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Como a difusão de identidade na organização borderline de personalidade se diferencia da crise de identidade normativa da adolescência?

A transição da infância para a vida adulta é, talvez, o período de maior turbulência psíquica no desenvolvimento humano. Central a esse movimento está a formação da identidade, o senso de continuidade e mesmice que permite a um indivíduo dizer "eu sou" com relativa segurança. No entanto, a linha que separa a busca saudável por si mesmo do colapso patológico do "self" é tênue e, frequentemente, mal compreendida.

Para compreender a diferença entre a crise de identidade normativa da adolescência e a difusão de identidade característica do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), é preciso uma cuidadosa análise da teoria das relações objetais, especialmente sob a ótica de Otto Kernberg, a partir da qual podemos perceber que, enquanto a primeira é um rito de passagem necessário e integrador, a segunda é uma fragmentação estrutural que impede a formação de uma psique coesa.

A Natureza da Crise de Identidade Normativa

Na adolescência, a crise de identidade não é um sinal de patologia, mas uma evidência de vitalidade psíquica. O jovem é confrontado com mudanças biológicas drásticas, novas expectativas sociais e a necessidade de se desvincular das figuras parentais. Erik Erikson, que cunhou o termo, descreveu esse estágio como um conflito entre a identidade e a confusão de papéis.

Nesse processo, o adolescente "testa" diferentes versões de si mesmo. Ele pode mudar de estilo, de ideologia política ou de círculo social com uma rapidez desconcertante. No entanto, apesar dessa volatilidade externa, existe um núcleo de continuidade. O adolescente em crise normativa ainda consegue descrever a si mesmo e aos outros de forma tridimensional. Ele reconhece que suas mudanças são experimentações e mantém a capacidade de empatia e a observação crítica de suas próprias contradições.

A crise normativa é um processo de re-elaboração. O indivíduo revisita as identificações da infância, descarta o que não serve mais e integra novos elementos. Ao final desse processo, espera-se a consolidação de uma identidade egoica: um senso de quem se é, de onde se veio e para onde se quer ir. É um caos que precede a ordem.

A Estrutura da Difusão de Identidade na Personalidade Borderline

Diferente da flutuação adolescente, a difusão de identidade no Transtorno de Personalidade Borderline não é uma fase, mas uma falha estrutural na integração do self. Aqui, o indivíduo carece de um centro de gravidade psíquico. A difusão de identidade é definida pela incapacidade de integrar representações positivas e negativas de si mesmo e dos outros.

Na TPB, o mundo interno é habitado por "ilhas" de experiência que não se comunicam. Em um momento, o indivíduo se sente grandioso e onipotente; em outro, sente-se um lixo desprezível. O ponto crucial é que essas duas versões não coexistem na consciência ao mesmo tempo. Não há um "eu" observador que diga: "Hoje estou me sentindo mal, mas sei que sou uma pessoa capaz". Em vez disso, o estado emocional do momento define a totalidade da existência.

Essa fragmentação deve-se ao uso maciço da clivagem (ou cisão) como mecanismo de defesa. Para proteger as partes "boas" de si mesmo da agressividade avassaladora, o indivíduo separa radicalmente o bom do mau. O resultado é um senso de si mesmo que parece vazio, contraditório e plano. Quando solicitado a descrever sua personalidade, alguém com difusão de identidade oferece descrições vagas, focadas em comportamentos superficiais ou em estados emocionais mutáveis, sem conseguir transmitir a essência de sua continuidade histórica.

Diferenciações no Relacionamento com o Objeto e a Alteridade

Uma das formas mais claras de distinguir a crise normativa da difusão patológica é observar como o indivíduo percebe os outros. Na adolescência normal, o jovem pode entrar em conflito severo com os pais, mas ele ainda os percebe como seres humanos complexos, com virtudes e defeitos. Ele pode odiá-los momentaneamente, mas o vínculo de amor e a percepção da história compartilhada permanecem subjacentes.

Na difusão de identidade da organização borderline, a percepção do outro é tão fragmentada quanto a percepção de si mesmo. Ocorre o fenômeno da idealização e desvalorização primitiva. O outro é visto ou como um salvador perfeito e benevolente, ou como um perseguidor cruel e malévolo. Não há espaço para a ambiguidade.

Essa incapacidade de integrar o "bom" e o "mau" no outro torna os relacionamentos extremamente instáveis. Enquanto o adolescente em crise busca intimidade para validar sua nova identidade, o indivíduo com difusão de identidade teme a intimidade. Para ele, a proximidade excessiva ameaça "fundir" seu self já fragilizado com o outro, ou expô-lo à destruição por um objeto percebido como perigoso. O resultado é um ciclo de busca desesperada por conexão seguido de um distanciamento abrupto e hostil.

O Papel dos Mecanismos de Defesa e a Prova de Realidade

A distinção entre esses dois estados também se manifesta na sofisticação das defesas psíquicas. O adolescente típico utiliza defesas mais "maduras" ou de alto nível, como a intelectualização, a formação reativa e, principalmente, a repressão. Ele tenta esconder de si mesmo desejos que considera inaceitáveis, mas mantém a fronteira entre o que é interno e o que é externo bem definida.

Já no TPB, predominam defesas primitivas. Além da clivagem já mencionada, a identificação projetiva é onipresente. O indivíduo projeta partes indesejadas de si mesmo no outro e, em seguida, tenta controlar o outro para gerir esses sentimentos projetados. Isso cria uma atmosfera de tensão constante e confusão interpessoal que raramente é vista na crise de identidade comum.

Outro ponto fundamental é a prova de realidade. Embora tanto o adolescente quanto o borderline possam ter comportamentos impulsivos, o adolescente mantém a capacidade de avaliar as consequências de seus atos sob uma perspectiva social ampla. No Transtorno de Personalidade Borderline, a prova de realidade é mantida (o que diferencia a personalidade borderline da psicose), mas ela é fragilizada sob estresse emocional. O indivíduo sabe que o que está vendo é real, mas a sua interpretação das intenções alheias é distorcida por suas projeções internas, algo muito mais profundo do que o simples egocentrismo adolescente.

Consequências Clínicas e a Evolução no Tempo

A variável tempo é o juiz final entre a crise e a difusão. A crise de identidade da adolescência é autolimitada. Com o amadurecimento do córtex pré-frontal e a estabilização das relações sociais na vida jovem-adulta, a confusão de papéis tende a ceder lugar a uma personalidade mais firme. O sujeito emerge do túnel com uma história coerente sobre quem ele é.

A difusão de identidade, se não tratada, tende a cronificar-se. Ela não se resolve com o simples passar dos anos porque não é um problema de "amadurecimento", mas de organização estrutural. Sem intervenção terapêutica, como a Psicoterapia Focada na Transferência (TFP) desenvolvida por Kernberg, o indivíduo continua a experimentar o "vazio crônico", a falta de objetivos a longo prazo e a incapacidade de manter compromissos profissionais ou afetivos.

Enquanto o adolescente está construindo um prédio e enfrenta o caos do canteiro de obras, o indivíduo com organização borderline possui uma falha nos alicerces. O prédio pode até subir, mas qualquer tremor emocional revela as rachaduras estruturais da falta de um self coeso. Reconhecer essa diferença é vital: tratar uma crise normativa como patologia pode estigmatizar o jovem; ignorar uma difusão de identidade como se fosse "apenas uma fase" pode privar o indivíduo do suporte estruturante necessário para evitar uma vida de fragmentação e sofrimento.

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