
Nascido em 1901, em uma família da burguesia católica francesa, Lacan formou-se em medicina e especializou-se em psiquiatria. Sua tese de doutorado, Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade (1932), já demonstrava uma sensibilidade aguçada para a estrutura da linguagem e para a importância da imagem na constituição do psiquismo. No entanto, foi seu encontro com a linguística estrutural de Ferdinand de Saussure e com a antropologia de Claude Lévi-Strauss que forneceu o arcabouço teórico para sua maior máxima: "o inconsciente é estruturado como um liguagem". Essa premissa altera radicalmente a técnica clínica. O analista deixa de ser um hermeneuta que decifra símbolos ocultos e passa a ser aquele que escuta a lógica do significante, as lacunas no discurso e os equívocos da fala (lapsos, chistes e sonhos).
A importância de Lacan para a psicanálise reside na formalização matemática e lógica que ele tentou imprimir ao campo. Através do uso de matemas, grafos e da topologia (como o nó borromeu e a fita de Möbius), ele buscou transmitir a psicanálise de forma que não se perdesse em sugestões imaginárias ou compreensões empáticas. A clínica lacaniana é uma clínica do real, onde o silêncio do analista e o corte da sessão (o tempo lógico em oposição ao tempo cronológico) servem para confrontar o analisante com o vazio central de sua existência, a falta-a-ser. Ao contrário de uma prática de "acolhimento" caloroso, Lacan propõe uma ética do desejo, onde o analista ocupa o lugar de objeto a, a causa do desejo que impulsiona o sujeito a falar além de suas máscaras narcísicas.
A Ordem do Simbólico, do Imaginário e do Real
Para compreender a arquitetura do pensamento lacaniano, é indispensável dominar a tríade de registros: o Imaginário, o Simbólico e o Real. Esses três termos não são fases do desenvolvimento, mas dimensões que coexistem e se entrelaçam em todo ser humano. O Imaginário refere-se à dimensão das imagens, das identificações e do narcisismo. É onde se situa o Estádio do Espelho, momento crucial entre os seis e dezoito meses de vida, em que a criança antecipa a unidade de seu corpo através da imagem refletida. Essa imagem é, contudo, uma alienação fundamental; o "Eu" nasce de uma ilusão de totalidade que mascara a fragmentação pulsional orgânica. No Imaginário, as relações são duais e espelhadas, marcadas pela rivalidade e pela busca de reconhecimento.
O Simbólico, por sua vez, é a ordem da linguagem, da lei e da cultura. É o registro que introduz a alteridade radical, o "Grande Outro". Se o Imaginário é o domínio do sentido, o Simbólico é o domínio do significante. Lacan subverte Saussure ao afirmar a primazia do significante sobre o significado: o significado "desliza" sob a cadeia significante. É a entrada no Simbólico que permite ao sujeito sair da relação fusional com a mãe (o Outro primário) através da função do Nome-do-Pai. O Pai não é necessariamente a figura biológica, mas a função que opera a castração simbólica, interditando o incesto e permitindo que o desejo circule. Sem o Simbólico, o mundo seria um caos de imagens e afetos sem mediação; é a palavra que "mata a coisa" e cria o mundo humano.
Por fim, o Real é o registro mais complexo e tardio na obra de Lacan. Ele não deve ser confundido com a "realidade", que para Lacan é uma construção entre o Imaginário e o Simbólico. O Real é o que escapa à representação; é o impossível de dizer, o resto, o trauma, o que volta sempre ao mesmo lugar. É o núcleo duro do sintoma que não se dissolve pela interpretação. Na clínica, o Real manifesta-se como angústia ou como o gozo (jouissance), um prazer paradoxal e doloroso que o sujeito obtém de seu próprio sofrimento. A análise lacaniana visa, em última instância, levar o sujeito a "saber fazer" com esse Real, aceitando que há um vazio constitutivo que nenhuma palavra ou objeto pode preencher definitivamente.
