O que são PARAFILIAS para a Psicanálise?
Para compreender o fenômeno das parafilias na psicanálise, é preciso retroceder ao pilar fundamental estabelecido por Sigmund Freud em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905). Diferente da visão biológica da época, que via a sexualidade apenas como o instinto reprodutivo, Freud revolucionou o campo ao afirmar que a sexualidade humana não nasce "pronta".
No polêmico texto, o fundador da psicanálise afirma que a criança é definida como um "perverso polimorfo". Isso significa que, nos primeiros anos de vida, a busca pelo prazer (pulsão) não está ligada aos órgãos genitais ou à reprodução, mas espalhada por todo o corpo, a boca na amamentação, o controle dos esfíncteres, a curiosidade visual, o que o psicanalista chamou de autoerotismo. Na teoria psicanalítica, o que chamamos de "normalidade" sexual é apenas uma das muitas rotas possíveis, geralmente aquela que foi moldada pela cultura e pela repressão para se fixar na genitalidade heteronormativa.
A maneira como a psicanálise se aproximou do que ainda hoje chamamos de “parafilias” implicou uma verdadeira mutação de paradigma: em vez de tomar os comportamentos sexuais desviantes como simples anomalias, vícios morais ou entidades nosográficas isoladas, Freud e, depois dele, Lacan, reinscreveram-nos no campo da sexualidade infantil, da pulsão e da estrutura do sujeito. Isso não significou “normalizar” tudo, mas deslocar o eixo da questão: do catálogo de condutas para a lógica do desejo, do gozo e da posição do sujeito frente à castração.
Da perversão à parafilia na tradição psiquiátrica
Antes da psicanálise, o campo que hoje se designa como “parafilias” era dominado por uma perspectiva médico‑jurídica. A noção de “perversão sexual” emergia, sobretudo, na psiquiatria do século XIX (Krafft‑Ebing, Magnan, etc.), como desvio em relação a uma norma naturalizada: a sexualidade orientada para a cópula genital heterossexual com finalidade reprodutiva. Tudo o que escapava a esse modelo era classificado como perversão, degenerescência ou anomalia.
Nesse período, proliferaram o número de obras que tratavam do tema de forma patologizante. Publicada originalmente em 1886 pelo psiquiatra alemão Richard von Krafft-Ebing (1840-1902), Psychopathia Sexualis consolidou-se como um marco na literatura médico-legal. Concebida para auxiliar médicos e magistrados, a obra utilizava deliberadamente uma linguagem técnica e trechos em latim para restringir o acesso ao público leigo. Contudo, apesar do rigor terminológico e do hermetismo pretendido, o livro alcançou enorme sucesso popular, sendo amplamente editado e traduzido para diversos idiomas. Em sua tese de doutorado, Silva (2025) afirma que a obra foi:
[...] publicada originalmente em 1886, uma enciclopédia de tipos e casos que veio a se tornar um dos primeiros livros de medicina a catalogar, classificar e descrever as manifestações sexuais desviantes, denominadas como perversões. A obra causou tanto impacto no meio científico e cultural, que foi referenciada por inúmeros estudiosos, em especial da sexologia, ou “ciência do sexual”, da qual Krafft-Ebing é considerado um dos pais fundadores, ao lado de Albert Moll (1862-1939), autor de Libido Sexualis, de 1897, e de Havelock Ellis (1859-1939), autor de Estudos de psicologia sexual, também de 1897. Michel Foucault (1988), no primeiro volume da sua História da Sexualidade, especificamente no capítulo “Scientia sexualis”, faz uma objetiva menção à obra do sexólogo, ao discorrer sobre como a sua enciclopédia fez parte do movimento histórico que tornou o sexo um objeto do discurso médico corrente, atribuindo-lhe a possibilidade de servir como meio para se alcançar uma verdade velada no indivíduo (Silva, 2025, p. 118).
Nessa tradição, o foco recaía sobre o comportamento observável: práticas fetichistas, sadismo, masoquismo, exibicionismo, voyeurismo, etc. A ênfase era descritiva e classificatória, apoiada em critérios de frequência, intensidade, dano e transgressão moral. O sujeito aparecia como portador de um “vício” ou de uma “tara”, frequentemente articulado à ideia de degenerescência hereditária. A etiologia era pensada em termos de defeitos orgânicos, predisposições constitucionais ou influências ambientais grosseiras.
