A publicação de Drácula, em 1897, pelo escritor irlandês Abraham "Bram" Stoker (1847–1912), marca um momento de virada na consolidação do romance de horror moderno e na reelaboração do repertório gótico do século XIX. Vinculado à fase tardia da era vitoriana, o autor produziu sua obra-prima em um ambiente cultural atravessado por profundas ambiguidades morais, pelo ápice da expansão imperial britânica e, simultaneamente, por uma constante inquietação quanto ao declínio de sua hegemonia frente ao avanço da modernidade e das transformações sociais. Embora o mito do vampiro já existisse na literatura ocidental em textos precedentes, como o poema de Lord Byron, o conto de John Polidori e a novela Carmilla, de Sheridan Le Fanu, a obra escrita por Stoker destacou-se pela capacidade de sintetizar o folclore do leste europeu com os dilemas científicos, tecnológicos e psíquicos das últimas décadas do século XIX, convertendo a figura do morto-vivo em um emblema de projeções e recalques coletivos.
O grande acerto estrutural da obra, do meu ponto de vista, é a adoção do formato epistolar. Em vez de recorrer a uma voz onisciente capaz de organizar meticulosamente os eventos, o romance constitui-se a partir de uma série de documentos heterogêneos: diários pessoais, correspondências, recortes de jornais, telegramas e diários de bordo, além de transcrições de fonógrafo. Esse recurso à narrativa heterodiegética fragmentada, composta por focalizações internas múltiplas, imprime uma atmosfera de falso realismo documental que acentua a verossimilhança da trama. O leitor é posicionado como um investigador que precisa reunir os fragmentos dispersos para reconstruir a totalidade da narrativa, vivenciando o mesmo estado de incerteza e desamparo epistemológico que acomete os personagens diante do sobrenatural.
O romance está organizado em dois eixos geográficos e simbólicos fundamentais que se contrapõem e se tensionam ao longo do enredo. A abertura da obra, articulada pelos registros do jovem advogado Jonathan Harker, descreve sua viagem ao coração dos Cárpatos com o propósito de formalizar a compra de propriedades imobiliárias em Londres para o Conde Drácula. A estada inicial no castelo transilvano introduz a estética do sublime e do grotesco, onde a arquitetura decrépita, a paisagem hostil e o aprisionamento gradativo do protagonista convertem o espaço físico em uma extensão da mente opressora do aristocrata. Essa primeira etapa estabelece as convenções clássicas do gótico europeu, para em seguida desestabilizá-las quando o vetor de ameaça se desloca da periferia feudal da Europa Oriental para a metrópole industrializada da Grã-Bretanha.
Com a chegada do Conde à Inglaterra, registrada emblematicamente pelo naufrágio do navio Demeter na costa de Whitby, a narrativa transita para o horror urbano e contagioso. A figura de Drácula representa aquilo que a crítica literária convencionou chamar de ansiedade da colonização reversa: a invasão do centro do império por uma força arcaica e predatória vinda de suas margens geopolíticas. O aristocrata transilvano não ataca apenas com a força física, mas com a capacidade de infectar o sangue, corromper a razão e subverter o arcabouço normativo da sociedade ocidental. A vulnerabilidade das jovens burguesas Lucy Westenra e Mina Harker diante do parasitismo do vampiro explicita o terror vitoriano em relação ao descontrole do desejo, à sexualidade feminina não reprimida e à contaminação biológica.
A caracterização dos personagens opera por meio de antíteses estruturais bem definidas. De um lado, encontra-se a figura arquetípica de Drácula, personificação da estagnação feudal, do atavismo e da tirania absolutista. De outro, estabelece-se o grupo de resistência liderado pelo médico e erudito holandês Abraham Van Helsing, acompanhado por Jonathan Harker, pelo doutor John Seward, por Arthur Holmwood, pelo estadunidense Quincey Morris e por Mina Harker. Esta aliança interclasse e transnacional fundamenta sua estratégia defensiva no uso intensivo das mais recentes invenções da época, como o telégrafo, o estenógrafo, a máquina de escrever Remington, o fonógrafo e a transfusão de sangue. O conflito central do romance delineia-se, assim, como o choque direto entre a magia ancestral do passado e o racionalismo pragmático do Ocidente finissecular.
Sob a perspectiva estilística, Stoker demonstra um domínio notável do ritmo narrativo, alternando registros que variam da sobriedade burocrática dos relatórios clínicos de Seward ao lirismo sombrio do diário de Harker e ao tom denso dos diálogos filosóficos de Van Helsing. O uso recorrente de motivos como o sangue, os espelhos, a bruma e a transformação zoomórfica enriquece a espessura simbólica da obra. O sangue, em particular, funciona como signo polissêmico central, figurando ao mesmo tempo como vetor de linhagem aristocrática, veículo de infecção, metáfora para o intercurso sexual e símbolo da salvação teológica, onde o ato da transfusão médica adquire contornos quase sacramentais em sua tentativa de conter o avanço do vício vampírico.
Entretanto, a pretensa superioridade da modernidade racionalista sobre a força das trevas não se sustenta de maneira absoluta ao longo do texto. Para combater a entidade pré-moderna, Van Helsing e seus aliados veem-se forçados a assimilar os métodos do próprio inimigo, recorrendo a rituais arcanos, relíquias sagradas e saberes esotéricos que a ciência oficial da época rejeitava. O romance sugere que o Iluminismo e o positivismo vitoriano são insuficientes por si sós para conter o colapso da ordem moral; a preservação da civilização exige o reatamento com o irracional e a aceitação das forças que ultrapassam a categorização empírica. É nessa fresta de ambiguidade que a escrita de Stoker atinge sua maior voltagem crítica, revelando que o monstruoso não é um elemento puramente externo, mas algo intrínseco às fissuras da própria sociedade que o reprime.
A personagem Mina Harker merece destaque analítico por incorporar as contradições da condição feminina no final do século XIX. Embora por vezes retratada sob o horizonte da pureza idealizada da esposa vitoriana, Mina destaca-se como a mente analítica mais brilhante do grupo, sendo a responsável por organizar, compilar e datilografar a totalidade dos registros que constituem o próprio livro. Sua inteligência logística e sua capacidade de empatia com a psique da criatura, decorrente do vínculo psíquico involuntário estabelecido após o ataque do Conde, revelam a complexidade de uma figura que transita entre a submissão aos papéis tradicionais de gênero e a autonomia intelectual que prenunciava a emergência da "Nova Mulher" da virada do século.
Drácula
Por Bram Stoker
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