Publicado inicialmente em formato de folhetim na revista O Mensageiro Russo, entre 1875 e 1877, e posteriormente lançado como livro em 1878, Anna Karenina é frequentemente apontado pelo próprio autor como o seu primeiro romance em sentido estrito, distanciando-se do caráter histórico-epopeico de Guerra e Paz. Na obra, o contexto da Rússia czarista sob o reinado de Alexandre II, momento marcado por reformismos, tensões rurais, debates sobre a emancipação feminina e o avanço da modernização técnica, serve não apenas como plano de fundo, mas como um organismo vivo que condiciona a conduta e o destino das figuras representadas.
A estrutura narrativa de Anna Karenina apoia-se em um narrador heterodiegético de terceira pessoa, cuja voz narrativa utiliza uma focalização interna variável, alternando a perspectiva psicológica entre múltiplos personagens. Essa alternância permite ao leitor um acesso íntimo aos fluxos de consciência, aos dilemas morais e às contradições internas dos protagonistas. Sob a ótica da teoria da narrativa, o grande trunfo estético de Tolstói está no domínio do focalizor: a transição fluida do olhar de Anna para o de Vrónski, ou do de Levin para o de Kitty, constrói um efeito de polifonia atenuada, no qual a verdade moral de nenhum indivíduo é absoluta, mas sim contrastada continuamente pelo ecossistema social ao seu redor.
A estrutura do livro apoia-se em dois eixos paralelos e espelhados. O primeiro eixo gira em torno de Anna Arkádievna Karenina, dama da aristocracia de São Petersburgo, cujo casamento funcional com Alexei Alexandrovitch Karenin, um burocrata pragmático e frio, é desestabilizado pela paixão avassaladora pelo conde Alexei Vrónski, um jovem oficial de cavalaria. O segundo eixo é protagonizado por Konstantin Levin, um proprietário rural de inclinações reflexivas e melancólicas, cujos esforços se concentram na busca por um sentido existencial, na reorganização do trabalho agrícola e no amor por Kiti Czerbátskaia. Por meio desse esquema, a narrativa contrasta a vida urbana da elite aristocrática, marcada por convenções rígidas e artificialismos, com a experiência do espaço rural, associada ao trabalho com a terra, à simplicidade e à busca por redenção espiritual.
No plano estilístico, Tolstói faz um uso brilhante daquilo que a crítica formalista russa denominou de estranhamento (ostranenie), técnica que consiste em descontextualizar cenas cotidianas para revelar a artificialidade das convenções sociais. Um exemplo prático ocorre nas sequências dedicadas às corridas de cavalos ou aos bailes da alta sociedade, onde os rituais mundanos são dissecados sob um olhar implacável que expõe a vacuidade dos comportamentos calculados. Além disso, o autor emprega uma técnica de adensamento psicológico que antecipa recursos do monólogo interior moderno. A escrita acompanha os micro-pensamentos, as hesitações e os saltos de associação lógica das personagens, capturando a volatilidade da mente humana diante da culpa, do desejo e da alienação social.
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A tragédia pessoal de Anna não decorre apenas da transgressão conjugal em si, visto que casos extraconjugais eram tolerados nos bastidores da elite do Império Russo, mas sobretudo de sua recusa em manter o romance na clandestinidade hipócrita exigida por seu meio. Ao reivindicar publicamente a autenticidade de seu sentimento por Vrónski e ao confrontar as leis civis e religiosas da época, a protagonista enfrenta o ostracismo social e o isolamento psicológico. A perda gradual do convívio com o filho, associada ao ciúme doentio e à dependência emocional que passa a nutrir em relação ao amante, desencadeia um processo de corrosão interna. O desgaste moral da personagem reflete a impossibilidade de conciliar a busca por autonomia individual em uma estrutura social que nega à mulher qualquer agência fora da tutela matrimonial.
Em contrapartida, a trajetória de Levin se sustenta em um contrapeso ético e ideológico muito particular, isso porque ele carrega traços autobiográficos do próprio Tolstói. Levin rejeita a futilidade da vida metropolitana de Moscou e São Petersburgo em favor de uma busca existencial no campo. Suas meditações sobre o trabalho braçal, a gestão da terra e a relação com os camponeses funcionam como ensaios integrados ao tecido ficcional, nos quais se debatem as correntes filosóficas e econômicas do século XIX, do socialismo nascente ao fisiocratismo. O matrimônio com Kiti e a vivência das rotinas rurais oferecem a Levin uma via de estabilidade espiritual, estabelecendo um nexo de oposição com o espiral descendente e destrutivo vivenciado por Anna.
Por Liev Tolstói
Sobre:Considerado uma das obras-primas de Tolstoi, «Ana Karenina» desenrola-se no final do século XIX e narra a história de uma mulher da alta sociedade russa que, em consequência do seu casamento infeliz, se envolve numa relação adúltera.
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Graduado, mestre e doutor em Letras pela UFPB. Possui ainda formação em Psicanálise, especializações em Teoria Psicanalítica, Literatura Brasileira e Literatura Contemporânea. Atua, há mais de 5 anos, na editoração digital de periódicos científicos, bem como nos processos de revisão, adequação ABNT e diagramação de artigos científicos.