A resposta curta é sim, a psicanálise não apenas se detém a esses estudos, como é uma das poucas disciplinas que se recusa a olhar para o comportamento sexual apenas como uma "falha biológica" ou um "erro de processamento cognitivo". No entanto, a forma como ela faz isso mudou drasticamente desde Freud. Hoje, o debate gira em torno da fronteira entre o desejo singular e o sofrimento subjetivo.
A transição do catálogo de desvios para a estrutura clínica
Nos primórdios da psicanálise, com a publicação dos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), Freud revolucionou o pensamento da época ao afirmar que a sexualidade humana é, por natureza, "polimorfamente perversa". Isso significa que, para a psicanálise, não existe um instinto sexual natural voltado exclusivamente para a procriação. O que chamamos de "normalidade" seria apenas uma das muitas formas de organizar o desejo, moldada pela cultura e pelo Complexo de Édipo.
Na atualidade, a psicanálise se diferencia da psiquiatria diagnóstica por não focar apenas no objeto do desejo (se a pessoa sente excitação por objetos, pés, ou situações de dor), mas na função que esse comportamento exerce na economia psíquica do sujeito. Enquanto o DSM-5 busca categorizar o que é um transtorno parafílico (geralmente focado em critérios de consentimento e sofrimento do próprio indivíduo), a psicanálise contemporânea busca entender a estrutura subjacente.
Estudar as parafilias hoje, para um psicanalista, significa investigar como o sujeito lida com a castração e com a alteridade. A "parafilia" não é vista como uma doença a ser curada para que o sujeito se torne "heteronormativo", mas sim como uma solução subjetiva, muitas vezes rígida, que o indivíduo encontrou para lidar com a angústia. O foco saiu do "o que a pessoa faz entre quatro paredes" para "o que essa prática diz sobre como essa pessoa se relaciona com o mundo e com a lei".
O fetichismo como paradigma da subjetividade moderna
Um dos pontos centrais onde a psicanálise mais se detém nos estudos atuais é o fetichismo. Freud o descreveu como o mecanismo de desmentida (Verleugnung): o sujeito sabe que a castração existe, mas age como se não existisse, criando um objeto substituto (o fetiche) para preencher essa falta.
Na contemporaneidade, esse estudo se expandiu. Vivemos em uma cultura saturada por objetos e pelo consumo, o que leva muitos teóricos a dizerem que vivemos em uma "era fetichista". A psicanálise atual observa que as parafilias estão se tornando mais visíveis e diversificadas devido à mediação tecnológica. O estudo do fetiche hoje não se limita a peças de roupa ou partes do corpo; ele se estende à forma como o desejo é mediado por telas e algoritmos.
A contribuição psicanalítica moderna sugere que a parafilia funciona como uma "certeza" em um mundo de incertezas. Em um relacionamento comum, o desejo do outro é enigmático e assustador. Na estrutura parafílica, o cenário é montado para que não haja surpresas. O estudo atual se debruça sobre essa necessidade de controle absoluto sobre o prazer, que serve como uma defesa contra a vulnerabilidade do encontro amoroso real. Portanto, a psicanálise não apenas estuda as parafilias, mas as usa para entender as novas formas de sofrimento social.
A ética do desejo e a despatologização
Um dos debates mais intensos na psicanálise contemporânea é o movimento de despatologização das identidades e práticas sexuais. Durante décadas, a psicanálise foi acusada de ser normativa, rotulando qualquer prática fora do coito vaginal como "perversão". No entanto, a clínica atual tem se esforçado para separar o que é uma estrutura clínica perversa de uma prática sexual diversa.
Essa distinção é fundamental. Uma pessoa pode ter uma prática BDSM (Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo), por exemplo, e possuir uma estrutura neurótica, vivenciando essa prática de forma consensual, lúdica e integrada à sua vida. Por outro lado, a estrutura que a psicanálise chama de perversão envolve o uso do outro como um objeto instrumental para o gozo, sem o reconhecimento da subjetividade alheia.
Os estudos atuais focam nessa fronteira ética. A psicanálise se detém nas parafilias para questionar: quando uma prática sexual se torna um sintoma que aprisiona o sujeito? Se o indivíduo só consegue obter prazer através de um único roteiro específico e isso lhe causa isolamento ou sofrimento, a psicanálise intervém não para "corrigir" o desejo, mas para devolver ao sujeito a liberdade de desejar de outras formas. A ética da psicanálise contemporânea é a do "bem-dizer" sobre o desejo, respeitando a singularidade, desde que haja espaço para a alteridade.
O impacto da pornografia e do digital nas novas parafilias
Não se pode falar de psicanálise e parafilias hoje sem mencionar a revolução digital. A facilidade de acesso a conteúdos de nicho criou o que alguns analistas chamam de "parafilias induzidas" ou, ao menos, uma cristalização mais rápida de fantasias que, em outros tempos, permaneceriam latentes.
A psicanálise contemporânea estuda como o consumo compulsivo de pornografia pode alterar a economia do desejo. Jacques Lacan, em seus seminários, já apontava que o "objeto a" (o objeto causa do desejo) é o que move o sujeito. No mundo digital, esse objeto é oferecido em excesso, mas nunca satisfaz. Isso gera um ciclo de busca por estímulos cada vez mais específicos e extremos para romper a anestesia sensorial.
Os estudos psicanalíticos atuais sugerem que muitas parafilias emergentes são tentativas desesperadas de "sentir algo" em uma cultura de excesso de imagem. Onde a psiquiatria vê um vício ou um desvio de comportamento, a psicanálise vê um sujeito tentando desesperadamente se localizar como um ser desejante frente a uma máquina (a internet) que o trata apenas como um consumidor de pixels. Essa análise do impacto da tecnologia na constituição do fetiche é uma das áreas mais ricas da teoria clínica atual.
A perversão social e o declínio da função paterna
Por fim, a psicanálise expande o estudo das parafilias para além do consultório, analisando a própria sociedade. Muitos autores contemporâneos falam de uma "socialização da perversão". Isso não significa que todos se tornaram "parafílicos" no sentido sexual, mas que os mecanismos psíquicos da perversão, como a negação da realidade e a instrumentalização do outro, tornaram-se a norma nas relações sociais e políticas.
O estudo das parafilias serve como um espelho para o declínio da "Função Paterna" (a lei simbólica que limita o gozo). Em uma cultura que diz "Goze a qualquer custo!" e "Nada é proibido", o limite que define a parafilia se torna borrado. A psicanálise se detém nesses estudos para entender por que, paradoxalmente, quanto mais liberdade sexual temos, mais as pessoas parecem presas a roteiros sexuais rígidos e mecânicos.
Conclui-se que a psicanálise não apenas continua estudando as parafilias, como as considera essenciais para compreender a condição humana atual. Ela oferece uma escuta que a ciência médica não consegue prover: a escuta do sentido oculto por trás do ato. Enquanto houver desejo humano e o conflito entre esse desejo e as exigências da cultura, a psicanálise terá nas "parafilias" um campo de investigação vital para entender quem somos quando as luzes se apagam.
Referências/Bibliografia
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