Quando, mais tarde, a psiquiatria operacionalizou o termo “parafilia” (como se vê nas classificações diagnósticas contemporâneas), manteve-se, em grande medida, essa lógica: trata-se de categorias definidas por padrões de excitação sexual centrados em objetos, situações ou práticas considerados atípicos, persistentes e potencialmente prejudiciais. A questão central permanece sendo a adequação ou não do comportamento a uma norma estatística e socialmente sancionada.
A psicanálise, ao contrário, desloca o problema: não se trata de saber se o comportamento é “normal” ou “anormal”, mas de interrogar a função que ele desempenha na economia do desejo e do gozo do sujeito, bem como sua articulação com a fantasia fundamental e com a posição frente à castração. Em outras palavras, a psicanálise não parte da norma para julgar o desvio; parte da estrutura do sujeito para compreender o estatuto do chamado desvio.
A ruptura freudiana: sexualidade infantil, pulsão e perversão polimorfa
O ponto de inflexão decisivo é a formulação freudiana da sexualidade infantil e da pulsão (Trieb), especialmente em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Freud rompe com a concepção de uma sexualidade exclusivamente genital e reprodutiva, mostrando que a sexualidade humana é, desde o início, pulsional, parcial e desvinculada da finalidade biológica da reprodução.
A pulsão, tal como Freud a define, não é um instinto no sentido zoológico, mas uma fronteira entre o somático e o psíquico, um representante psíquico de excitações corporais que exigem satisfação. Ela é parcial porque se organiza em torno de zonas erógenas (oral, anal, fálica, etc.) e de modos de satisfação que não se subordinam, de saída, à genitalidade. A sexualidade infantil é, assim, “perversa polimorfa”: capaz de encontrar satisfação em múltiplos objetos e vias, sem que haja ainda uma organização genital unificada.
Nesse contexto, o que a psiquiatria chamava “perversão” aparece, em Freud, como algo estruturalmente implicado na própria constituição da sexualidade. As chamadas perversões adultas são compreendidas como fixações ou regressões a modos de satisfação pulsional que, na infância, são universais. Em vez de serem vistas como aberrações excepcionais, elas se tornam variantes possíveis de um mesmo processo de constituição da sexualidade.
Freud desloca, assim, o eixo da interpretação: a perversão deixa de ser um simples desvio moral ou biológico e passa a ser pensada como uma solução singular para o conflito pulsional, para o recalque e para a castração. O fetichismo, por exemplo, não é apenas um “gosto estranho” por um objeto; é uma formação de compromisso que, ao mesmo tempo, desmente (Verleugnung) a castração materna e a reconhece, fixando-se num objeto que funciona como substituto do falo perdido.
Esse ponto é crucial para entender como a psicanálise modifica o modo de interpretar as parafilias: o que está em jogo não é o catálogo de práticas, mas a lógica da pulsão e da defesa. A perversão, nesse sentido, é inseparável da teoria do recalque, da fantasia e da castração.
Reconfigurações estruturais: neurose, psicose e perversão em Freud e Lacan
Ao longo de sua obra, Freud vai refinando a distinção entre diferentes destinos da pulsão e diferentes modos de defesa. A partir daí, a perversão deixa de ser apenas um conjunto de manifestações sexuais e passa a ser pensada também como uma possível estrutura clínica, ao lado da neurose e da psicose.
Na neurose, o recalque (Verdrängung) é o mecanismo de defesa privilegiado: representações ligadas a desejos sexuais infantis são recalcadas e retornam sob a forma de sintomas, sonhos, atos falhos. O sujeito neurótico, em geral, se defende da sexualidade e da castração por meio da formação de compromisso sintomática, mantendo uma relação ambivalente com a lei e com o desejo.
Na perversão, Freud destaca o papel da Verleugnung (desmentido): o sujeito, confrontado com a percepção da castração (por exemplo, a ausência de pênis na mulher), recusa-se a reconhecê-la, instaurando uma clivagem (Spaltung) no eu. Uma parte do eu admite a realidade da castração; outra parte a desmente, sustentando uma crença fetichista. O fetiche, nesse contexto, é o objeto que vem ocupar o lugar do falo materno, permitindo ao sujeito manter a ilusão de uma mãe não castrada.
