A psicanálise, desde os seus primórdios com Sigmund Freud, sempre se deparou com um enigma fundamental: por que, mesmo após compreender a origem de seus traumas ou comportamentos repetitivos, o paciente muitas vezes continua a agir da mesma maneira? A resposta a essa questão não reside no simples acúmulo de conhecimento intelectual, mas em um processo profundo, temporal e psíquico denominado Elaboração (ou Durcharbeitung, no original alemão).
Elaborar não é apenas "entender". É o trabalho de digerir o que foi interpretado no setting analítico, permitindo que o sujeito saia do ciclo vicioso da repetição e conquiste uma nova posição subjetiva. Trata-se do motor que transforma a teoria da cura em uma mudança real na vida do indivíduo.
A transição da recordação para a resistência
Para compreender a elaboração, precisamos primeiro olhar para a evolução da técnica freudiana. No início, acreditava-se que a cura viria através da catarse: bastaria o paciente recordar um evento traumático esquecido para que o sintoma desaparecesse. No entanto, Freud percebeu rapidamente que muitos pacientes "recordavam" sem que isso gerasse qualquer mudança. Mais do que isso, muitos pacientes simplesmente não conseguiam recordar; em vez disso, eles atuavam (acting out).
Nesse contexto, surge o conceito de resistência. O paciente resiste à mudança porque o sintoma, embora doloroso, cumpre uma função de equilíbrio no seu psiquismo. A elaboração entra em cena justamente quando a interpretação do analista encontra essa barreira. Não basta que o analista diga ao paciente: "Você age assim porque seu pai era autoritário". O paciente pode concordar intelectualmente, mas continuar buscando figuras autoritárias para se submeter.
A elaboração é, portanto, o trabalho que se segue à interpretação. É o período em que o analisando precisa lidar com as resistências que surgem após a revelação do inconsciente. É um processo de "perda", o sujeito precisa abrir mão do ganho secundário que o sintoma lhe proporcionava, e isso exige tempo.
O conceito de Perlaboração e a repetição
O termo técnico utilizado por Freud em seu artigo de 1914, "Recordar, Repetir e Elaborar", destaca que o paciente repete em vez de recordar. Ele repete seus padrões de relacionamento, suas frustrações e seus medos dentro da própria transferência com o analista. A elaboração (ou perlaboração) é o que permite que essa repetição deixe de ser um "eterno retorno do mesmo" para se tornar material de trabalho.
Pense na elaboração como o processo de luto. Quando perdemos alguém, não basta saber que a pessoa morreu. É necessário passar por diversas situações cotidianas (o primeiro café da manhã sozinho, o primeiro aniversário, o primeiro Natal) para que a ausência seja gradualmente integrada à realidade. Na psicanálise, a elaboração funciona de forma análoga: o paciente precisa "atravessar" suas fantasias em múltiplos contextos e momentos da análise até que o peso do passado perca sua força motriz sobre o presente.
Sem a elaboração, a análise corre o risco de se tornar apenas um exercício intelectual estéril. É o trabalho "braçal" do psiquismo que permite desatar os nós que prendem o desejo do sujeito a objetos do passado. É aqui que a psicanálise se diferencia das terapias puramente cognitivas; ela reconhece que o tempo do inconsciente não é o tempo do relógio, e que a mudança exige uma "digestão" lenta.
A função do tempo e o papel do analista
Um dos aspectos mais desafiadores da elaboração é a sua natureza atemporal. Não existe um prazo para que alguém elabore um trauma. Freud descreve a elaboração como uma exigência de trabalho imposta ao psiquismo. O analista, nesse processo, não deve ser um mestre que apressa o discípulo, mas sim um suporte que sustenta o silêncio e a frustração do paciente enquanto a elaboração ocorre.
Muitas vezes, o paciente sente que a análise estagnou. Ele diz: "Já falamos sobre isso mil vezes e eu continuo fazendo a mesma coisa". É precisamente nesse momento de aparente estagnação que a elaboração mais profunda está acontecendo. O "falar mil vezes" sobre o mesmo tema, mas sob diferentes ângulos e afetos, é o que permite o desgaste das resistências.
O analista atua como um catalisador. Através da transferência, ele permite que o paciente reviva seus conflitos em um ambiente seguro. A elaboração ocorre quando o paciente consegue, finalmente, distinguir a figura do analista das figuras parentais de seu passado. É o momento em que o sujeito assume a responsabilidade por sua própria história, deixando de se ver apenas como uma vítima das circunstâncias ou do destino.
O atravessamento da fantasia e a mudança de posição
Em desenvolvimentos posteriores, especialmente com Jacques Lacan, a ideia de elaboração se conecta ao "atravessamento da fantasia". Para Lacan, o sujeito é constituído em torno de uma falta fundamental e constrói uma fantasia para encobrir esse vazio. Elaborar, nesse sentido, é desconstruir essa fantasia que sustenta o sintoma.
Este processo é doloroso porque a fantasia organiza o mundo do sujeito. Quando elaboramos, perdemos nossas certezas neuróticas. O "eu sou assim porque..." deixa de ser uma desculpa confortável. A elaboração conduz o sujeito a um ponto de desamparo criativo, onde ele percebe que não há um Outro que valide sua existência ou que lhe dê todas as respostas.
Ao final de um processo bem-sucedido de elaboração, o que se espera não é a felicidade plena, que a psicanálise considera uma ilusão, mas sim a capacidade de amar e trabalhar de forma mais livre. O sujeito não apaga sua história, mas muda sua relação com ela. O trauma, antes um monólito intransponível, torna-se um elemento narrativo que pode ser ressignificado. É a passagem da "miséria neurótica" para a "infelicidade comum", como dizia Freud, conferindo ao indivíduo a dignidade de lidar com a vida real.
A elaboração como um processo interminável
Embora uma análise possa ter um fim formal, a capacidade de elaboração é uma ferramenta que o sujeito leva para a vida toda. O psiquismo humano é constantemente bombardeado por novos eventos, perdas e desafios. A diferença de quem passou por um processo analítico profundo é possuir a musculatura psíquica necessária para não se deixar paralisar pelas novas repetições que a vida impõe.
A elaboração é o que permite a plasticidade do desejo. Em vez de ficarmos presos a uma única forma de satisfação (muitas vezes autodestrutiva), tornamo-nos capazes de encontrar novos objetos e novos caminhos. É a transformação da pulsão de morte, que busca a estagnação e o retorno ao inorgânico, em pulsão de vida, que busca a conexão e a criação.
Portanto, elaborar em psicanálise é o compromisso de não desistir diante do que é difícil de dizer e de encarar as sombras da própria personalidade. É o que nos torna verdadeiramente humanos: a capacidade de transformar nossa dor em palavra e nossa palavra em uma nova forma de existir no mundo.
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