Na psicanálise, não trabalhamos com o "azar" ou com a "coincidência" das redes sociais; trabalhamos com a repetição, o inconsciente e o desejo. Se você se encontra sistematicamente em relações com indivíduos que não podem ou não querem se vincular afetivamente, não se trata de um evento externo, mas de uma encenação de um roteiro interno.
A Compulsão à Repetição e o Protótipo Edípico
O conceito fundamental para entender por que alguém "atrai" (ou, mais precisamente, escolhe inconscientemente) a indisponibilidade é a Compulsão à Repetição (Wiederholungszwang). Sigmund Freud, em sua obra Além do Princípio do Prazer (1920), observou que o sujeito tende a repetir experiências traumáticas ou desprazerosas do passado na esperança de, desta vez, obter um domínio sobre elas ou um desfecho diferente.
A escolha de objeto amoroso não é aleatória. Ela é pautada pelo que Freud chamou de série psíquica: uma coleção de traços e características baseada nas primeiras figuras de cuidado (geralmente os pais). Se, na infância, houve um cuidador emocionalmente distante, frio ou intermitente, essa "falha" torna-se o modelo do que é o amor. O sujeito, ao buscar um parceiro indisponível, está, na verdade, tentando atualizar o conflito infantil não resolvido. Há uma fantasia inconsciente de que, se eu conseguir fazer com que essa pessoa, que representa meu pai ou minha mãe, finalmente me ame e se torne disponível, eu estarei curado da ferida narcísica original.
Nesse cenário, a disponibilidade emocional do outro é percebida como estranha ou até "desinteressante". O psiquismo, habituado ao deserto afetivo, confunde a ansiedade da conquista com o desejo. O objeto que se retrai gera um aumento da libido de investimento, pois a falta é o motor do desejo. Se o objeto está plenamente presente, a falta se extingue e, para certas estruturas neuróticas, o desejo desvanece. Portanto, a indisponibilidade do outro serve como o combustível necessário para manter o desejo vivo, ainda que às custas do sofrimento do ego.
O Narcisismo e a Proteção Contra a Castração
A escolha por pessoas indisponíveis também pode ser lida como uma poderosa manobra defensiva. Embora conscientemente o sujeito sofra e reclame da solidão, inconscientemente ele pode estar protegendo-se da verdadeira intimidade. A intimidade real exige vulnerabilidade e, consequentemente, a aceitação da castração, o reconhecimento de que somos incompletos e que o outro também o é.
Ao escolher alguém que "não pode" estar presente, o sujeito mantém uma distância segura. Se o outro nunca entra de fato na vida do sujeito, ele nunca corre o risco de ser verdadeiramente conhecido, rejeitado ou abandonado em uma base de realidade. A relação permanece no campo da idealização. Enquanto o parceiro é indisponível, ele pode ser o que eu quiser que ele seja no meu imaginário. A partir do momento em que ele se torna disponível, ele se torna humano, limitado e falho.
Jacques Lacan postula que o desejo humano é o "desejo do Outro". Muitas vezes, o sujeito busca alguém que é desejado por muitos, mas que não se entrega a ninguém, para sustentar seu próprio Narcisismo. A lógica é: "Se eu for o único a conquistar esse ser inalcançável, eu provarei meu valor excepcional". Quando o outro se mostra indisponível, ele mantém sua aura de perfeição inatingível, e o sujeito se mantém na posição de "eterno buscador", evitando o luto que toda relação real impõe. É uma forma de negar a alteridade; prefere-se o sofrimento da ausência ao risco da presença real, que sempre traz consigo o conflito e a diferença.
A Posição Masoquista e a Economia do Afeto
Do ponto de vista da economia libidinal, a atração pela indisponibilidade pode estar ligada ao que chamamos de masoquismo moral. No masoquismo, o sujeito encontra um ganho secundário (um prazer paradoxal, o jouissance ou gozo lacaniano) na dor e na privação. Se há um sentimento inconsciente de culpa, derivado de desejos hostis ou incestuosos reprimidos na infância, o sujeito pode buscar relações punitivas como forma de expiação.
Estar com alguém que não te ama de volta, ou que te ignora, é uma forma de confirmar uma autoimagem desvalorizada: "Eu não sou digno de ser amado". O sujeito se coloca na posição de objeto descartável para sustentar a fantasia de um Outro todo-poderoso e cruel. Essa dinâmica é alimentada por uma baixa estima narcísica, onde o investimento libidinal é retirado do próprio Ego e colocado integralmente no Objeto. O objeto indisponível torna-se o detentor de todo o valor, enquanto o sujeito se esvazia.
Além disso, existe a questão do fantasma (ou fantasia inconsciente). O fantasma organiza a realidade do sujeito e dita como ele deve se posicionar para ser desejado. Se o fantasma do sujeito está estruturado em torno da ideia de que "o amor é dor" ou "o amor é busca", ele filtrará qualquer pretendente que ofereça estabilidade, pois a estabilidade não ressoa com sua verdade subjetiva. A "atração" é, portanto, um filtro perceptivo: o inconsciente ignora os disponíveis e se ilumina diante do sinal de rejeição, reconhecendo ali um território familiar, embora doloroso.
O Vínculo Inseguro e a Fantasia de Salvação
A teoria do apego, embora dialogue com a psicanálise de forma tangencial, ajuda a iluminar o conceito de Transferência. Indivíduos com um histórico de apego ansioso tendem a interpretar a indisponibilidade como um desafio ou como uma prova de fogo. Existe uma onipotência infantil em jogo: a crença de que "o meu amor será tão grande que mudará o outro".
Essa fantasia de salvação é uma tentativa de reverter a impotência sentida diante dos pais. O parceiro indisponível é o palco onde o sujeito tenta, desesperadamente, encenar uma vitória sobre o passado. O problema é que o inconsciente não busca a solução, ele busca a repetição do traço. O sujeito escolhe o parceiro indisponível justamente porque sabe (inconscientemente) que ele não mudará. A manutenção do status quo de sofrimento impede o sujeito de seguir em frente e enfrentar o vazio existencial que a ausência de um conflito "urgente" poderia revelar.
Na análise, percebe-se frequentemente que a queixa contra o "indisponível" oculta a própria indisponibilidade do sujeito. Ao apontar o dedo para o outro que não se compromete, o sujeito evita olhar para o seu próprio medo do compromisso. É um mecanismo de projeção: coloco no outro a impossibilidade da relação para não ter que admitir que eu também estou aterrorizado com a ideia de ser amado e demandado. Afinal, ser amado por alguém disponível exige uma responsabilidade afetiva que o sujeito, preso em suas demandas infantis, pode não estar pronto para assumir.
Referências Bibliográficas
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