O que significa ACOMOCLITISMO para a Psicanálise?

Cera para depilação e uma espátula de madeira.

O acomoclitismo é um termo que designa um fetiche sexual específico: a atração erótica por genitais femininos depilados ou sem pelos pubianos. Embora possa parecer um fenômeno contemporâneo, associado às práticas estéticas modernas e à cultura da pornografia, sua compreensão exige uma análise mais profunda, tanto do ponto de vista histórico quanto psicanalítico. A psicanálise, enquanto campo teórico inaugurado por Sigmund Freud, oferece ferramentas conceituais para interpretar esse tipo de fetiche, relacionando-o com dinâmicas inconscientes, simbolismos ligados ao corpo e às pulsões, bem como às estruturas de desejo e fantasia.

Acomoclitismo como Fetiche Sexual

O fetiche, na terminologia psicanalítica, é uma forma de investimento libidinal em um objeto ou característica que substitui ou desloca o foco do desejo sexual. No caso do acomoclitismo, o objeto de fetiche não é o corpo feminino em sua totalidade, mas especificamente a ausência de pelos pubianos. Essa ausência é erotizada, transformando-se em condição de excitação e prazer.

A palavra deriva do grego akomoklitós, que significa “sem pelos”. O termo, portanto, descreve não apenas uma preferência estética, mas uma estrutura de desejo que se organiza em torno da visualidade e da simbolização da nudez genital. O acomoclitismo pode ser entendido como uma forma de fetichismo genital, em que o valor erótico é atribuído a uma característica que, em si mesma, não é sexual, mas que se torna sexualizada pela fantasia.

A Perspectiva Psicanalítica sobre o Fetiche

Na psicanálise, o fetiche é interpretado como uma formação defensiva diante da angústia de castração. Freud, em seu texto “Fetichismo” (1927), descreve o fetiche como um substituto do falo materno, uma tentativa inconsciente de negar a percepção da diferença sexual. O sujeito, ao se fixar em um objeto fetichista, evita confrontar-se com a falta e com a castração simbólica.

No caso do acomoclitismo, a ausência de pelos pode ser interpretada como uma representação regressiva da genitalidade feminina, remetendo a uma imagem infantilizada do corpo. A psicanálise entende que essa regressão não é literal, mas simbólica: o corpo depilado evoca uma fantasia de pureza, de ausência de marcas da maturidade sexual, funcionando como um mecanismo de negação da diferença sexual adulta.

Assim, o acomoclitismo pode ser visto como uma forma de fetiche que desloca o desejo para uma característica que simboliza a negação da maturidade genital. A ausência de pelos, nesse sentido, não é apenas estética, mas carrega uma função psíquica: sustentar a fantasia de um corpo idealizado, livre da angústia da castração.

Acomoclitismo e Dinâmicas Inconscientes

A psicanálise enfatiza que o fetiche não é uma escolha consciente, mas uma formação inconsciente que organiza o desejo. O acomoclitismo, portanto, não deve ser reduzido a uma simples preferência estética ou cultural, mas compreendido como uma estrutura de fantasia que responde a conflitos psíquicos.

Entre os principais aspectos inconscientes relacionados ao acomoclitismo, destacam-se:

  • Negação da castração: a ausência de pelos pode simbolizar a negação da diferença sexual, funcionando como um substituto fetichista que protege o sujeito da angústia.
  • Idealização da pureza: o corpo depilado pode ser fantasiado como mais “limpo”, “puro” ou “infantilizado”, evocando representações inconscientes de inocência e perfeição.
  • Controle do corpo feminino: a depilação pode ser interpretada como uma forma de disciplinar e controlar o corpo feminino, tornando-o objeto de consumo visual e erótico.
  • Regressão e fixação: o fetiche pode expressar uma regressão a fases pré-genitais do desenvolvimento psicossexual, em que o corpo infantilizado é erotizado.

Esses elementos revelam que o acomoclitismo não é apenas uma prática cultural, mas uma formação psíquica que articula desejo, fantasia e defesa inconsciente.

Cultura, Estética e Psicanálise

Embora a psicanálise interprete o acomoclitismo como um fetiche ligado à dinâmica inconsciente, é importante reconhecer que a cultura contemporânea desempenha um papel fundamental na difusão dessa prática. A pornografia, a indústria da moda e os padrões estéticos modernos reforçam a valorização do corpo depilado, transformando-o em norma de beleza e erotismo.

A psicanálise, no entanto, alerta para o risco de naturalizar essas práticas sem considerar sua dimensão inconsciente. O acomoclitismo, mesmo quando difundido culturalmente, continua sendo uma formação fetichista que responde a conflitos psíquicos. A cultura pode reforçar ou legitimar o fetiche, mas não elimina sua função inconsciente.

Assim, o acomoclitismo pode ser visto como um ponto de encontro entre inconsciente e cultura: uma prática estética que se torna fetiche porque responde a fantasias inconscientes de pureza, controle e negação da castração.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund (1927). Fetichismo. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 21, pp. 175-185.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. 11 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

MCDOUGALL, Joyce. Teatros do corpo: o psicossoma em psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1989.

Quinet, A. O Fetichismo e a Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário da psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. 

📚 Leituras recomendadas sobre essa temática   

  Capa Livro 1  

O futuro de uma ilusão e outros textos

Sigmund Freud

Comprar na Amazon  
   
  Capa Livro 1  

Fetichismo: Colonizar o outro

Vladimir Safatle

Comprar na Amazon  
   
  Capa Livro 1  
Teatros do corpo: O psicossoma em psicanálise

Joyce McDougall

Comprar na Amazon  
   
  Capa Livro 1  

Teatros do Eu. Ilusão e Verdade na Cena Psicanalítica

Joyce McDougall

Comprar na Amazon  
 
  Capa Livro 1  

Dicionário de psicanálise

Elisabeth Roudinesco e Michel Plon

Comprar na Amazon  
 
 
Minha Foto

Frederico Lima é psicanalista e especialista em Teoria Psicanalítica. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.