
A obra de Françoise Dolto (1908–1988) representa um dos pilares mais inovadores da psicanálise infantil e da compreensão do desenvolvimento humano. Central à sua teoria está a distinção fundamental entre o Esquema Corporal e a Imagem Inconsciente do Corpo.
Embora frequentemente confundidos no senso comum, para Dolto, esses conceitos operam em dimensões psíquicas distintas. Enquanto o primeiro é universal e biológico, o segundo é singular, histórico e carregado de afetos.
A Distinção Fundamental: Esquema vs. Imagem
Para compreender o que Dolto quer dizer com "Imagem do Corpo", precisamos primeiro entender o que ela não é.
O Esquema Corporal
O esquema corporal é uma realidade de fato. É o registro da nossa existência física no espaço. Ele é, em grande parte, o mesmo para todos os indivíduos da espécie humana em estágios de maturação semelhantes.
- Natureza: Biológica e neurológica.
- Função: Permite o movimento, a percepção sensorial e a localização dos órgãos.
- Evolução: Desenvolve-se com a maturação do sistema nervoso central.
- Exemplo: É o esquema corporal que nos permite levar a mão à boca sem precisar olhar no espelho; é o mapa neurológico do corpo.
A Imagem Inconsciente do Corpo
A imagem do corpo, por outro lado, é uma construção psíquica. Ela é a síntese viva das nossas experiências emocionais.
- Natureza: Simbólica e inconsciente.
- Função: É o suporte do Narcisismo e do desejo. É o que permite que um indivíduo se sinta "eu".
- Evolução: É moldada através das interações com os cuidadores (especialmente a mãe) e pelas palavras que foram ditas sobre o corpo da criança.
As Três Dimensões da Imagem do Corpo
Dolto propõe que a imagem do corpo não é um bloco único, mas um conjunto de três componentes que se articulam:
A Imagem de Base
É a sensação de unidade e continuidade. Ela se forma a partir do sentimento de ser desejado e aceito. Se a mãe (ou substituto) acolhe o corpo do bebê com prazer, a "imagem de base" é sólida, permitindo que a criança se sinta segura em sua própria pele. Quando há falhas aqui, surgem angústias de fragmentação ou aniquilamento.
A Imagem Funcional
Refere-se ao corpo em ação. É a imagem do corpo que "faz" coisas: que mama, que segura, que caminha, que controla os esfíncteres. Está ligada ao prazer do funcionamento orgânico e à eficácia do desejo traduzido em atos.
A Imagem Erógena
É o mapa das zonas de prazer. Cada interação (o banho, a troca de fraldas, o carinho) investe certas partes do corpo com libido. A imagem erógena é o que torna o corpo um lugar de desejo e não apenas uma máquina biológica.
O Papel da Linguagem: O Corpo que Fala
Uma das maiores contribuições de Dolto foi a afirmação de que "tudo é linguagem". Para ela, a imagem do corpo é estruturada pela palavra.
Desde o nascimento (e até antes), o bebê é mergulhado em um "banho de linguagem". Quando uma mãe diz ao bebê: "Você está com fome, não é?", ela está nomeando uma sensação interna. Ao fazer isso, ela transforma um desconforto biológico em uma representação psíquica.
A imagem do corpo, portanto, não é apenas o que a criança sente, mas o que ela ouve sobre o que sente. Se o corpo da criança é tratado como um objeto sem nome, ou se as palavras que o descrevem são de nojo ou rejeição, a imagem inconsciente do corpo será ferida, independentemente de o esquema corporal (a saúde física) estar perfeito.
As Castrações Simbolígenas
Dolto introduz o conceito de Castrações Simbolígenas. Diferente da castração freudiana clássica (focada no complexo de Édipo), Dolto vê a castração como um processo necessário de crescimento que ocorre em várias etapas da vida.
Cada castração obriga a criança a renunciar a um prazer puramente físico para ganhar uma nova dimensão psíquica e social. Se essas etapas forem acompanhadas pela palavra, elas são "simbolígenas" (geradoras de símbolos).
