O que significa PRÉ-GENITAL para a psicanálise?

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O conceito de autoerotismo serve como a pedra angular para a compreensão do desenvolvimento psicossexual humano. Embora o termo possa, à primeira vista, sugerir apenas o ato da masturbação, para a psicanálise ele possui uma profundidade muito maior: trata-se da forma como o sujeito se relaciona com o próprio corpo e como o prazer é descoberto de maneira independente de um objeto externo.

A Origem do Conceito: Freud e os Três Ensaios

O termo foi introduzido por Sigmund Freud em sua obra seminal de 1905, Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Antes de Freud, a sexualidade era vista quase exclusivamente sob a ótica da reprodução e da biologia. Freud subverteu essa lógica ao demonstrar que a sexualidade humana começa muito cedo, na infância, e que suas primeiras manifestações não visam o outro, mas o próprio corpo.

O autoerotismo define um estágio onde a pulsão não busca um objeto externo (como outra pessoa) para ser satisfeita. Em vez disso, a satisfação é obtida no próprio corpo ou em uma parte dele.

A Pulsão Parcial

Para entender o autoerotismo, precisamos entender a pulsão. Ao contrário do instinto (que é biológico e fixo), a pulsão é uma pressão constante que busca satisfação. No início da vida, as pulsões são "parciais", ou seja, elas agem de forma independente umas das outras, ligadas a diferentes partes do corpo, as chamadas zonas erógenas.

O Apoio (Anaclise) e a Descoberta do Prazer

Um dos pontos mais fascinantes da teoria freudiana é como o autoerotismo nasce de funções biológicas vitais. Freud utiliza o conceito de apoio (Anlehnung).

Tomemos como exemplo a amamentação. Inicialmente, o bebê suga o seio da mãe para se alimentar (necessidade biológica). No entanto, o ato de sugar produz um prazer na mucosa dos lábios e da boca que vai além da saciedade da fome.

  • A transição: Em pouco tempo, a criança passa a desejar repetir esse prazer mesmo sem fome, levando-a a sugar o próprio dedo ou a língua.
  • A independência: Nesse momento, a sexualidade "se desprende" da função nutritiva e torna-se autoerótica. O objeto (o seio) é abandonado e substituído por uma parte do próprio corpo da criança.

As Zonas Erógenas: O Mapa do Prazer

O autoerotismo não ocorre de forma difusa em todo o corpo simultaneamente, mas organiza-se em torno de orifícios e superfícies sensíveis.

  • Zona Oral: A boca é o primeiro laboratório de prazer. O sugar, o morder e o explorar objetos com os lábios são manifestações autoeróticas primárias.
  • Zona Anal: Com o controle dos esfíncteres, a criança descobre prazer na retenção e expulsão das fezes. Aqui, o "objeto" de prazer é algo produzido pelo próprio corpo, reforçando a natureza autoerótica.
  • Zona Fálica: O foco se desloca para os órgãos genitais, onde a manipulação direta traz uma nova qualidade de satisfação.

Nessas fases, o prazer é fragmentado. Não existe ainda a noção de um "Eu" completo ou de um corpo unificado. A criança é, nas palavras de Freud, um "perverso polimorfo", capaz de extrair prazer de qualquer parte de sua anatomia.

Autoerotismo vs. Narcisismo: Uma Distinção Crucial

Muitas vezes esses termos são confundidos, mas a distinção feita por Freud em Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914) é vital para a clínica psicanalítica.

No autoerotismo, não há uma unidade. O bebê não se percebe como um indivíduo; ele é um conjunto de sensações espalhadas. Para que o narcisismo ocorra, é necessária uma "nova ação psíquica" que unifique essas pulsões parciais em uma imagem única do corpo. O autoerotismo é, portanto, o estado anárquico das pulsões, enquanto o narcisismo é a sua primeira organização em torno da identidade.

A Dimensão Fantasmática

Embora o autoerotismo utilize o corpo físico, ele não é puramente biológico. Ele é habitado pela fantasia.

Jean Laplanche, importante psicanalista francês, aprofundou essa ideia ao afirmar que o autoerotismo é o momento em que a fantasia nasce. Quando a criança busca repetir o prazer do seio através da sucção do polegar, ela está tentando reencontrar um objeto perdido na memória. O autoerotismo é a tentativa de satisfazer um desejo através da imaginação e da estimulação corporal simultaneamente.

O Autoerotismo na Vida Adulta

É um erro comum pensar que o autoerotismo é algo que "curamos" ou deixamos para trás na infância. Pelo contrário, ele permanece como uma base sobre a qual se constrói a sexualidade adulta.

A Sexualidade "Normal"

Mesmo na relação sexual com um parceiro (sexualidade objetal), componentes autoeróticos estão presentes. O prazer sentido em partes específicas do corpo (preliminares) nada mais é do que a reativação das pulsões parciais da infância.

Patologia e Fixação

O problema surge quando o sujeito não consegue progredir para a escolha de objeto e permanece "fixado" no estágio autoerótico. Isso pode se manifestar em certas compulsões ou em dificuldades severas de intimidade, onde o outro é irrelevante e o único prazer possível é aquele gerado solitariamente, sem a troca simbólica e afetiva.

Implicações Clínicas: O Corpo na Análise

Na clínica psicanalítica, observar as manifestações autoeróticas ajuda o analista a entender como o sujeito lida com a falta e com o desejo.

  • Somas e Sintomas: Muitas vezes, dores psicossomáticas ou tiques são formas de "investimento libidinal" em partes específicas do corpo, funcionando como um circuito fechado de satisfação (ou sofrimento) autoerótico.
  • A Resistência: O autoerotismo pode aparecer como uma resistência ao tratamento. O paciente que se fecha em seu próprio mundo de sensações pode estar tentando evitar o "perigo" de se relacionar com o analista (o objeto externo).

A Visão de Lacan: O Gozo e o Pequeno Objeto 'a'

Jacques Lacan trouxe uma nova camada ao autoerotismo ao discutir o conceito de Gozo. Para Lacan, o corpo é inicialmente um lugar de fragmentação (o "corpo despedaçado").

O autoerotismo está ligado ao que ele chama de objeto a, os restos da relação com o outro (o olhar, a voz, os excrementos, o seio) que caem e se tornam fontes de prazer solitário. Lacan enfatiza que o gozo autoerótico é "o gozo do idiota" (no sentido etimológico da palavra idios, que significa "próprio" ou "privado"). É um prazer que não serve para a comunicação, mas sim para o fechamento do sujeito em si mesmo.

Conclusão

Diferente de uma visão puramente negativa, o autoerotismo também possui uma função estruturante positiva. Donald Winnicott, embora com uma abordagem diferente, falava sobre a "capacidade de estar só na presença de alguém".Um autoerotismo saudável permite que o indivíduo suporte a solidão, encontre conforto em si mesmo e não dependa desesperadamente do outro para qualquer forma de regulação emocional ou prazer. É a base da autonomia psíquica.

Sugestão de leitura sobre essa temática

Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, análise fragmentária de uma histeria ("O caso Dora" ) e outros textos

Este sexto volume das obras completas de Freud traz textos fundamentais para o entendimento da psicanálise, como Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, que recorre a sexólogos contemporâneos do psicanalista e às observações feitas a partir de seus pacientes para enfatizar a centralidade do sexo na vida humana.

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