O conceito de sintoma na psicanálise dista radicalmente da perspectiva médica tradicional. Enquanto na medicina o sintoma é lido como um sinal de disfunção orgânica a ser eliminado, na metapsicologia freudiana e na releitura lacaniana, ele emerge como uma formação do inconsciente dotada de sentido e uma modalidade paradoxal de satisfação pulsional.
A Formação do Sintoma e o Compromisso Inconsciente
Para Sigmund Freud, o sintoma é, primordialmente, uma formação de compromisso (Kompromissbildung). Ele resulta de um conflito psíquico entre duas forças antagônicas: uma moção pulsional que busca satisfação e uma instância defensiva (o Recalque ou Verdrängung) que se opõe a essa satisfação por considerá-la inconciliável com as exigências do Ego ou da realidade moral. O sintoma nasce quando o recalque falha parcialmente. O desejo recalcado, impedido de se manifestar de forma direta, retorna de maneira disfarçada, encontrando um canal de expressão substitutivo através de processos como a condensação e o deslocamento.
Nesse sentido, o sintoma é um substituto de uma satisfação pulsional que foi frustrada. No entanto, essa satisfação é vivida pelo Eu como sofrimento. Freud descreve essa dinâmica através do conceito de "ganho secundário", mas a estrutura fundamental reside no fato de que o sintoma "fala" algo que o sujeito não pode dizer conscientemente. Ele é uma escrita enigmática no corpo (na histeria) ou no pensamento (na neurose obsessiva), funcionando como um jeroglífico que demanda interpretação. Ao contrário do sinal médico, que é unívoco, o sintoma psicanalítico é sobredeterminado; ele condensa múltiplos sentidos e traumas, servindo como uma tentativa de cura do próprio aparelho psíquico, uma forma de manter o equilíbrio possível diante de tensões insuportáveis.
O Sentido do Sintoma e a Verdade do Sujeito
A abordagem psicanalítica sustenta que o sintoma possui um sentido (Sinn) que está articulado à história singular do sujeito. Nas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, Freud demonstra que, ao investigarmos as associações livres de um paciente, o sintoma deixa de ser um ruído sem propósito para se tornar um texto sagrado. Ele carrega a "verdade" do sujeito, uma verdade que foi censurada porque era dolorosa demais para ser admitida. O sintoma, portanto, não é apenas um problema a ser removido, mas um portador de uma mensagem endereçada ao Outro.
Jacques Lacan, em sua primeira fase de ensino, radicaliza essa perspectiva ao afirmar que "o sintoma é uma metáfora". Assim como a metáfora substitui um termo por outro para gerar um novo sentido, o sintoma substitui uma significação traumática recalcada por uma manifestação fenomenológica (um tique, uma fobia, uma paralisia). Ele está estruturado como uma linguagem. O trabalho da análise consiste em "fazer o sintoma falar", transformando o sintoma-mudo em palavra compartilhada. Quando o sujeito consegue traduzir em significantes a verdade que o sintoma encenava, a necessidade da produção sintomática tende a ceder, pois o conflito encontra uma via de descarga simbólica. No entanto, a psicanálise descobre que há algo no sintoma que resiste à interpretação, um resto que não se reduz à palavra.
Do Sentido ao Gozo a Inércia do Sintoma
À medida que a teoria psicanalítica avançou, percebeu-se que a simples interpretação do sentido não era suficiente para dissolver todos os sintomas. Freud introduziu o conceito de "Reação Terapêutica Negativa" e a ideia de que o sujeito se apega ao seu sofrimento devido a uma satisfação libidinal inconsciente. Aqui, o conceito de sintoma transita da dimensão do sentido para a dimensão da pulsão de morte. Lacan nomeia esse componente extra-significante de "Gozo" (Jouissance). O gozo não é prazer; é uma satisfação paradoxal, excessiva e muitas vezes dolorosa, que habita o sintoma e faz com que o sujeito retorne sempre ao mesmo lugar de sofrimento.
Nesta perspectiva, o sintoma é o modo como o sujeito organiza seu gozo. Ele é uma "maneira de viver" a pulsão. Enquanto a face metafórica do sintoma busca ser decifrada, sua face de gozo busca apenas a repetição. Isso explica por que, mesmo sabendo que um comportamento é prejudicial, o sujeito não consegue abandoná-lo. O sintoma torna-se o "parceiro" mais fiel do indivíduo, pois preenche o vazio deixado pela castração. No último ensino de Lacan, o sintoma ganha uma nova grafia, o Sinthome, que representa a função de enlace que mantém a estrutura do sujeito (o Real, o Simbólico e o Imaginário) unida. O Sinthome é aquilo que permite ao sujeito não "desmanchar", sendo a solução singular que cada um inventa para lidar com a ausência de uma relação sexual harmoniosa ou de um sentido último para a existência.
A Posição do Analista e o Manejo da Transferência
A direção do tratamento psicanalítico em relação ao sintoma não visa o retorno a uma suposta "normalidade" adaptativa, mas sim uma mudança na relação do sujeito com seu próprio sintoma. No início da análise, o paciente chega pedindo para ser curado, vendo o sintoma como um corpo estranho que deve ser extirpado. O papel do analista é, inicialmente, promover a "subjetivação do sintoma", ou seja, fazer com que o sujeito se reconheça como implicado naquela produção, deixando de vê-la como um azar biológico ou um castigo externo.
Através da transferência, o sintoma é deslocado para a figura do analista, tornando-se um "sintoma analítico". O analista não oferece um saber pronto, mas ocupa o lugar de "Sujeito Suposto Saber", incentivando o paciente a investigar os significantes mestre que regem sua vida. Ao final de uma análise, o objetivo não é a eliminação total do sintoma, o que seria impossível, dado que a estrutura humana é inerentemente faltante, mas o que Lacan chamou de "saber lidar com o seu sintoma" (savoir-y-faire). Isso significa que o sujeito, após atravessar a fantasia e reconhecer o núcleo de gozo de sua condição, pode transformar o sintoma incapacitante em uma marca de singularidade, utilizando essa energia psíquica para a criação, para o trabalho e para um laço social menos mortífero.
Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 13: Conferências introdutórias sobre psicanálise (1916-1917). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 17: Inibição, sintoma e angústia, O porvir de uma ilusão e outros textos (1923-1929). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 23: o sinthome. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
MILLER, Jacques-Alain. Ler um sintoma. Tradução de Vera Avellar Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2015.
ZIZEK, Slavoj. Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da ideologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
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