- Castração Umbilical: A separação física do nascimento. O bebê perde o corpo da mãe como seu ambiente e ganha a respiração e a vida individual.
- Castração Oral: O desmame. A criança perde o seio (ou a mamadeira) como objeto de satisfação imediata, mas ganha a linguagem. É porque não tenho mais o seio na boca que posso usar a boca para falar.
- Castração Anal: O controle dos esfíncteres. A criança renuncia ao prazer de evacuar em qualquer lugar para ganhar a autonomia e a inserção social.
Se essas castrações não forem explicadas e simbolizadas, a imagem do corpo fica "presa" ou "fixada" em estágios anteriores, gerando sintomas psicossomáticos ou inibições.
O Espelho e o Desenho Infantil
Dolto expandiu a teoria de Jacques Lacan sobre o "Estágio do Espelho". Para Lacan, o espelho é onde a criança reconhece sua imagem visual unitária. Para Dolto, o espelho é apenas uma confirmação (ou não) de algo que já deve estar sendo construído internamente através do tato e da audição.
Ela utilizava o desenho como ferramenta clínica fundamental. Ao pedir a uma criança para desenhar uma pessoa, Dolto não buscava avaliar habilidades artísticas ou maturação neurológica, mas sim ver a projeção da Imagem Inconsciente do Corpo.
- Se a criança desenha uma figura sem braços, pode não ser falta de habilidade, mas uma imagem funcional ferida (sentimento de impotência).
- Se o desenho é fragmentado, pode indicar uma falha na imagem de base.
A Clínica de Dolto: O Caso do "Corpo Sofredor"
Dolto acreditava que muitos problemas físicos na infância eram, na verdade, expressões de uma imagem do corpo distorcida por traumas relacionais. Ela tratava bebês falando com eles diretamente, explicando a verdade de sua história.
Ela defendia que a criança tem uma intuição profunda da verdade. Se um pai abandona a família e a mãe diz "ele foi viajar", a criança sente a mentira. Esse conflito entre o que ela sente e o que ela ouve cria uma "fenda" na imagem do corpo. Dolto dizia a verdade aos bebês: "Seu pai foi embora porque ele não conseguiu ser pai, não é culpa sua". Essa palavra devolvia à criança a integridade de sua imagem psíquica.
Impacto e Legado
A visão de Dolto sobre a imagem do corpo revolucionou a pedagogia e a pediatria. Ela tirou o foco do "corpo-objeto" (o corpo que o médico examina) e colocou no "corpo-sujeito" (o corpo que sente e se comunica).
Pontos principais para resumir:
- A Imagem do Corpo é inconsciente; o Esquema Corporal é consciente/pré-consciente.
- A Imagem do Corpo é construída através do desejo do Outro (pais) e da linguagem.
- As castrações são necessárias para que a imagem do corpo evolua e o indivíduo se torne um sujeito autônomo.
- O sintoma no corpo da criança é, frequentemente, uma mensagem não dita que a psicanálise busca traduzir.
Conclusão
Entender a imagem do corpo em Françoise Dolto é compreender que não habitamos apenas um organismo biológico, mas uma construção simbólica tecida por palavras, afetos e desejos. Quando Dolto afirma que "o ser humano é um ser de linguagem", ela está dizendo que nosso corpo só faz sentido, e só é saudável, quando está inserido em uma rede de significações.
A saúde, para Dolto, não é apenas a ausência de doença no esquema corporal, mas a harmonia de uma imagem inconsciente que permite ao sujeito dizer "Eu", sentir prazer em sua existência e comunicar-se com o mundo.
Sugestão de leitura sobre essa temática
A imagem inconsciente do corpo - Françoise Dolto
A imagem do corpo é específica de cada indivíduo. Ela está ligada ao sujeito e à sua história. Com base neste conceito e apoiada na experiência analítica, Françoise Dolto constrói, fase após fase, em que cada etapa é superada por uma castração, A Imagem Inconsciente do Corpo que a Editora Perspectiva ora reedita. Trata-se de um estudo fundamental para psicanalistas e psicólogos em geral e terapeutas que cuidam de crianças, em particular.
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