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A compreensão psicanalítica sobre a ascensão da ansiedade na contemporaneidade exige, primordialmente, uma distinção terminológica fundamental entre o medo, a angústia e a ansiedade. Enquanto o medo possui um objeto definido no mundo externo e a ansiedade é frequentemente lida pela psiquiatria como um transtorno biopolítico de excesso de futuro, para a psicanálise a angústia (Angst) é o afeto que não engana. Ela surge quando o sujeito é confrontado com o desejo do Outro ou com a iminência de um encontro com o Real, aquilo que escapa à simbolização. Na atualidade, o que observamos não é apenas um aumento estatístico de diagnósticos, mas uma mutação na forma como o sujeito lida com a falta. Vivemos em uma era marcada pelo declínio da função paterna, o Nome-do-Pai lacaniano, que outrora servia como o ordenador da lei e do limite. Sem essa mediação simbólica robusta, o indivíduo é lançado em um campo de excesso de liberdade que, paradoxalmente, gera um desamparo profundo (Hilflosigkeit). A ansiedade contemporânea é o subproduto de uma cultura que exige o gozo imediato e recusa a castração.
O Mal-Estar na Cultura e a Exigência do Supereu
Freud, em sua obra de 1930, já apontava que a civilização exige a renúncia pulsional em troca de segurança, o que gera um mal-estar intrínseco. No entanto, na hipermodernidade, a natureza desse mal-estar sofreu uma inversão. Se na era vitoriana a neurose advinha da repressão sexual (o "não pode"), hoje a ansiedade advém da injunção ao desempenho (o "você deve poder tudo"). O Supereu contemporâneo não é mais uma instância meramente proibitiva, mas uma voz imperativa que ordena: "Goza!". Essa mudança transforma a relação do sujeito com seu próprio desejo. Quando a proibição cai, a transgressão perde o sentido e o que resta é o peso esmagador de uma autonomia sem bússola. A ansiedade surge aqui como a reação do ego diante de uma exigência pulsional que não encontra canais de sublimação ou recalque eficazes. O sujeito moderno sente-se constantemente em falta, não porque algo lhe foi proibido, mas porque ele nunca sente que alcançou o nível de satisfação, produtividade ou estética exigido pelo Outro social. A angústia, portanto, manifesta-se quando a falta, que é o motor do desejo, é obliterada por um excesso de objetos de consumo que prometem uma completude impossível.O Desvanecimento do Simbólico e a Invasão do Real
Para Jacques Lacan, a angústia é o sinal da presença do objeto a, o objeto causa de desejo que deveria permanecer perdido para que a linguagem pudesse operar. No cenário atual, a saturação de imagens e a velocidade das comunicações digitais promovem um curto-circuito na cadeia significante. Onde deveria haver uma lacuna para que o sujeito pudesse se questionar "o que o Outro quer de mim?", há uma oferta incessante de respostas prontas. A ansiedade contemporânea é, em grande medida, uma resposta à proximidade excessiva do Outro. Nas redes sociais, por exemplo, o olhar do Outro é onipresente e sem mediação, operando como um juiz constante. Não há mais o "tempo para compreender"; somos empurrados diretamente para o "momento de concluir". Esse achatamento da dimensão temporal retira do sujeito a capacidade de simbolizar suas perdas e frustrações. Quando o simbólico falha em dar contorno à experiência humana, o Real invade a cena através do corpo: são as crises de pânico, as somatizações e as descargas motoras que caracterizam os quadros ansiosos modernos. A ansiedade é o corpo tentando dizer o que a palavra não consegue mais articular em um mundo que privilegia a imagem e a eficácia técnica em detrimento da escuta singular.
O Objeto de Consumo e a Fetiche da Autonomia
A lógica do capital, em sua fase neoliberal, captura a estrutura do desejo e a transforma em demanda de consumo. A psicanálise observa que a ansiedade aumenta proporcionalmente à crença de que a satisfação plena é possível através do objeto. O sujeito é incentivado a se ver como uma "empresa de si mesmo", onde qualquer sinal de tristeza ou hesitação é visto como uma falha técnica a ser corrigida quimicamente. Essa medicalização do sofrimento ético-existencial visa silenciar a angústia, mas acaba por exacerbar a ansiedade, pois retira do indivíduo a autoria sobre sua própria dor. Ao tratar a angústia apenas como um desequilíbrio de neurotransmissores, ignora-se que ela é uma bússola sobre a verdade do sujeito. O aumento da ansiedade é, portanto, o grito de uma subjetividade que se recusa a ser totalmente mercantilizada. A busca frenética por segurança, estabilidade e controle, pilares da ansiedade, revela a dificuldade contemporânea em aceitar a contingência e o desamparo original. O sujeito tenta, inutilmente, preencher o vazio constitutivo com excessos, resultando em um estado de alerta constante, uma vigília ansiosa que nada mais é do que o medo de que o "vazio" (que é necessário para o desejo) reapareça.
A Clínica da Urgência e o Resgate da Escuta
Diante desse panorama, a psicanálise propõe um manejo clínico que diverge radicalmente das terapias cognitivo-comportamentais que visam apenas o recondicionamento ou a supressão do sintoma. O objetivo não é eliminar a angústia, tarefa impossível e desumanizante, mas permitir que o sujeito mude sua posição subjetiva em relação a ela. Em uma época que urge pela rapidez, o espaço analítico oferece a "demora", o silêncio e a suspensão do julgamento produtivo. A interpretação psicanalítica busca reintroduzir a falta onde o excesso de ansiedade transborda. Ao nomear os afetos e localizar a origem dos imperativos superegoicos, o paciente pode começar a desvincular sua identidade das expectativas alienantes do mercado e do olhar social. A ansiedade, que antes paralisava o sujeito em uma repetição traumática, pode ser transformada em motor para a criação e para o reconhecimento de um desejo que seja, de fato, próprio. O tratamento da ansiedade na atualidade passa, necessariamente, pela reconstrução do laço social e pela aposta na palavra como mediadora do gozo, permitindo que o indivíduo habite sua própria vida sem a necessidade de estar em constante fuga de si mesmo.
Referências Bibliográficas
DUNKER, Christian. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo, 2015.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Obra original publicada em 1930).
FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. (Obra original publicada em 1926).
LACAN, Jacques. O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009.
SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.
ŽIŽEK, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do Real!. São Paulo: Boitempo, 2003.