Nas narrativas fundacionais da tradição helênica, especialmente na Teogonia, de Hesíodo, o Tártaro figura em um duplo papel: ele é simultaneamente um deus primordial, gerado nas origens do cosmos a partir do Caos, e o abismo subterrâneo mais profundo que se possa conceber. A cosmologia dos antigos gregos concebia o universo de maneira simétrica e vertical. Segundo a célebre métrica hesiódica, a distância que separa a superfície da terra do Tártaro é equivalente àquela que vai da terra até o céu. Para ilustrar essa imensidão de forma concreta, os poetas épicos frequentemente recorriam à imagem de uma bigorna de bronze que, se lançada dos céus, cairia durante nove dias e nove noites até alcançar a superfície terrestre, e precisaria de mais nove dias e nove noites de queda ininterrupta para, finalmente, atingir as profundezas sombrias do Tártaro.
Essa imensidão é descrita nas fontes mitológicas como um local lúgubre, úmido, cercado por uma tripla camada de noite e revestido por raízes de terra e do mar estéril. Não se trata meramente de uma extensão do Hades, o reino subterrâneo comum que recebia as almas da generalidade dos mortais após o falecimento. O Hades e o Tártaro mantêm uma separação rigorosa na topografia sagrada dos antigos gregos. Enquanto o Hades funcionava como a morada genérica e sombria dos mortos, governado pelo deus homônimo e por sua consorte Perséfone, o Tártaro representava o ponto mais inferior e extremo do universo, operando estritamente como uma prisão de segurança máxima voltada para os inimigos mais perigosos do poder olímpico.
A função primária do Tártaro no mito grego antigo consistia em servir de cárcere para aquelas entidades cujo poder representava uma ameaça existencial ao equilíbrio do cosmos. O exemplo mais notório dessa dinâmica de confinamento envolve a queda dos Titãs. Após a brutal Titanomaquia, a década de guerra encarniçada travada entre a geração anterior dos deuses titânicos liderada por Cronos e a nova ordem ascendente comandada por Zeus, os vencidos foram sumariamente arremessados para as profundezas do Tártaro. Para garantir que jamais pudessem retornar à luz ou perturbar o firmamento, os deuses olímpicos cercaram o abismo com muralhas de bronze intransitáveis e colocaram os Hecatônquiros, gigantes de cem braços e cinquenta cabeças, como fiéis e implacáveis sentinelas de sua prisão perpétua.
Além dos Titãs, o Tártaro abrigou outras criaturas monstruosas que desafiaram a supremacia de Zeus e dos olímpicos. Um caso emblemático é o de Tífon, um monstro alado de proporções titânicas, gerado por Gaia em retaliação à derrota de seus filhos anteriores, que foi lançado no abismo após um combate titânico contra o senhor dos raios. Da mesma forma, figuras humanas que cometeram hybris, ou seja, uma insolência extrema e imperdoável contra a autoridade e as leis divinas, encontraram no Tártaro o cenário de suas punições eternas. Diferente do Hades, onde as almas vagavam como sombras melancólicas sem grandes tormentos físicos, o Tártaro era o local reservado para a retribuição exemplar, onde criminosos mitológicos de escol sofriam suplícios perpétuos que simbolizavam a justiça poética e a desproporção de seus atos em vida.
Entre os habitantes mais célebres submetidos aos tormentos do Tártaro figuram figuras como Sísifo, Tântalo e Íxion. Tântalo, cuja audácia incluiu desafiar a presciência dos deuses servindo-lhes a carne de seu próprio filho em um banquete, foi condenado a submergir em águas cristalinas sob o reflexo de árvores frutíferas, experimentando uma fome e uma sede eternas que jamais poderiam ser saciadas, pois a água recuava e os frutos se elevavam assim que ele tentava alcançá-los.
Com o passar dos séculos, a percepção cultural e religiosa a respeito do Tártaro sofreu transformações substanciais, absorvendo influências de correntes filosóficas e místicas como o Orfismo e o Pitagorismo, e posteriormente dialogando com a escatologia de outras civilizações na Antiguidade tardia. Se nos poemas homéricos e hesiódicos o local era estritamente uma prisão geopolítica para deuses destronados e grandes transgressores míticos, nas narrativas posteriores ele passou a ser encarado de forma mais ampla como o destino punitivo pós-morte para qualquer alma cujo comportamento terrenal estivesse maculado por crimes imperdoáveis contra a ética e a religiosidade helênica. Essa evolução conceitual pavimentou o caminho para que, no imaginário ocidental subsequente, o conceito de Tártaro fosse frequentemente assimilado ou comparado às ideias de inferno e condenação eterna.
Referências Bibliográficas
BULFINCH, T. O Livro da Mitologia: Histórias de Deuses e Heróis. [Tradução de David Jardim]. 2. ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2017.
ELIADE, Mircea. Mito e realidade. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, 2020.
GRAVES, Robert. Os Mitos Gregos: Box com dois volumes. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.
KÉRÉNYI, K. Os Deuses dos Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997.
VERNANT, J-P. O Universo, os Deuses, os Homens. [Tradução de Rosa Freire Aguiar]. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
Leia também:
Quem é Tiestes na Mitologia Grega?
Quem é Tétis (Thétis) na Mitologia Grega?
Quem é Telêmaco (Tēlemakhos) na Mitologia Grega?
Quem é Odisseu ou Ulisses (Οδυσσεύς) na Mitologia Grega?
Quem é Tiestes na Mitologia Grega?
O que é Mito de origem (Cosmogonia) na História da Literatura?
Quem é Ifigénia (Ἰφιγένεια) na Mitologia Grega?
O que significa Anagnórise ou Reconhecimento na Mitologia Grega?
0 Comments:
Postar um comentário
Por favor, não use o espaço de comentários para promover spam, ódio, conteúdos ilegais ou ofender outros leitores.