| Wilfred Ruprecht Bion, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=28236205 |
Wilfred Ruprecht Bion (1897–1979) não foi apenas um psicanalista; ele foi o cartógrafo das "zonas desconhecidas" da mente humana. Se Freud descobriu o continente do inconsciente e Melanie Klein explorou o mundo das relações objetais arcaicas, Bion foi quem desenvolveu os instrumentos matemáticos e epistemológicos para navegar nas profundezas do pensamento e do não-pensamento.
Sua contribuição é considerada o "terceiro pilar" da psicanálise britânica. Para entender Bion, é preciso mergulhar em uma trajetória que une o trauma da guerra, a observação clínica rigorosa e uma busca incessante pela verdade, mesmo quando esta é dolorosa ou "sem forma".
As Raízes de um Pensador: Da Índia às Trincheiras
A vida de Bion é indissociável de sua teoria. Nascido em Muttra, na Índia, ele viveu uma infância imersa em cores e sensações exóticas até ser enviado aos oito anos para um internato na Inglaterra. Esse "exílio" precoce marcou sua sensibilidade para a perda e a solidão.
No entanto, foi a Primeira Guerra Mundial que forjou seu caráter intelectual. Como comandante de tanques na França, Bion enfrentou o horror absoluto. Ele foi condecorado por bravura, mas carregou um sentimento de "sobrevivência culpada" e uma consciência aguda do medo e da desorganização mental sob pressão. Essas experiências foram o solo fértil para seus estudos posteriores sobre grupos e estados psicóticos.
A Fase dos Grupos: O Nascimento do Pensamento Sistêmico
Após a guerra e sua formação médica, Bion começou a trabalhar na Clínica Tavistock. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele revolucionou a psiquiatria social ao coordenar o Experimento de Northfield, onde tratava soldados traumatizados.
Bion observou que os grupos não se comportam apenas de forma racional (o que ele chamou de Grupo de Trabalho). Sob a superfície, os grupos são dominados por emoções primitivas que ele denominou Pressupostos Básicos:
- Dependência: O grupo busca um líder messiânico que resolva todos os problemas.
- Luta-Fuga: O grupo se mobiliza para atacar um inimigo (real ou imaginário) ou fugir de uma tarefa.
- Acasalamento (Pairing): O grupo foca na esperança de que dois membros gerem uma ideia ou líder que trará a salvação futura.
Essas dinâmicas, segundo Bion, visam evitar a dor do aprendizado e da realidade.
A Teoria das Funções: Função Alfa e Elementos Beta
A transição de Bion para a psicanálise clínica profunda ocorreu sob a supervisão de Melanie Klein. Ele expandiu as ideias kleinianas sobre a identificação projetiva, mas deu a elas um novo significado funcional.
Para Bion, o aparelho mental não nasce pronto; ele precisa ser construído. Ele introduziu dois conceitos fundamentais:
Elementos Beta
São as impressões sensoriais brutas, as "coisas em si" que não foram processadas. São sensações de medo, fome ou dor que o indivíduo não consegue nomear ou pensar. No paciente psicótico, esses elementos são expelidos (como "objetos bizarros") porque a mente não consegue tolerá-los.
Função Alfa
É o processo de "digestão" mental. A Função Alfa transforma elementos beta em Elementos Alfa, que são imagens, sonhos e pensamentos passíveis de serem armazenados na memória e utilizados para o pensar. Sem a função alfa, vivemos em um estado de indigestão psíquica constante.
O Modelo de Continente e Conteúdo (♀♂)
Um dos conceitos mais célebres de Bion explica como a função alfa se desenvolve: através da relação entre a mãe (ou analista) e o bebê (ou paciente).
A mãe exerce o que Bion chamou de Capacidade de Reverie (Devaneio). Quando o bebê projeta seu medo de morrer (elemento beta) na mãe, uma mãe saudável não entra em pânico. Ela recebe esse medo, processa-o em sua própria mente e o devolve ao bebê de forma "desintoxicada" (elemento alfa).