O Estádio do Espelho e a Constituição da Subjetividade
O conceito do Estádio do Espelho representa a contribuição seminal de Lacan para a compreensão de como o ser humano se torna um "eu". Diferente de outros animais que perdem o interesse em sua imagem após perceberem que ela é imaterial, a criança humana jubila diante do espelho. Essa alegria advém da percepção de uma forma totalizada, uma Gestalt, que contrasta com a sua experiência interna de prematuração biológica e falta de coordenação motora. O bebê vê no espelho o que ele ainda não é: um ser íntegro e autônomo.
Essa identificação formadora é, no entanto, o alicerce de uma alienação constitutiva. O "Eu" (Moi) é construído sobre uma imagem externa, sobre o olhar do Outro (geralmente a mãe que confirma: "esse é você"). Portanto, a identidade humana é, desde o início, uma identidade "estrangeira". Lacan utiliza esse conceito para criticar a ideia de um "ego autônomo" ou saudável. Se o Eu é uma construção imaginária de defesa e alienação, fortalecê-lo na análise seria apenas reforçar a resistência do sujeito em acessar sua verdade inconsciente. O analista não deve se espelhar com o paciente, não deve buscar a "aliança terapêutica" baseada na simpatia, pois isso manteria o processo no nível da ilusão imaginária.
A função do Estádio do Espelho também explica a natureza da agressividade humana. Como o Eu se constitui por uma identificação com a imagem do outro, a relação com o semelhante é sempre mediada pela tensão entre "eu ou ele". O outro é, ao mesmo tempo, aquele que me dá uma identidade e aquele que me rouba o lugar. Essa dialética só é rompida pela entrada do terceiro elemento: a Lei Simbólica. Quando a criança percebe que ela e a mãe estão submetidas a uma regra externa (o Nome-do-Pai), a dualidade imaginária é quebrada, e o sujeito pode começar a se situar não mais como uma imagem, mas como um sujeito que fala dentro de uma linhagem e de uma cultura.
O Desejo, o Grande Outro e o Objeto Pequeno a
Uma das frases mais citadas de Lacan é: "O desejo do homem é o desejo do Outro". Isso possui múltiplos sentidos. Primeiro, desejamos ser desejados pelo Outro; buscamos ser o objeto que completa a falta do Outro (geralmente o falo simbólico para a mãe). Segundo, desejamos o que o Outro deseja; nossos objetos de consumo e nossas ambições são, muitas vezes, mimetismos do que a cultura e o meio social apontam como valiosos. O desejo, para Lacan, diferencia-se da necessidade (que visa um objeto biológico, como a fome) e da demanda (que é um pedido articulado de amor). O desejo é o que sobra quando a necessidade é subtraída da demanda; é um resto insatisfeito que mantém a vida em movimento.
Neste cenário, surge o conceito de objeto a (objeto pequeno a), talvez a criação mais original de Lacan. O objeto a não é um objeto que possamos possuir, mas a "causa" do desejo. É o brilho no olhar, o tom da voz ou um detalhe que aciona nossa busca erótica ou existencial, mas que desaparece assim que tentamos agarrá-lo. Ele representa a falta original provocada pela entrada na linguagem. Ao falarmos, perdemos o contato direto com a "coisa" e passamos a viver em um mundo de substitutos. O objeto a é o resto dessa operação de simbolização, um pedaço de Real que cai do corpo e em torno do qual a pulsão circula.
Na prática clínica, o analista deve operar a partir deste lugar de objeto a. Ele não deve oferecer ao paciente os objetos de sua demanda (conselhos, aprovação, remédios para a alma), pois isso abafaria o desejo. Em vez disso, o analista sustenta a falta. Ao não responder à demanda do paciente, ele força o sujeito a confrontar o vazio de seu próprio desejo. É nessa lacuna que o sujeito pode deixar de repetir os padrões neuróticos ditados pelo Outro familiar e social e começar a articular um desejo que lhe seja mais singular. A travessia da fantasia, um dos fins possíveis de uma análise lacaniana, consiste justamente em desmistificar o Grande Outro, percebendo que o Outro também é faltante, também não tem a resposta última sobre quem somos.
Referências Bibliográficas
DOR, Joël. Introdução à leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem. Rio de Janeiro: Zahar, 1989.
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LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988.
NASIO, Juan-David. Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.
ROUDINESCO, Elisabeth. Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
ZIZÉK, Slavoj. Como ler Lacan. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
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