulares garantia que a expedição possuísse recursos para enfrentar tanto ameaças físicas quanto prodígios de natureza sobrenatural.
O trajeto percorrido pelos Argonautas foi pontuado por provações extraordinárias que testaram os limites da coragem humana e a coesão do grupo. Logo nas primeiras etapas, na ilha de Lemnos, os heróis depararam-se com uma comunidade habitada exclusivamente por mulheres, que haviam assassinado seus maridos devido à ira de Afrodite; dali resultou uma união temporária que garantiu a continuidade das linhagens. Posteriormente, na Mísia, a expedição sofreu perdas dolorosas quando o jovem Hilas foi seduzido e tragado pelas ninfas das fontes, levando Héracles e Polifemo a abandonarem a viagem para procurá-lo desesperadamente na floresta. Mais adiante, os navegantes enfrentaram o tirano Âmico na terra dos bébricios, um gigante arrogante que desafiava todos os forasteiros para o pugilato mortal e que acabou derrotado pelo vigor de Pólux.
O périplo continuou com o encontro com o rei cego Fineu, atormentado pelas Harpias, criaturas aladas que roubavam ou contaminavam toda a comida que ele tentava ingerir. Com a ajuda dos filhos de Boreu, os ventos do norte que também integravam a tripulação, as Harpias foram afugentadas, e em gratidão Fineu revelou aos Argonautas o segredo para ultrapassar o obstáculo mais temido da rota: as Simplégades, rochas simpáticas ou rochas móveis que colidiam violentamente entre si, esmagando qualquer navio que ousasse cruzar o estreito. Seguindo o conselho do adivinho, os heróis soltaram uma pomba; ao verem que a ave atravessou perdendo apenas algumas penas da cauda, remaram com força sobre-humana e conseguiram romper o bloqueio, estabilizando permanentemente as rochas perigosas de acordo com as leis do destino.
Ao chegarem finalmente à Cólquida, Jasão deparou-se com a hostilidade do rei Eetes, que recusou-se a entregar o Velocino de Ouro, impondo provas aparentemente intransponíveis. O herói precisaria subjugar dois touros ferozes de cascos de bronze que expeliam fogo pelas narinas, arar com eles um campo sagrado e semear os dentes de um dragão, dos quais brotaria instantaneamente um exército de guerreiros terrestres prontos para destruí-lo. É neste ponto crítico que a intervenção divina e a paixão humana alteram o curso da história. Sensibilizadas pela causa de Jasão, as deusas Hera e Atena apelaram a Afrodite para que seu filho Eros fizesse com que Medeia, a filha feiticeira do rei Eetes, se apaixonasse perdidamente pelo líder dos Argonautas. Dotada de vastos conhecimentos em poções e feitiçaria, Medeia forneceu a Jasão um unguento mágico que o tornou invulnerável ao fogo e ao ferro dos touros, além de orientá-lo a lançar uma pedra no meio dos guerreiros brotados da terra, fazendo com que lutassem entre si até a morte.
Apesar de cumprir todas as exigências de Eetes, Jasão percebeu que o rei planejava traí-lo e incendiar a nau Argo durante a noite. Com a ajuda decisiva de Medeia, que traiu a própria pátria e a família por amor, Jasão invadiu o bosque sagrado, adormeceu o dragão vigilante com os vapores de poções sopradas pela feiticeira e apropriou-se do cobiçado Velocino de Ouro. Imediatamente, a nau partiu em fuga vertiginosa, levando consigo a jovem princesa e seu irmão menor, Absirto. A viagem de regresso, conhecida na tradição mítica como a nostoi dos Argonautas, foi igualmente dificultosa e repleta de desvios geográficos fantásticos, exigindo que o navio navegasse por rios imensos da Europa central, contornasse as costas do Mediterrâneo ocidental, resistisse aos encantos mortais das Sereias, esquivasse-se dos monstros marinhos Cila e Caríbdis, e superasse o gigante de bronze Talos na ilha de Creta.
De volta a Iolcos, embora o Velocino tenha sido entregue a Pélias, a promessa do trono não foi cumprida de forma pacífica, desdobrando-se em tragédias familiares orquestradas pelas maquinações de Medeia.
Referências Bibliográficas
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traduit par Émile Delage. Paris: Les Belles Lettres, 1976.
EURÍPIDES. Medeia. Tradução de Mário da Gama Kury. 5. ed. São Paulo: Editora 34, 2010.
GRAVES, Robert. Os Mitos Gregos: Box com dois volumes. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.
KERÉNYI, Karl. Mitologia dos gregos: A história dos heróis. 1. ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2015.
APOLODORO. Biblioteca mitológica. 1ª ed. Madrid: Ediciones Akal, 2023.
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