- Conteúdo: O afeto bruto, o pânico, a necessidade.
- Continente: A mente capaz de acolher e dar sentido a esse afeto.
Nesse processo, o bebê não apenas recebe o alívio da angústia, mas também "introjeta" a própria capacidade da mãe de pensar. Ele aprende a criar seu próprio continente interno.
A Grade (The Grid): A Tentativa de Cientificidade
Bion tinha uma preocupação matemática e lógica. Ele criou A Grade, um gráfico de coordenadas para ajudar o analista a classificar o que está acontecendo na sessão.
- O eixo vertical representa a evolução do pensamento (da pré-concepção ao cálculo algébrico).
- O eixo horizontal representa o uso que o paciente faz do que diz (se é para comunicar, para agir ou para destruir o vínculo).
A Grade não era uma ferramenta para ser usada durante a sessão, mas um exercício mental para que o analista pudesse avaliar sua própria técnica e a progressão do paciente.
O Conhecimento e a Verdade: K vs. O
Em sua fase final, Bion tornou-se mais místico e filosófico. Ele diferenciou o ato de "saber sobre" algo (K - de Knowledge) do ato de "tornar-se" a verdade (O).
- K (Conhecimento): É intelectual, defensivo. É quando sabemos fatos sobre nossa história, mas não mudamos.
- O (A Verdade Absoluta): É a realidade última de uma sessão, algo que não pode ser conhecido intelectualmente, apenas experienciado. O analista deve buscar estar em uníssono com "O".
Para alcançar esse estado, Bion sugeriu que o analista deve entrar na sessão "sem memória, sem desejo e sem compreensão". Isso não significa ignorar a técnica, mas sim limpar a mente de pré-conceitos para que a verdade do momento presente possa emergir.
O Pensamento Psicótico e o Ataque ao Elo
Bion estudou profundamente a psicose. Ele percebeu que o psicótico ataca os "elos" de ligação entre as ideias e entre as pessoas. O ódio à realidade leva o indivíduo a fragmentar seu aparelho de percepção.
O ataque ao elo ocorre porque o pensamento dói. Se eu penso, eu percebo que estou sozinho, que sou dependente ou que sofri uma perda. Para evitar essa dor, a mente psicótica destrói a própria capacidade de ligar causa e efeito, resultando em um mundo de fragmentos sem sentido.
A Herança de Bion na Prática Atual
A influência de Bion é vasta e mudou a forma como o analista trabalha hoje:
- A Atitude do Analista: Menos focada em "traduzir" o inconsciente e mais focada em "conter" e "transformar" as experiências emocionais em curso.
- O Foco no Aqui-e-Agora: A análise não é apenas sobre o passado, mas sobre o que está acontecendo na relação presente entre analista e analisando.
- A Tolerância à Incerteza: Bion valorizava a "Capacidade Negativa" (termo emprestado do poeta John Keats), que é a habilidade de permanecer em mistérios e dúvidas sem uma busca irritante por fato e razão.
Conclusão
Wilfred Bion transformou a psicanálise de uma arqueologia do passado em uma epistemologia do presente. Ele nos ensinou que pensar é uma conquista difícil e que a mente humana está em constante luta para digerir a experiência emocional.
Ele não buscava seguidores, mas sim companheiros de investigação. Sua obra, embora densa e às vezes obscura, oferece uma liberdade sem precedentes para o clínico: a liberdade de não saber, de intuir e de permitir que a verdade emocional surja no espaço sagrado e aterrorizante da sessão analítica.
Bion foi, acima de tudo, um homem de coragem. Coragem para enfrentar o caos da guerra, o caos do grupo e, finalmente, o caos da mente, transformando tudo isso em uma teoria que, décadas depois, continua a ser o horizonte mais avançado da psicanálise contemporânea.
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