Para compreender o que Lacan define como o Outro, é preciso, antes de tudo, diferenciá-lo do "outro" (com "o" minúsculo), que representa o semelhante, o par, o objeto especular com o qual o sujeito se identifica no Estágio do Espelho. Enquanto o pequeno outro habita a dimensão do Imaginário, o Grande Outro é a instância que sustenta a dimensão do Simbólico. Ele não é uma pessoa, mas um lugar: o tesouro dos significantes, a alteridade radical que preexiste ao sujeito e que o determina através da linguagem.
A Alteridade Radical e o Tesouro dos Significantes
Diferente da relação intersubjetiva clássica, onde se imagina uma comunicação direta entre duas consciências, Lacan postula que "a comunicação humana é um mal-entendido", pois ela é sempre mediada por uma terceira instância. O Grande Outro é esse lugar da palavra onde se constitui a alteridade. Quando uma criança nasce, ela é mergulhada em um banho de linguagem que já existia muito antes de sua concepção. Os desejos dos pais, as leis sociais, a cultura e, fundamentalmente, a estrutura da língua formam o tecido do Outro. Portanto, o Outro é o local onde a fala toma sentido; é o receptor da mensagem do sujeito, mas um receptor que também é o emissor da lei que governa essa própria fala.
Neste sentido, o Outro é o Locus da Fala. Não existe sujeito sem o Outro, pois o sujeito do inconsciente é, por definição, o efeito do significante. Lacan afirma que "o desejo do homem é o desejo do Outro". Isso não significa apenas que desejamos o que o outro deseja, mas que somos desejados a partir de um lugar que nos transcende. O sujeito busca no Outro a resposta para a pergunta fundamental sobre sua existência: Che vuoi? (O que queres?). Ao tentar decifrar o desejo do Outro, o sujeito se aliena na linguagem, assumindo significantes que não são seus, mas que lhe foram outorgados por essa instância simbólica. É essa alienação que permite a entrada na cultura, mas que também instaura a falta constituinte, pois o significante nunca consegue recobrir a totalidade do ser.
O Estágio do Espelho e a Dialética entre o Pequeno e o Grande Outro
Para compreender a função do Grande Outro, é imperativo revisitar a teoria lacaniana sobre a formação do Eu (Moi). No Estágio do Espelho, a criança identifica sua imagem no espelho como uma unidade, superando a sensação de corpo fragmentado. No entanto, essa identificação é imaginária e alienante. O que valida essa imagem para a criança não é apenas o reflexo, mas o olhar do adulto que a sustenta, o Grande Outro. Quando a mãe diz "olha, é você!", ela está ocupando o lugar do Outro Simbólico que ratifica a imagem especular. Aqui, percebemos que o Imaginário (o pequeno outro, a imagem) é subordinado ao Simbólico (o Grande Outro, a palavra).
O Grande Outro, portanto, funciona como a garantia da verdade, mas uma verdade que é sempre ficcional. Ele é o "Testemunha" da fala. Sem a mediação do Outro, o sujeito ficaria preso em uma relação dual, especular e agressiva com o semelhante. A introdução do Terceiro (a Lei, o Nome-do-Pai) rompe a simbiose imaginária entre mãe e filho, inserindo o sujeito na ordem da cultura. O Grande Outro é o portador dessa Lei. Ele é o que impede que a relação com o semelhante se torne uma fusão destrutiva, estabelecendo a distância necessária para que a linguagem opere. Contudo, é vital notar que o Outro também é barrado. Isso significa que o Outro é incompleto; não existe um Outro do Outro, ou seja, não há uma garantia última para a verdade ou para o sentido da existência.
O Inconsciente como Discurso do Outro
Uma das máximas mais famosas de Lacan é: "O inconsciente é o discurso do Outro". Esta frase resume a exterioridade do inconsciente em relação à consciência individual. O inconsciente não é um reservatório de instintos biológicos profundos, mas sim uma estrutura linguística composta por significantes que pertencem ao campo do Outro. Os lapsos, os sonhos e os chistes são momentos em que o discurso do Outro emerge, revelando que o sujeito não é senhor em sua própria casa. O sujeito é "falado" pelo Outro antes mesmo de ser capaz de dizer "eu".
Nesta perspectiva, a análise psicanalítica visa fazer com que o sujeito reconheça a sua posição em relação a esse Outro. Muitas vezes, o sofrimento neurótico advém de uma tentativa exaustiva de satisfazer o que o sujeito supõe ser o desejo do Outro. O neurótico vive em função de uma demanda imaginária, tentando ser o objeto que completaria a falta no Outro. A psicanálise, ao contrário, busca levar o sujeito a perceber que o Outro é faltante. Ao confrontar o "deserto de sentido" e a inconsistência do Outro, o sujeito pode passar da alienação para a separação. A separação é o processo pelo qual o sujeito se desprende dos significantes mestres que o escravizavam, aceitando que não há uma resposta final guardada no Outro para o enigma de sua pulsão.
A Evolução do Conceito e o Objeto a
Ao longo do seminário de Lacan, a concepção do Grande Outro sofreu refinamentos importantes, especialmente na transição para a fase em que o Real ganha proeminência. Inicialmente visto como a ordem simbólica infalível (o Outro da linguagem), ele passa a ser entendido como uma instância que também falha. É onde surge o conceito de Objeto a (objeto pequeno a). O objeto a é o resto que cai quando o sujeito entra no simbólico; é o que sobra da operação de alienação no Outro. Se o Outro é o lugar do significante, o objeto a é o que escapa ao significante, representando a causa do desejo.
A relação do sujeito com o Outro é mediada pelo fantasma, onde o sujeito barrado se relaciona com esse resto não simbolizável. Na psicose, por exemplo, ocorre uma falha na barreira do Outro: o significante do Nome-do-Pai não foi inscrito, o que faz com que o Outro se torne invasivo, perseguidor ou não barrado. Para o psicótico, o Outro não é um lugar de mediação simbólica, mas uma presença real e gozadora que ameaça aniquilar o sujeito. Já na neurose, o Outro é mantido como uma instância de lei e demanda, mas o sujeito sofre por não conseguir decifrar o que o Outro quer dele. A travessia do fantasma, fim de análise para Lacan, implica desestimular a crença na onipotência do Outro e assumir a responsabilidade sobre o próprio gozo, que não encontra tradução total no campo do Simbólico.
Referências Bibliográficas
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Psicanalista, especialista em Teoria psicanalítica, com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.