15/09/2026

O que significa Função Emotiva na Teoria da Literatura?

Em seu conhecido modelo de Teoria da Linguagem aplicada à arte literária, Roman Jakobson postula que todo ato comunicativo envolve seis elementos: emissor, receptor, mensagem, contexto, código e canal. A cada um desses elementos corresponde uma função de linguagem específica. Quando o foco da comunicação incide prioritariamente sobre o próprio emissor, a sua subjetividade, seus sentimentos, estados de alma e visões de mundo, o que predomina é a Função Emotiva, a qual busca ir além da apresentação de informações sobre ambiente, tempo e circunstâncias, revelando o interior de quem fala, ou seja, convertendo a linguagem em um espelho da psique e do coração.

Na Literatura, essa função tende a se manifestar através de contornos complexos. Enquanto no uso cotidiano a expressão de uma emoção pode ser apenas espontânea e utilitária, como um suspiro ou um grito de dor, na obra de arte a emotividade é atrelada à estética. Assim, é um equívoco considerar que a Função Emotiva literária é o simples desabafo da pessoa física do autor, quando, na verdade, a construção se baseia na voz poética um eu lírico ou de um narrador. É a transformação da dor, do desejo, da melancolia ou do êxtase em matéria verbal organizada, capaz de ressoar na alma do leitor.

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Historicamente, a Função Emotiva encontrou seu maior destaque durante o Romantismo, movimento que elencou o indivíduo e a sua vida interior ao centro do universo artístico. É impossível falar dessa função sem mencionar o nome de figuras como Johann Wolfgang von Goethe e o seu Os Sofrimentos do Jovem Werther. Nessa obra-prima estruturada sob a forma epistolar, a linguagem deixa de ser um simples veículo descritivo dos fatos para se tornar o diário que testifica as agonias do protagonista. As cartas de Werther para seu amigo Wilhelm não visam descrever a paisagem alemã com objetividade, mas sim traduzir como aquela paisagem ecoa dentro de sua alma despedaçada pela paixão inalcançável por Lotte. A pontuação exclamativa, as interjeições, as frases entrecortadas e a carga adjetiva hiperbólica servem perfeitamente à Função Emotiva, demonstrando que a realidade exterior existe apenas como reflexo do turbilhão subjetivo do emissor.

Algo parecido pode ser observado no clássico Drácula, de Abraham "Bram" Stoker, cuja adoção do formato epistolar faz com que o leitor possa tomar vislumbrar e tomar para si parte das angústias sentidas, sobretudo, pelo jovem advogado Jonathan Harker durante o processo de descoberta dos segredos do seu anfitrião.

Todaviam, é importante percebermos que a Função Emotiva não se restringe à prosa sentimental ou à poesia lírica romântica. Ela reaparece de forma acentuada nas vanguardas e no Modernismo, onde a subjetividade passa a ser filtrada pela angústia existencial, pela fragmentação da memória e pelo fluxo de consciência. Em Pauliceia Desvairada, de Mário de Andrade, por exemplo, a cidade de São Paulo não é retratada geograficamente, e sim através dos afetos, das repulsa e do amor irônico do eu poético. O tom confessional e desmedido rasga a sintaxe tradicional para dar lugar a uma expressão emotiva pura, onde a linguagem se dobra para conseguir registrar a velocidade das sensações do poeta frente à metrópole em transformação.

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Outro momento da Função Emotiva a ser sublinhado na prosa modernista encontra-se na obra da escritora ucraniana-brasileira Clarice Lispector. Em A Hora da Estrela, de um lado, temos o narrador Rodrigo S.M., que expõe sem pudores suas hesitações, dores, culpas e a crise existencial decorrente do ato de escrever sobre a "miserável" Macabéa. De outro, a própria narrativa se converte em uma dolorosa fotografia da condição humana. Clarice Lispector utiliza a Função Emotiva afastada do propósito de alimentar um sentimentalismo barato, dando lugar ao que podemos chamar de investigação íntima da natureza humana. O texto clariceano, nesse quesito, expõe o emissor "em carne viva" diante do leitor, e, com isso, mostra-nos como ela faz da palavra uma ponte entre a angústia existencial e o abismo do outro.

Referências Bibliográficas

ANDRADE, Mário de. Pauliceia Desvairada. 3. ed. Jandira–SP: Principis, 2019.

GOETHE, Johann Wolfgang von. Os sofrimentos do jovem Werther. Tradução e notas de Mauricio Mendonça Cardozo. 1. ed. São Paulo: Penguin-Companhia, 2021.

JAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. 22. ed. São Paulo: Cultrix, 2013.

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. 1. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.

STAIGER, Emil. Conceitos Fundamentais da Poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.


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Frederico Lima é graduado em Letras (Licenciatura Plena em Língua Portuguesa), mestre e doutor em Letras (Literatura, Teoria e Crítica) pela UFPB. Também possui formação em Psicanálise e especializações em Teoria Psicanalítica, Literatura Brasileira, e Literatura Contemporânea.

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