Lacan retoma e radicaliza essa perspectiva, distinguindo entre “perversidade” (no sentido de práticas de gozo que qualquer sujeito pode experimentar) e “estrutura perversa” como posição subjetiva específica frente ao desejo do Outro e à castração. Ele mostra que não se pode deduzir a estrutura perversa a partir da simples observação de condutas sexuais: um sujeito neurótico pode engajar-se em práticas consideradas “perversas” sem que isso faça dele um perverso em termos estruturais.
Para Lacan, a estrutura perversa se define pela função que o sujeito assume em relação ao desejo do Outro: o perverso se coloca como instrumento do gozo do Outro, encarnando a lei ou transgredindo-a de modo a sustentar o gozo. A famosa leitura lacaniana do sadismo e do masoquismo, a partir da fantasia sadiana (Sade) e da fórmula “o sujeito como objeto a do gozo do Outro”, mostra que, na perversão, o sujeito se identifica com o objeto causa de desejo (objeto a), ocupando uma posição que visa contornar a falta no Outro.
Essa reconfiguração estrutural tem consequências diretas para a interpretação das parafilias: não basta descrever o tipo de objeto ou de prática; é preciso situar a posição do sujeito na fantasia, o modo como ele se articula ao desejo e ao gozo do Outro, e o mecanismo de defesa predominante (Verleugnung, clivagem, etc.). A psicanálise, assim, desloca o olhar da superfície comportamental para a lógica estrutural.
Parafilias, gozo e laço social na clínica contemporânea
Quando a psiquiatria contemporânea fala em “parafilias”, ela se refere a padrões de excitação sexual centrados em objetos ou situações atípicas, muitas vezes avaliados em termos de risco, consentimento e sofrimento. A psicanálise, sem ignorar essas dimensões éticas e jurídicas, introduz outra camada de leitura: a do gozo (jouissance) e do laço social.
Lacan, ao formular as estruturas clínicas e as fórmulas da sexuação, mostra que o gozo não se reduz ao prazer regulado pelo princípio de prazer; há um gozo que excede, que transborda, que se liga à pulsão de morte e à repetição. As práticas que a psiquiatria agrupa sob o rótulo de parafilias podem ser lidas, na psicanálise, como modos singulares de organizar esse gozo, de circunscrevê-lo, de dar-lhe uma forma minimamente estável.
Na estrutura perversa, o gozo está diretamente articulado à cena fantasmática em que o sujeito se coloca como objeto do gozo do Outro ou como agente da lei que faz o Outro gozar. O sadismo, por exemplo, não é apenas “prazer em fazer sofrer”, mas uma montagem em que o sujeito se identifica com a instância superegóica que aplica a lei ao corpo do outro, produzindo uma cena em que o gozo se confunde com a realização da lei. O masoquismo, por sua vez, implica uma cena em que o sujeito se oferece como objeto de gozo, encarnando a falta do Outro.
Na clínica, isso significa que o analista não se limita a avaliar se a prática é “parafílica” segundo critérios externos; ele interroga a função dessa prática na economia do gozo do sujeito, sua relação com a fantasia fundamental e com o laço social. Há sujeitos que, sem apresentarem qualquer prática sexual “parafílica” no sentido psiquiátrico, ocupam uma posição estruturalmente perversa em sua relação com o Outro (por exemplo, na forma como manipulam, humilham ou instrumentalizam o desejo alheio). E há sujeitos que praticam condutas sexualmente “desviantes” sem que isso configure uma estrutura perversa, mas antes uma tentativa neurótica de lidar com o recalque e a angústia.
A psicanálise, portanto, impede a equivalência simplista entre parafilia e perversão. Ela introduz uma distinção rigorosa entre:
- Práticas de gozo (que podem ser variadas, socialmente aceitas ou não, e que atravessam todas as estruturas);
- Estrutura perversa (definida pela posição do sujeito frente à castração, ao desejo do Outro e à lei);
- Categorias diagnósticas psiquiátricas (parafilias), que operam com critérios descritivos e normativos.
Esse descolamento é uma das contribuições mais importantes da psicanálise para o debate contemporâneo sobre sexualidade e parafilias.
Consequências para a interpretação e para a prática clínica
Se quisermos condensar o modo como a psicanálise modificou a interpretação das parafilias, podemos dizer que ela operou, ao menos, quatro deslocamentos fundamentais.
Primeiro, deslocou o foco da moral para a estrutura. Em vez de julgar comportamentos como bons ou maus, normais ou anormais, a psicanálise pergunta: que lugar essa prática ocupa na economia pulsional do sujeito? Como ela se articula à fantasia, ao recalque, à castração? O que ela diz da posição do sujeito frente ao desejo do Outro?
