O conceito de Sujeito Suposto Saber (do francês Sujet supposé savoir) é, sem dúvida, a viga mestra sobre a qual se sustenta a técnica e a ética da psicanálise de orientação lacaniana. Introduzido por Jacques Lacan em seu Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, este conceito não é apenas uma definição teórica, mas a condição sine qua non para a abertura do campo do inconsciente e para a instauração da transferência. Para compreendê-lo com o rigor que a metapsicologia exige, é necessário desdobrá-lo para além da superfície de uma "confiança" no analista; trata-se de uma função lógico-formal que estrutura a relação do sujeito com a verdade e com o seu próprio desejo.
A Gênese do Conceito e a Estrutura da Transferência
Para Freud, a transferência era inicialmente vista como uma "resistência", uma repetição de afetos do passado direcionados à figura do médico. Contudo, Lacan opera uma virada linguística e estrutural nesse entendimento. Ele propõe que a transferência não é meramente um fenômeno afetivo, mas um fenômeno de saber. O Sujeito Suposto Saber é o pivô da transferência. Quando um analisante procura um analista, ele não o faz apenas porque está sofrendo, mas porque pressupõe que esse sofrimento possui um sentido e que o analista detém a chave para decifrá-lo.
Essa "suposição" é o que permite que a fala comece a fluir. Se o sujeito não acreditasse que há algo a ser descoberto (um saber) e que o analista sabe o que essa descoberta significa, a associação livre seria impossível. No entanto, o rigor terminológico nos obriga a notar que o termo é "Sujeito Suposto Saber", e não "Analista que Sabe". O saber está no lugar do suposto; ele é uma miragem necessária. O analista, em sua função, ocupa o lugar desse significante de um saber que, na verdade, pertence ao próprio inconsciente do analisante. É uma função que liga o saber à verdade, mas uma verdade que tem estrutura de ficção.
Lacan articula que, no momento em que o Sujeito Suposto Saber é instituído, o analista passa a ocupar o lugar do Outro (tesouro dos significantes). O analisante dirige sua fala a esse Outro, esperando que dele retorne a interpretação de seu sintoma. O paradoxo fundamental aqui é que o analista deve aceitar esse lugar para que a análise comece, mas deve, ao longo do processo, frustrar essa suposição para que o sujeito possa se haver com a falta constitutiva de seu próprio ser.
O Saber Inconsciente e o Significante Qualquer
Diferente do saber acadêmico ou científico, o saber em psicanálise é o saber do inconsciente, um saber que não se sabe que se sabe. O Sujeito Suposto Saber é a personificação dessa alteridade. Quando o analisante diz "eu tive um sonho estranho", ele supõe que o analista sabe o que o sonho significa. Essa manobra projeta no analista a autoria de uma verdade que o próprio sujeito produziu, mas da qual ele está alienado.
Lacan define o Sujeito Suposto Saber como uma formação ligada ao Significante Qualquer. Na álgebra lacaniana, a fórmula da transferência envolve a relação entre um significante do sujeito e o significante do saber suposto no Outro. É através desta estrutura que o sujeito se liga ao analista como se este fosse um repositório de verdades escondidas. O rigor aqui reside em entender que o "Saber" em questão não é um conteúdo enciclopédico sobre a vida do paciente, mas a própria estrutura da linguagem que governa os sintomas.
O erro de muitas terapias sugestivas é acreditar que o terapeuta realmente deve fornecer o saber (dar conselhos, explicações pedagógicas). Na psicanálise, o analista deve manter-se no "lugar de morto" ou no lugar do "objeto a", sustentando a suposição sem preenchê-la com seu próprio ego. Se o analista responde a partir do seu próprio saber, ele destrói a transferência e impede que o sujeito produza seu próprio saber sobre o desejo. O Sujeito Suposto Saber é, portanto, uma ferramenta de trabalho: ele serve para manter o motor da análise funcionando enquanto o sujeito busca as marcas significantes que o determinaram.
