A psicanálise, desde a sua fundação por Sigmund Freud no final do século XIX, sempre foi uma disciplina marcada pela investigação profunda da subjetividade humana e pela constante adaptação às transformações culturais e tecnológicas. Com o advento da era digital e, mais recentemente, a aceleração imposta pela crise sanitária global de 2020, uma pergunta central emergiu tanto no seio das instituições psicanalíticas quanto no público leigo: Psicanalistas podem realizar atendimentos online?
Esta questão não toca apenas na viabilidade técnica, mas desafia os pilares do método clínico tradicional. O consultório físico, com seu divã e sua atmosfera de isolamento, foi por décadas considerado o único santuário possível para a livre associação. No entanto, a pós-modernidade impôs a necessidade de repensar a presença. Se o inconsciente se manifesta através da linguagem, seria a barreira física um impedimento real para a cura pela fala?
Atualmente, a prática remota é amplamente aceita, desde que fundamentada no rigor ético e técnico. A transição do presencial para o virtual exige que o analista sustente a escuta flutuante e a transferência mesmo através das telas, garantindo que o espaço simbólico da análise permaneça preservado. Ao longo deste texto, exploraremos como a psicanálise se reinventa no ambiente digital, analisando o embasamento ético no Brasil, a manutenção do setting, os desafios da transferência, a evolução histórica dessa modalidade e as limitações inerentes ao atendimento à distância. O objetivo é compreender como a essência da escuta analítica pode atravessar fronteiras geográficas sem perder sua profundidade transformadora.
O EMBASAMENTO ÉTICO E A LIBERDADE PROFISSIONAL NO BRASIL
Diferente de profissões como a Medicina ou a Psicologia, que possuem conselhos federais criados por lei (como o CFM ou o CFP) para fiscalizar e normatizar rigidamente cada passo da atuação profissional, a psicanálise é considerada uma profissão livre no Brasil. Isso significa que ela não é regulamentada por um conselho de classe estatal, mas sim regida por associações e sociedades psicanalíticas que estabelecem seus próprios códigos de ética e padrões de formação.
A legitimidade da prática psicanalítica online no território brasileiro repousa sobre a Constituição Federal, especificamente no Artigo 5º, inciso XIII, que assegura o livre exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, desde que atendidas as qualificações profissionais. Além disso, o Ministério do Trabalho e Emprego reconhece a ocupação de psicanalista através da CBO 2515-50 (Classificação Brasileira de Ocupações).
Para o atendimento online, o psicanalista deve seguir as diretrizes éticas que priorizam o bem-estar do analisando, a confidencialidade e a integridade do processo. Embora não haja uma lei que proíba o atendimento remoto, as grandes instituições psicanalíticas (como a IPA - Associação Psicanalítica Internacional e diversas escolas lacanianas) passaram a aceitar e até a orientar essa modalidade, reconhecendo que o "setting" (o ambiente analítico) não se restringe às quatro paredes de um consultório físico, mas se estabelece na relação e na escuta.
Contudo, é fundamental ressaltar que, se o psicanalista também for psicólogo de formação, ele deve obrigatoriamente seguir as resoluções do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que exige o cadastro na plataforma e-Psi para a realização de serviços psicológicos por meios tecnológicos. A ética psicanalítica, portanto, exige que o profissional seja transparente sobre suas qualificações e mantenha o rigor técnico, independentemente do meio utilizado.
A MANUTENÇÃO DO SETTING ANALÍTICO NO AMBIENTE VIRTUAL
Um dos maiores desafios da transição para o ambiente digital é a preservação do setting analítico. Na teoria clássica, o setting compreende o conjunto de regras e condições que permitem o desenrolar da análise: o horário fixo, a frequência, o pagamento e o espaço físico neutro e silencioso. No atendimento online, esse espaço físico torna-se híbrido.
Para que o atendimento online seja efetivo, o psicanalista e o analisando precisam "construir" um ambiente de privacidade. O profissional deve garantir que utiliza plataformas com criptografia de ponta a ponta e que está em um local isolado, onde não haja interrupções ou risco de que terceiros ouçam a sessão. Da mesma forma, cabe ao analista orientar o paciente a buscar um espaço seguro, muitas vezes o próprio carro, um quarto trancado ou um horário em que a casa esteja vazia, para que a associação livre não seja cerceada pelo medo de ser ouvido por familiares ou colegas.
A tecnologia, aqui, deve servir como uma ponte, não como um obstáculo. Problemas de conexão, atrasos no áudio (latência) e falhas de vídeo são integrados à análise como elementos que podem revelar resistências ou lapsos. O analista precisa estar atento para que a frieza da tela não se transforme em uma barreira para a escuta flutuante. O rigor no cumprimento dos horários e a manutenção da seriedade em relação ao pagamento continuam sendo âncoras essenciais para que o processo não seja banalizado pela informalidade que o ambiente digital costuma sugerir.
