Para Sigmund Freud, o aparelho psíquico é regido pelo princípio de constância, que busca manter o nível de excitação o mais baixo possível. A pulsão (Trieb) nasce de uma fonte somática e exerce uma pressão constante sobre o psiquismo. Essa pulsão se manifesta através de dois delegados: o representante-representativo (a imagem mental ou ideia) e o fator quantitativo, que é justamente o afeto. É fundamental compreender que, na teoria freudiana clássica, o afeto não é recalcado da mesma forma que a representação. No processo de recalque, a representação associada a um desejo proibido é enviada ao inconsciente, mas o afeto a ela vinculado não pode ser "esquecido". Ele permanece "à deriva" no sistema psíquico.
O afeto é a expressão qualitativa da quantidade de energia pulsional e de suas variações. Quando o recalque ocorre com sucesso parcial, o afeto pode seguir três caminhos principais: ser transformado em angústia, ser convertido em sintoma somático (como na histeria de conversão) ou ser deslocado para outra representação menos ameaçadora (como ocorre na neurose obsessiva ou na fobia). Portanto, o afeto é o que dá o "tom" da experiência clínica. É através do afeto que o analista percebe a verdade do sujeito, pois, enquanto as palavras (representações) podem enganar ou omitir, o afeto, seja ele um choro convulsivo, um riso inapropriado ou uma angústia sufocante, denuncia a presença de uma carga energética que o ego não conseguiu processar ou integrar.
A Angústia como Afeto Fundamental e a Mudança de Paradigma na Segunda Tópica
A evolução do pensamento freudiano trouxe uma mudança drástica na interpretação do afeto, especificamente no que diz respeito à angústia. Inicialmente, Freud acreditava que a angústia era o resultado direto de uma libido não descarregada, uma transformação química da energia pulsional acumulada. Contudo, em sua obra de 1926, Inibição, Sintoma e Angústia, ele inverte essa lógica. A angústia passa a ser vista como um afeto de sinal emitido pelo ego. Diante de um perigo interno (a pressão de um desejo pulsional perigoso) ou externo, o ego produz uma pequena dose de angústia para acionar os mecanismos de defesa e evitar um transbordamento traumático.
Nesse contexto, o afeto assume uma função de comunicação interna no aparelho psíquico. Ele não é mais apenas um subproduto da pulsão, mas uma ferramenta defensiva e adaptativa. A distinção entre dor e angústia também se torna crucial: enquanto a dor é a resposta psíquica a uma perda real ou ruptura de uma barreira protetora (como no luto), a angústia é a reação à expectativa dessa perda ou à iminência de um desamparo (Hilflosigkeit). O rigor terminológico exige diferenciar o afeto enquanto descarga motora ou secretora (o ato de suar, tremer ou chorar) da experiência subjetiva do afeto, que é a percepção consciente ou pré-consciente dessa descarga. Na clínica, o manejo do afeto é o que permite a passagem da "repetição" para a "elaboração", pois o paciente precisa sentir a carga emocional vinculada às suas memórias para que a interpretação tenha efeito terapêutico.
O Afeto na Perspectiva Lacaniana e a Relação com o Objeto Pequeno a
Jacques Lacan introduz uma perspectiva distinta, muitas vezes mal interpretada como um distanciamento do afeto em favor da linguagem. Embora Lacan enfatize que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, ele não ignora o afeto; ele o realoca. Para Lacan, "o afeto não é recalcado, ele está desamarrado e à deriva". Ele critica a ideia de que o afeto seria uma substância psíquica pura ou uma "emoção" inefável. Em vez disso, Lacan sustenta que o afeto está sempre submetido à estrutura do significante, embora não seja um significante em si. O afeto é o que "engoda" ou engana, exceto por um: a angústia.
Para Lacan, a angústia é o único afeto que não engana, pois ela surge quando o sujeito se depara com o desejo do Outro ou com a proximidade excessiva do objeto causa de desejo (objeto a). Enquanto outros afetos, como o amor ou o ódio, podem ser mediados pelo imaginário e pelas máscaras sociais, a angústia sinaliza um encontro com o Real, aquilo que escapa à simbolização. O afeto, portanto, é lido na psicanálise lacaniana como um efeito do significante sobre o corpo. O corpo é o palco onde o afeto se manifesta como uma marca da incidência da linguagem sobre a biologia. É por isso que o analista deve estar atento não apenas ao que o paciente diz, mas à "posição de gozo" que transparece nos afetos manifestos durante a sessão, buscando desarticular as fixações que mantêm o sujeito preso a sofrimentos repetitivos.
A Dimensão Econômica e a Inerência do Corpo na Clínica do Afeto
Para além das divisões estruturais, o afeto deve ser compreendido sob o ponto de vista econômico da psicanálise, que lida com a distribuição de quantidades de energia no psiquismo. O afeto é a prova de que a psicanálise não é uma terapia puramente intelectual. A "cura pela fala" só é possível porque a fala possui o poder de mobilizar o afeto. Quando um paciente relata um trauma sem qualquer emoção (isolamento do afeto), o trabalho clínico consiste em restabelecer a conexão entre a representação verbal e a carga emocional correspondente. Sem essa reintegração, o conhecimento sobre si mesmo permanece estéril, o que Freud chamava de "saber puramente intelectual", desprovido de força transformadora.
A importância do afeto também se estende à transferência. O afeto transferencial, o amor, a raiva ou a desconfiança que o paciente projeta no analista, é o motor do tratamento. É um afeto "falso" no sentido de que é dirigido a uma figura do passado, mas é "verdadeiro" na intensidade com que é sentido no presente da sessão. O rigor clínico exige que o analista não responda ao afeto com outro afeto (contra-afeto), mas que o utilize como material de análise para compreender os padrões relacionais do sujeito. Assim, o afeto deixa de ser apenas uma descarga desordenada para se tornar um elemento de significação, permitindo que o sujeito dê um novo destino à sua energia pulsional, transformando o sofrimento paralisante em uma capacidade de amar e trabalhar.
Referências Bibliográficas
DUNKER, Christian Ingo Lenz. Estrutura e constituição da clínica psicanalítica: uma formalização teórica. 2. ed. São Paulo: Annablume, 2011.
FREUD, Sigmund. O eu e o id, "autobiografia" e outros textos (1923-1925). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. (Obras completas, v. 16).
FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia, o futuro de uma ilusão e outros textos (1926-1929). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. (Obras completas, v. 17).
FREUD, Sigmund. Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
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