Na tradição mitológica da Grécia Antiga, poucas figuras femininas corporificam de forma tão poética a transição entre a tragédia mortal e a sacralização geográfica quanto Hele (também grafada como Éle ou Helle, do grego antigo Ἕλλη). Embora não figure no primeiro plano dos grandes heróis olímpicos com feitos bélicos memoráveis, sua presença é absolutamente estruturante para a consolidação de um dos ciclos narrativos mais célebres do mundo clássico: a saga dos Argonautas e a busca pelo Velo de Ouro. O destino de Hele articula mistérios teológicos, dramas familiares marcados pelo ciúme e pela impiedade, e uma das etiologias geográficas mais marcantes da Antiguidade, que deu nome ao estreito de Dardanelos, historicamente conhecido como Helesponto, o "Mar de Hele".
O linguista e mitólogo Albert Carnoy, em seu estudo lexicográfico sobre a mitologia greco-romana, aponta que o nome Hele pode ser interpretado como uma forma reduzida ou hipocorística de nephélē (νεφέλη), termo grego para nuvem, névoa ou neblina matinal. Essa raiz guarda direta correspondência com o vocábulo latino nebula, evocando a substância etérea e impalpável dos céus. A análise torna-se ainda mais fecunda quando confrontada com as variações dialetais do grego clássico. No dialeto dórico, observa-se a variante hélla (ἕλλα), a qual induziu a hipótese linguística de que o nome derivaria do verbo hédzesthai (ἕζεσθαι), cujo significado é "sentar-se", "pousar" ou "assentar", precisamente da mesma maneira que a neblina matinal baixa e repousa suavemente sobre os vales e montanhas ao amanhecer.
Conforme atestado nas pesquisas etimológicas de Pierre Chantraine, a reconstituição do tema linguístico remonta ao radical indo-europeu sed-la, responsável por originar o lacônio hélla e o latino sella, significando assento ou cadeira. Sob a ótica mitopoética, essa amarração filológica não é mera coincidência acadêmica, mas espelha com exatidão a filiação da própria personagem: Hele é filha direta de Néfele, a própria personificação da nuvem, criada por Zeus à imagem de Hera.
A essência da tragédia de Hele se encontra na intrincada teia de casamentos e ambições dinásticas da Beócia. Seu pai, Átamas, rei de Orcômeno, e em algumas tradições associado ao trono de Tebas, contraiu segundas núpcias com a linfa celestial Néfele. Dessa união nasceram dois filhos: o jovem Frixo e a virgem Hele. Contudo, a estabilidade do lar real foi rompiada quando Átamas repudiou a esposa divina para se unir a Ino, mulher mortal e filha do rei Cadmo de Tebas. Do novo matrimônio de Átamas nasceram Learco e Melicertes, fato que despertou em Ino uma inveja profunda em relação aos herdeiros primogênitos do primeiro matrimônio.
Tomada pelo desejo de assegurar a sucessão do trono para seus próprios filhos, Ino concebeu um plano ardiloso para exterminar Frixo e Hele. A rainha persuadiu clandestinamente as mulheres do reino a torrarem os grãos de trigo destinados ao plantio. Quando a semeadura ocorreu, a safra pereceu completamente, mergulhando o reino de Orcômeno em uma fome devastadora. Atordoado pela Crise, Átamas enviou mensageiros ao oráculo de Delfos para consultar a vontade dos deuses. Ino, contudo, subornou os emissários para que trouxessem uma resposta falsa do oráculo: a fertilidade da terra só seria restaurada se o rei sacrificasse Frixo e Hele no altar de Zeus.
Submetido à pressão popular e ao terror do desastre econômico, Átamas conduziu os próprios filhos ao altar de sacrifício. O desfecho sangrento, no entanto, foi interrompido por uma intervenção divina repentina. Atenta ao perigo que ameaçava sua prole, Néfele, ou o próprio Zeus, tomado de compaixão em outras variantes do mito, enviou um ser extraordinário para resgatá-los: Crisómalo (Chrysomallos), um carneiro mágico com asas e velo de ouro, concebido pelo deus Posídon e pela ninfa Teófane.
Instruídos pela mãe, Frixo e Hele montaram no dorso do animal dourado, que elevou-se aos céus e iniciou uma rápida travessia rumo ao Oriente, tendo como destino final a distante região da Cólquida, nas margens do Mar Negro. Durante a extasiante e aterrorizante viagem aérea sobre os mares, o terror da altitude e a vertigem tomaram conta da jovem Hele. Incapaz de manter-se firme na lã dourada do animal voador, a virgem perdeu o equilíbrio e despencou de uma altura formidável, submergindo nas águas do estreito que separa a Europa da Ásia. Em sua memória, a geografia da Antiguidade batizou aquela passagem marítima de Helesponto (Hellespontos), que literalmente se traduz como o "Mar de Hele".
Embora o relato predominante da tradição mitológica narre a morte por afogamento da princesa beócia nas águas do estreito, existiu uma variante teológica paralela de grande apelo na Antiguidade. De acordo com determinados mitógrafos, Hele não pereceu na queda. No momento exato em que seu corpo atingiu o oceano, ela foi salva por Posídon, o soberano dos mares. Impressionado pela beleza da jovem, o deus das águas a acolheu em seu domínio cristalino, transformando-a em uma divindade marinha. Da união entre Posídon e a agora imortalizada Hele nasceram três filhos: Péon, Edono e Álmops, figuras etio-genealógicas que teriam dado origem e nome a importantes tribos e regiões da Macedônia e da Trácia.
A figura de Hele transcende a simples condição de vítima em um drama familiar helênico. Sua travessia e subsequente queda estabeleceram as bases para a grande expedição dos Argonautas comandada por Jasão, visto que o Velo de Ouro guardado pelo rei Eetes na Cólquida era precisamente a pelagem do carneiro voador sacrificado por Frixo em gratidão pela sua salvação. O nome e a memória de Hele permaneceram perpetuados na cartografia física e mental dos gregos, lembrando aos navegantes que cruzavam o estreito de Dardanelos a fragilidade humana perante o destino e a presença constante do sagrado nas formas da natureza.
Referências Bibliográficas
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Ver na AmazonBULFINCH, T. O Livro da Mitologia: Histórias de Deuses e Heróis. [Tradução de David Jardim]. 2ª ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2017.
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Ver na AmazonKÉRÉNYI, K. Os Deuses dos Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997.
Ver na AmazonOVÍDIO. Metamorfoses. [Tradução de Rodrigo Tadeu Gonçalves]. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2023.
Ver na AmazonVeja como referenciar este texto no seu trabalho:
SILVA, Frederico de Lima. Quem é Hele na Mitologia Grega?. Blog Frederico Lima, julho 25, 2026. Disponível em: <https://www.fredericolima.com.br/2026/07/hele-mitologia-grega.html>. Acesso em: .