O DESAFIO DA TRANSFERÊNCIA E DA CONTRATRANSFERÊNCIA À DISTÂNCIA
O motor de qualquer análise é a transferência, o fenômeno pelo qual o analisando projeta no analista figuras, desejos e conflitos de seu passado. Historicamente, muitos críticos argumentavam que a ausência física do corpo do analista impediria a formação desse vínculo profundo. No entanto, a prática contemporânea demonstrou que a transferência não depende da presença carnal, mas da presença da fala e do desejo.
A voz, o olhar mediado pela câmera e até os silêncios durante uma chamada de vídeo carregam investimentos libidinais significativos. O inconsciente não conhece a distância geográfica; ele opera através da linguagem. Quando um paciente fala de suas angústias para uma tela, ele está, na verdade, endereçando essa fala ao lugar que o analista ocupa em seu psiquismo.
A contratransferência, o conjunto de reações inconscientes do analista à transferência do paciente, também ganha novos contornos no online. O analista precisa estar atento à fadiga digital (conhecida como "Zoom fatigue") e ao modo como o ambiente doméstico do paciente (que às vezes aparece ao fundo da imagem) influencia suas próprias percepções. A supervisão clínica e a análise pessoal do próprio analista tornam-se ainda mais cruciais para garantir que as particularidades do meio virtual não interfiram na neutralidade e na objetividade necessárias para a interpretação.
HISTÓRICO E EVOLUÇÃO: DA CORRESPONDÊNCIA AO VÍDEO
É um erro comum pensar que a psicanálise a distância é uma invenção do século XXI. O próprio Sigmund Freud utilizou intensamente a comunicação escrita para realizar o que hoje poderíamos considerar "embriões" de atendimentos ou supervisões remotas. O caso mais famoso é o do "Pequeno Hans", em que Freud conduziu a análise da criança através de orientações enviadas por cartas ao pai do menino.
Além disso, a vasta correspondência de Freud com colegas como Sándor Ferenczi e Wilhelm Fliess mostra que a troca de ideias psicanalíticas e a análise de sonhos por meio da escrita já desafiavam as fronteiras geográficas. Ferenczi, por exemplo, foi um dos pioneiros a questionar a rigidez da técnica e a propor adaptações que hoje ressoam na flexibilidade do atendimento online.
Com o passar das décadas, o telefone tornou-se uma ferramenta de suporte para sessões de emergência ou para pacientes que viajavam. Com a internet discada nos anos 90 e a banda larga nos anos 2000, as primeiras experiências com e-mail e chat foram surgindo. No entanto, foi a tecnologia de vídeo de alta definição que permitiu uma proximidade maior com o modelo presencial, preservando elementos não verbais como expressões faciais e variações no tom de voz. A história da psicanálise mostra que ela nunca foi uma doutrina estática, mas um método de investigação que se adapta aos meios de comunicação disponíveis para manter viva a escuta do inconsciente.
LIMITAÇÕES E INDICAÇÕES PARA A MODALIDADE ONLINE
Apesar de sua ampla aceitação e eficácia comprovada por diversos estudos de caso e pesquisas científicas recentes, o atendimento psicanalítico online não é uma panaceia e possui limitações que devem ser avaliadas criteriosamente pelo profissional.
Existem situações clínicas em que a presença física pode ser indispensável. Casos de surtos psicóticos graves, riscos severos de autoextermínio (suicídio) ou pacientes que não possuem o mínimo de privacidade ou domínio tecnológico podem não ser os melhores candidatos para a modalidade estritamente remota. Em situações de crise aguda, a contenção que o ambiente físico oferece e a possibilidade de intervenção direta da rede de apoio local são fatores de segurança que o online não consegue replicar plenamente.
Além disso, a análise de crianças (ludoterapia) apresenta desafios adicionais no ambiente virtual, pois o brincar, que é a linguagem principal da criança na análise, muitas vezes exige a manipulação de objetos compartilhados no mesmo espaço. Embora muitos analistas tenham desenvolvido técnicas criativas para o atendimento infantil online durante a pandemia, muitos ainda preferem o presencial para essa faixa etária.
Em suma, a decisão de realizar o atendimento online deve ser fruto de um acordo ético e técnico entre analista e analisando, sempre priorizando a qualidade da escuta analítica. Quando bem conduzida, a psicanálise online democratiza o acesso ao tratamento, permitindo que pessoas em regiões remotas ou brasileiros residentes no exterior possam encontrar analistas que falem sua língua e compreendam sua cultura, provando que o essencial da psicanálise, a palavra, atravessa qualquer distância.
Fundamentos da clínica psicanalítica
Sigmund Freud
Nos quase 50 anos de reflexão sobre a clínica que este volume recobre, Freud abordou temáticas que vão desde a associação livre e a atenção equiflutuante, a transferência e a repetição, até a formação do analista, o início e o final de uma análise, passando ainda pela interpretação e pelas construções, entre tantas outras.
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