A Queda do Sujeito Suposto Saber e o Fim de Análise
Se a entrada em análise se dá pela instauração do Sujeito Suposto Saber, o fim da análise é marcado pela sua desarticulação. Durante o percurso analítico, o sujeito começa a perceber que o analista não possui a "última palavra" sobre seu ser. O Outro é faltante; não há um saber absoluto que possa dar conta do real do sexo e da morte.
A queda do Sujeito Suposto Saber é um momento de angústia e, simultaneamente, de libertação. É o que Lacan chama de "travessia da fantasia". O analisante descobre que o saber que ele buscava no Outro era, na verdade, uma construção sua para evitar o encontro com o vazio. O analista, que antes era visto como o detentor do saber, é reduzido ao estado de "resto", um objeto que serviu de suporte para a projeção, mas que agora perde sua aura de onisciência.
Neste estágio, o saber muda de estatuto. Ele deixa de ser um saber suposto no outro para tornar-se um "saber-fazer" com o sintoma (o sinthome). O rigor psicanalítico nos ensina que o sucesso de uma análise não é o alcance de uma verdade total, mas a destituição subjetiva onde o sujeito aceita que o saber é furado. A suposição cai, e o que resta é o desejo do analista, que não é um desejo por algo específico, mas um desejo de manter a diferença absoluta e permitir que o sujeito assuma sua própria singularidade.
O Manejo da Transferência e a Ética da Psicanálise
O manejo do Sujeito Suposto Saber exige do analista uma posição ética rigorosa. Ele deve ocupar esse lugar sem se identificar com ele. Se o analista acredita que ele realmente é o "sujeito que sabe", ele cai na psicopatologia do narcisismo e transforma a análise em uma relação de poder ou doutrinação. A ética da psicanálise é a ética do "bem-dizer", que só é possível se o analista sustenta o lugar de vazio para que o analisante possa preenchê-lo com suas próprias formações inconscientes.
Neste contexto, o Sujeito Suposto Saber é uma função "semblante". O analista faz de conta que sabe para que o analisante fale, mas ele sabe que não sabe. Essa ignorância douta é o que permite a escuta analítica. O analista escuta não o que as palavras significam no dicionário, mas o que elas escondem em sua polissemia. O saber é algo que se produz no ato da fala, na contingência do encontro clínico, e não algo que preexiste ao tratamento.
Portanto, o Sujeito Suposto Saber é o que liga o simbólico (a linguagem) ao imaginário (a imagem do analista como mestre) para tocar o real (o que não faz sentido). Sem essa função, a psicanálise seria apenas uma conversa comum. Com ela, a psicanálise torna-se uma experiência de desconstrução das certezas egóicas e de encontro com a verdade do desejo. O rigor terminológico lacaniano nos lembra que o "sujeito" aqui não é a pessoa do analista, nem a pessoa do paciente, mas um efeito da própria cadeia de significantes que se desdobra no dispositivo clínico.
Referências Bibliográficas
DOR, Joël. Introdução à leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem. Rio de Janeiro: Zahar, 1989.
FREUD, Sigmund. Observações sobre o amor transferencial (1915). In: Fundamentos da clínica psicanalítica. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.
LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
MILLER, Jacques-Alain. Percurso de Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Zahar, 1987.
QUINET, Antonio. As 4+1 condições da análise. 10. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.
RAPPARD, Anne-Marie. O sujeito suposto saber: de Freud a Lacan. Salvador: Ágalma, 1998.
Psicanalista, especialista em Teoria Psicanalítica, com trabalhos publicados em revistas científicas, capítulos de livros e anais de eventos nacionais e internacionais. Atua no desenvolvimento de pesquisas relacionadas à interface Arte e Psicanálise, com ênfase na investigação dos processos psíquicos refletidos na escrita literária, na música e no cinema contemporâneos, tais como: perversões; parafilias; fetichismo; neossexualidades; violência e cultura; privação e delinquência; adicções e toxicomanias; família em desordem.