Nessa perspectiva original, a afanise é o fundamento último de todas as neuroses. Jones sugeria que a criança teme que suas pulsões incestuosas ou agressivas provoquem uma retaliação do ambiente que resulte não apenas em punição, mas na esterilização de sua capacidade de desejar. Se a castração é o limite imposto pela lei, a afanise é a aniquilação da própria força que subjaz à lei. Para o autor, o sujeito prefere a castração, que ainda mantém o desejo vivo através da interdição, ao vazio absoluto da afanise. É uma distinção crucial: a castração "salva" o desejo ao dar-lhe um limite e uma direção, enquanto a afanise o extingue.
Jones utilizou esse conceito para explicar o desenvolvimento da sexualidade feminina de forma distinta da inveja do pênis freudiana. Ele argumentava que a menina teme a afanise tanto quanto o menino, e que sua entrada na feminilidade é uma tentativa de preservar o desejo frente à ameaça de seu desaparecimento. No entanto, o rigor terminológico exige notar que, para Jones, a afanise estava intimamente ligada ao instinto de conservação da libido, sendo uma barreira defensiva contra a frustração total. Se o sujeito não pode ter o objeto de seu desejo, ele corre o risco de perder a própria faculdade de desejar, caindo em um estado de "morte em vida".
A Releitura Lacaniana e a Divisão Subjetiva
Jacques Lacan retoma a afanise de Jones, mas desloca o conceito do campo puramente biológico ou instintivo para o campo da linguagem e da lógica do significante. No Seminário 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan redefine a afanise como o desaparecimento do sujeito no momento exato em que ele surge no significante. Trata-se de uma manobra dialética: para que o sujeito seja representado por um significante para outro significante, ele precisa, necessariamente, sofrer um eclipse.
O sujeito da psicanálise lacaniana não é uma substância plena, mas uma falta-a-ser. Quando o sujeito entra na ordem simbólica, ele é "representado" por um significante, mas essa representação nunca é total. O preço dessa entrada na linguagem é a alienação. No momento em que o significante designa o sujeito, o sujeito "morre" enquanto ser puro e passa a existir apenas como um efeito de linguagem. A afanise lacaniana, portanto, é a manifestação da divisão subjetiva. Não é apenas o medo de perder o desejo, mas o movimento respiratório do sujeito que aparece e desaparece na cadeia significante.
Neste ponto, Lacan articula a afanise aos conceitos de alienação e separação. Na alienação, o sujeito está sob o domínio do significante do Outro; ele é eclipsado pela própria linguagem que o constitui. A afanise aqui é estrutural: o sujeito é o que falta no significante. Não há sujeito sem afanise, pois o ser se perde para que o sentido surja. Se o sujeito permanecesse em uma plenitude de ser, ele seria psicótico, fora da linguagem, sem a divisão que permite a intersubjetividade e o desejo. Assim, a afanise deixa de ser apenas uma ameaça patológica (como em Jones) para se tornar uma condição de existência do sujeito desejante no simbólico.
Afanise e o Objeto Pequeno a no Desejo do Outro
Para compreender a afanise em sua profundidade técnica, é imperativo analisar sua relação com o desejo do Outro e o objeto pequeno a. Se o sujeito experimenta a afanise na alienação ao significante, ele busca uma saída através da separação. A separação ocorre quando o sujeito percebe que o Outro também é faltante, que o Outro não tem todas as respostas. O sujeito pergunta: "O que o Outro quer de mim?" ou, no original francês, "Che vuoi?".
A ameaça de afanise ressurge aqui sob uma nova forma. Se o desejo do sujeito é o desejo do Outro, o desaparecimento do desejo do Outro implica o desaparecimento do próprio sujeito. O objeto a funciona como o remanescente, o "resto" que cai desse processo de eclipse significante. A afanise ocorre quando esse objeto a é engolido pelo Outro ou quando o sujeito se identifica plenamente com ele, perdendo sua dimensão de falta. Sem a falta, o desejo se apaga.
O rigor clínico exige que diferenciemos a afanise da depressão comum. Na afanise, o que está em jogo é o "fading" (desvanecimento) do sujeito diante do Real. Quando o simbólico falha em recobrir o Real, o sujeito pode ser tragado por uma angústia avassaladora que resulta em afanise. É o que observamos em estados de inibição intelectual ou sexual profunda, onde não há apenas uma tristeza, mas uma incapacidade radical de se situar como sujeito na cadeia de trocas do mundo. O sujeito torna-se "invisível" para si mesmo e para o Outro, um ponto de puro desaparecimento.
A Dimensão Clínica: Do Desvanecimento à Recuperação do Desejo
Na prática analítica, a afanise se apresenta como um desafio técnico severo. O analisando que se encontra em estado de afanise costuma relatar uma sensação de vazio, não como uma "falta" produtiva que impulsiona a busca, mas como um "nada" que paralisa. É o sujeito que "não se sente lá", que fala de uma posição de espectador de sua própria vida. O trabalho do analista, nesse contexto, não é preencher esse vazio, mas transformar a afanise (o desaparecimento do sujeito) em castração (a aceitação da falta).
Enquanto a afanise é uma defesa radical contra a angústia, onde o sujeito se retira do jogo do desejo para não sofrer a perda, a castração é o que permite ao sujeito desejar novamente. A análise visa fazer o sujeito emergir de seu eclipse, permitindo que ele suporte a alternância entre sua presença e sua ausência na linguagem. Lacan destaca que o analista deve estar atento ao momento em que o sujeito "desvanece" na sessão (o fading), pois é ali que o inconsciente se manifesta como uma fenda.
A afanise também se relaciona com o conceito de pulsão de morte. Se o desejo é movimento, a afanise é a estase. No entanto, paradoxalmente, a afanise pode ser vista como uma tentativa do sujeito de proteger seu desejo em um estado de "animação suspensa", para que ele não seja capturado ou destruído pelo Outro. Ao desaparecer, o sujeito se torna inalcançável. O desafio clínico é mostrar que o desejo só pode sobreviver se for arriscado no campo do Outro, aceitando a fragilidade e a incompletude que a castração impõe. Portanto, o tratamento da afanise passa pela reintrodução do sujeito na dialética do desejo, transformando o "nada" paralisante em um "espaço" onde algo novo possa ser inscrito.
Referências Bibliográficas
DOR, Joël. Introdução à leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem. Rio de Janeiro: Zahar, 1989.
FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 16: O eu e o id, "autobiografia" e outros textos (1923-1925). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
JONES, Ernest. A evolução precoce da sexualidade feminina. In: Papers on Psycho-Analysis. London: Baillière, Tindall and Cox, 1927.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.
QUINET, Antonio. A lição de Charcot: introdução à clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
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