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O conceito de atenção flutuante (ou atenção
livremente flutuante) constitui um dos pilares técnicos e éticos da prática
psicanalítica. Proposto por Sigmund Freud, esse método define a postura mental
que o analista deve adotar durante a sessão para que o processo de investigação
do inconsciente seja
possível.
Para compreender a atenção flutuante, precisamos primeiro
entender que ela é o par dialético da associação livre. Enquanto ao
paciente é solicitado que fale tudo o que lhe vier à mente, sem filtros ou
julgamentos, ao analista é solicitado que escute de uma forma específica: sem
privilegiar nenhum elemento do discurso em detrimento de outro.
As Origens e a Definição Freudiana
Freud formalizou o conceito principalmente em seu artigo de
1912, "Recomendações aos Médicos que Exercem a Psicanálise".
Ele argumentava que, se o analista prestar atenção de forma deliberada e
focada, como fazemos em uma conversa comum ou em um estudo científico
tradicional, ele acaba selecionando involuntariamente o material que considera
importante.
Ao fazer essa seleção baseada em suas próprias expectativas,
inclinações ou conhecimentos prévios, o analista corre dois riscos graves:
- Eliminar
o novo: O analista pode descartar detalhes que parecem triviais,
mas que carregam o peso do inconsciente.
- Projetar
a si mesmo: O analista pode "encontrar" apenas aquilo
que já conhece, transformando a análise em uma confirmação de suas
próprias teorias.
Portanto, a atenção flutuante consiste em não fixar
o olhar (ou a escuta) em nada específico, mantendo uma receptividade
uniforme a tudo o que é dito. É uma espécie de "suspensão do julgamento
crítico" por parte do terapeuta.
O Funcionamento da Escuta Psicanalítica
A atenção flutuante não deve ser confundida com distração ou
desleixo. Pelo contrário, trata-se de um esforço psíquico ativo para manter a
mente aberta. Podemos detalhar seu funcionamento através de três eixos
principais:
A Comunicação de Inconsciente para Inconsciente
Freud utilizou uma metáfora célebre para explicar esse
processo: o analista deve funcionar como um receptor telefônico em
relação ao transmissor (o paciente). Assim como o telefone transforma as ondas
sonoras em oscilações elétricas e depois novamente em sons, o analista deve
usar seu próprio inconsciente para reconstruir o inconsciente do paciente a
partir das derivações que emergem na fala (atos falhos, sonhos, silêncios).
Ao não focar conscientemente, o analista permite que sua
própria vida psíquica ressoe com as formações inconscientes do analisando. É
uma forma de "empatia técnica" onde a lógica secundária (racional) dá
lugar ao processo primário (inconsciente).
A Recusa do Saber Prévio
Na atenção flutuante, o analista abdica temporariamente do
papel de "especialista que tudo sabe". Cada sessão é tratada como um
território virgem. Se o analista se prende ao que o paciente disse na semana
passada ou a um diagnóstico fechado, ele fecha os ouvidos para a surpresa. A
escuta flutuante permite que o sentido surja a posteriori (o
que os franceses chamam de après-coup).
A Neutralidade e a Abstinência
Essa técnica garante a neutralidade analítica. Ao não
privilegiar nenhum tema (seja sexo, dinheiro, infância ou trabalho), o analista
evita dirigir a cura conforme seus próprios valores morais. Ele se torna uma
tela onde as projeções do paciente podem se manifestar com clareza.
Diferença entre Atenção Comum e Atenção Flutuante
|
Característica |
Atenção Comum (Focada) |
Atenção Flutuante |
|
Objetivo |
Compreensão lógica e memorização de fatos. |
Captura de derivados do inconsciente. |
|
Método |
Seleção ativa do que é "importante". |
Suspensão de qualquer seleção voluntária. |
|
Relação com o Tempo |
Linear: liga o início da frase ao fim. |
Atemporal: busca conexões entre temas distantes. |
|
Papel do Analista |
Investigador que busca provas. |
Receptáculo que aguarda o sentido emergir. |
Os Desafios Práticos da Técnica
Manter a atenção flutuante por cinquenta minutos é uma
tarefa exaustiva. O cérebro humano é naturalmente programado para buscar
padrões e organizar o caos. O analista precisa lutar contra a tentação de:
- Anotar
excessivamente: Tomar notas detalhadas durante a sessão obriga a
uma seleção consciente, o que mata a flutuação da atenção.
- Teorizar
precocemente: Tentar encaixar a fala do paciente em um conceito
de Lacan ou Klein enquanto ele ainda está falando impede
a escuta do "singular".
- Reagir
emocionalmente: Se o analista se choca ou se empolga com um
relato, sua atenção deixa de ser flutuante e torna-se focada em seu
próprio afeto.
Por isso, a psicanálise exige que o analista passe por sua
própria análise pessoal. É necessário que seus "pontos cegos" (seus
próprios complexos inconscientes) não interfiram na recepção do material do
paciente.
A Evolução do Conceito: De Freud a Lacan e Bion
Embora Freud tenha fundado o conceito, outros autores o
expandiram:
- Wilfred Bion: Introduziu a ideia de que o analista deve escutar "sem
memória e sem desejo". Para Bion, a memória do passado do
paciente e o desejo de que ele melhore são obstruções à verdade do momento
presente (o "O").
- Jacques Lacan: Enfatizou que a atenção flutuante serve para ouvir o que
está nas entrelinhas, na pontuação do discurso e nos equívocos
da linguagem. O analista escuta o "significante" (a palavra em
si) e não apenas o significado (o conceito).
Por que a Atenção Flutuante é Eficaz?
O objetivo final dessa técnica é a interpretação.
Uma interpretação psicanalítica não é um palpite educado; é algo que atinge o
paciente e produz uma mudança na sua economia psíquica. Essa interpretação só é
possível porque, em algum momento da escuta flutuante, o analista sente um
"estalo", uma conexão inesperada entre dois elementos que pareciam
desconexos.
Se o analista estivesse apenas "prestando atenção"
como um aluno em sala de aula, ele veria a árvore, mas perderia a floresta. A
atenção flutuante permite ver o movimento do desejo por trás das palavras.
Conclusão
A atenção flutuante é, em última análise, um ato de
humildade intelectual e coragem clínica. Ela exige que o analista suporte o
não-saber e a incerteza durante o tempo necessário para que o inconsciente do
paciente se organize e se revele. É o que transforma a clínica psicanalítica em
algo distinto de uma simples psicoterapia de aconselhamento: é uma arte de
escuta das profundezas, onde o silêncio do analista e sua mente aberta permitem
que o sujeito encontre sua própria verdade.
Sem a atenção flutuante, a psicanálise perderia sua alma subversiva e se tornaria apenas mais uma forma de pedagogia ou correção comportamental. É através dela que o analista se torna o guardião do espaço onde o inconsciente pode, finalmente, falar.
Sugestão de leitura sobre essa temática
Escutas em Análise: A subjetividade no divã
Rosane Trapaga
Escutas em análise: a subjetividade no divã é um livro que, por meio da poesia, expressa a subjetividade contemporânea; desde Freud, há mais de cem anos, o analista escuta, em atenção flutuante, o que é vigente, mas insuficiente.
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