O que significa AFETO para a Psicanálise?
Em Freud, o afeto é compreendido como a carga energética que acompanha uma representação psíquica, podendo se manifestar em formações sintomáticas, deslocamentos ou transformações diversas. No texto inaugural Estudos sobre a Histeria (1895), escrito em parceria com Breuer, já se observa a preocupação em distinguir entre a representação e o afeto que a acompanha. Freud descreve que, na histeria, certas representações são recalcadas, mas o afeto ligado a elas não desaparece: ele se desloca, converte-se em sintomas corporais ou encontra outras vias de expressão.
Essa distinção entre representação e afeto é fundamental. A representação pode ser recalcada, esquecida ou substituída; o afeto, por sua vez, é uma energia que precisa encontrar destino. Freud afirma que o afeto pode ser transformado em angústia, convertido em sintomas somáticos ou deslocado para outras representações. Essa concepção inaugura uma visão dinâmica do psiquismo, em que o afeto não é mero epifenômeno, mas força ativa que exige elaboração.
No texto O Inconsciente (1915), Freud aprofunda essa diferenciação. Ele explica que o recalque incide sobre a representação, mas não sobre o afeto. O afeto pode ser deslocado, transformado ou inibido, mas não é recalcado da mesma maneira que a representação. Essa formulação abre caminho para compreender a clínica psicanalítica como um trabalho de ligação do afeto à representação, permitindo que o sujeito possa simbolizar e elaborar aquilo que, de outro modo, se manifesta como sintoma ou angústia.
Afeto, pulsão e economia psíquica
O afeto está intimamente ligado ao conceito de pulsão (Trieb), introduzido por Freud como uma força que faz fronteira entre o somático e o psíquico. A pulsão possui quatro elementos: pressão, objeto, meta e fonte. O afeto pode ser entendido como a expressão qualitativa da pressão pulsional, ou seja, como o modo pelo qual o sujeito vivencia a exigência da pulsão. Em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), Freud mostra como os afetos se articulam às pulsões sexuais, revelando que não há neutralidade no campo psíquico: todo movimento pulsional implica uma tonalidade afetiva.
A economia psíquica, tal como descrita em Além do Princípio do Prazer (1920), também depende da circulação dos afetos. Freud introduz a ideia de que o aparelho psíquico busca reduzir a tensão, mas é constantemente atravessado por afetos que não se deixam simplesmente descarregar. O afeto, nesse sentido, é tanto uma força disruptiva quanto um elemento estruturante da vida psíquica. Ele pode ser fonte de sofrimento, mas também de criação, já que sua elaboração abre espaço para novas formas de simbolização.
Afeto e angústia
A relação entre afeto e angústia merece destaque. Em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), Freud revisa sua teoria da angústia, diferenciando entre angústia automática e angústia sinal. A angústia é compreendida como uma transformação do afeto, uma resposta do eu diante de situações de perigo interno ou externo. O afeto, nesse caso, não é apenas uma descarga energética, mas um fenômeno que possui função de alerta e proteção. A angústia sinal, por exemplo, permite ao eu mobilizar defesas diante da ameaça de retorno do recalcado.
Essa concepção mostra que o afeto não é apenas algo a ser eliminado ou descarregado, mas um elemento que participa da regulação psíquica. A angústia, enquanto afeto, tem papel estruturante na constituição do sujeito, pois indica a presença de um conflito e convoca o trabalho psíquico. Nesse sentido, o afeto é inseparável da clínica psicanalítica: compreender sua manifestação é compreender o modo como o sujeito lida com suas pulsões e com o recalcado.
Afeto e representação: a questão da simbolização
Um dos pontos mais importantes na teoria psicanalítica é a articulação entre afeto e representação. Freud insiste que o afeto precisa ser ligado a uma representação para que possa ser elaborado. Quando essa ligação falha, o afeto se manifesta de forma bruta, seja como sintoma, seja como angústia difusa. O trabalho analítico consiste, em grande medida, em restabelecer essa ligação, permitindo que o sujeito possa simbolizar o afeto e dar-lhe um lugar em sua história.
Essa perspectiva é retomada e ampliada por autores posteriores. Melanie Klein, por exemplo, ao desenvolver sua teoria das posições esquizoparanóide e depressiva, mostra como os afetos de amor e ódio estruturam a relação do sujeito com seus objetos internos. O afeto, nesse caso, não é apenas energia, mas conteúdo fundamental da experiência psíquica. Jacques Lacan, por sua vez, ao enfatizar a primazia da linguagem, não deixa de reconhecer o papel do afeto, ainda que o situe em relação ao significante. Para Lacan, o afeto é aquilo que escapa à simbolização plena, mas que insiste como resto, como marca do real no sujeito.
Afeto na clínica psicanalítica
Na prática clínica, o afeto se manifesta de múltiplas formas: na transferência, nos sintomas, nos sonhos, nos lapsos. O analista deve estar atento não apenas ao conteúdo representacional, mas também à tonalidade afetiva que acompanha o discurso do paciente. Muitas vezes, o afeto é mais revelador do que a representação: um silêncio carregado de angústia, uma risada deslocada, uma emoção súbita podem indicar o ponto em que o recalcado insiste.
A escuta psicanalítica, portanto, é uma escuta do afeto. O analista não busca eliminar o afeto, mas permitir que ele seja ligado a uma representação, que possa ser simbolizado. Esse trabalho é delicado, pois implica lidar com afetos intensos, como ódio, amor, angústia, culpa. A clínica mostra que o afeto é inseparável da constituição subjetiva: não há sujeito sem afeto, e não há elaboração sem que o afeto encontre destino.
Referências Bibliográficas
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Frederico Lima é psicanalista e especialista em Teoria Psicanalítica, com trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos. Também possui formação, mestrado e doutorado em Letras pela UFPB.