Segundo, deslocou o foco do comportamento para a pulsão. A psicanálise não se contenta em descrever condutas; ela interroga a lógica da pulsão parcial, seus destinos (recalque, sublimação, perversão, etc.), sua relação com o corpo e com o significante. A noção de sexualidade infantil perversa polimorfa impede que se pense as parafilias como aberrações exteriores à sexualidade “normal”; elas são, antes, cristalizações de possibilidades já presentes na sexualidade infantil de qualquer sujeito.
Terceiro, deslocou o foco da categoria diagnóstica para a singularidade. Embora a psicanálise reconheça a importância de distinguir estruturas (neurose, psicose, perversão), ela insiste na singularidade da montagem fantasmática de cada sujeito. Dois sujeitos com o mesmo rótulo psiquiátrico de “parafilia” podem ter estruturas e fantasias radicalmente diferentes. A interpretação psicanalítica não se apoia no rótulo, mas na escuta do discurso, na transferência e na reconstrução da lógica singular do gozo.
Quarto, deslocou o foco da correção do comportamento para a elaboração do desejo. A clínica psicanalítica não tem como objetivo “normalizar” a sexualidade segundo um padrão pré-estabelecido, mas permitir que o sujeito se responsabilize por seu desejo, reconheça a lógica de seu gozo e encontre, se possível, modos menos mortíferos de se relacionar com ele. Isso não exclui a consideração de limites éticos e jurídicos, especialmente quando há risco ou dano a outros, mas impede que a clínica se reduza a uma tecnologia de adaptação à norma.
Em termos estritamente conceituais, a psicanálise introduz uma série de operadores que transformam o campo das parafilias:
- Trieb/pulsão: desloca a sexualidade do registro instintual para o registro pulsional, articulado ao inconsciente e ao significante.
- Sexualidade infantil perversa polimorfa: mostra que a “perversão” é, em certo sentido, originária, e que a normatividade genital é um resultado, não um ponto de partida.
- Verdrängung, Verleugnung, Spaltung: permitem distinguir diferentes modos de defesa e diferentes estruturas, evitando a confusão entre sintoma neurótico, formação perversa e fenômeno psicótico.
- Fantasia fundamental e objeto a: em Lacan, esclarecem a posição do sujeito na cena de gozo e sua relação com o desejo do Outro, o que é decisivo para diferenciar práticas perversas de estrutura perversa.
Tudo isso faz com que, depois da psicanálise, falar de parafilias sem levar em conta a dimensão do inconsciente, da pulsão e da estrutura seja, em grande medida, permanecer preso a um paradigma pré‑freudiano. A psicanálise não nega a utilidade de certas classificações descritivas, mas recusa que elas esgotem o sentido do fenômeno.
No limite, o que a psicanálise introduz é a ideia de que não há sexualidade sem desvio, sem resto, sem excesso de gozo em relação à norma. As chamadas parafilias tornam visível algo que, de modo mais discreto, está em jogo em toda sexualidade: a impossibilidade de uma adequação plena entre o desejo e a norma, entre o gozo e a lei. A tarefa da clínica, então, não é apagar esse excesso, mas fazer com que o sujeito possa dizer algo sobre ele, inscrevê-lo em sua história e, quem sabe, deslocar sua posição frente a ele.
Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972, v. 7, pp. 121-237.
FREUD, Sigmund (1927). Fetichismo. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 21, pp. 175-185.
KRAFFT-EBING, Richard von (1886). Psychopathia Sexualis: as histórias de casos. Tradução de Claudia Berliner. 1 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
KRAFFT-EBING, Richard von. Psychopathia Sexualis: Contrary Sexual Instinct; a medico legal study. London: The F.A. Dayis Company London: F.J. Rebman., Publishers, 1894. Disponível em: https://dn790009.ca.archive.org/0/items/sexualinstinctcon00krafuoft/sexualinstinctcon00krafu oft.pdf. Acesso em: 4 de mar. 2024.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 7: A ética da psicanálise (1959–1960). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
SILVA. Frederico de Lima: O pudor da Esfinge ou, simplesmente, mais uma divida/dúvida sobre as mulheres? um estudo da perversão feminina na literatura de Rinaldo de Fernandes. 324 f. Tese (Doutorado em Letras) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal da Paraíba, 2025. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/37167. Acesso em: 15 de fev. 2026.
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