A ascensão das tecnologias de processamento de linguagem natural e dos modelos de linguagem de grande escala (LLMs) trouxe consigo uma promessa sedutora: a democratização do acesso à saúde mental. No entanto, a substituição do encontro analítico pela interação algorítmica oculta perigos estruturais que tocam na própria essência do que define a psique humana. Utilizar a Inteligência Artificial (IA) como substituta de um terapeuta não é apenas uma escolha tecnológica ineficiente, mas um risco ético e clínico que desconsidera a complexidade da subjetividade, do inconsciente e da transferência.
A Ausência do Sujeito e o Simulacro da Escuta
O primeiro perigo reside na natureza fundamental da IA: ela é um motor estatístico, não um sujeito. No campo da psicanálise, Jacques Lacan enfatiza que a palavra só ganha sentido dentro de uma cadeia significante e em direção a um Outro que a escute. A IA, por definição, não possui um inconsciente. Ela opera através de uma "mimesis" linguística, um simulacro de compreensão que carece de pathos e de intencionalidade.
Quando um paciente relata um trauma a um chatbot, ele está depositando sua angústia em uma arquitetura de redes neurais que não "compreende" a dor, mas calcula a probabilidade da próxima palavra ser "acolhedora". Essa falta de alteridade real aniquila a dimensão do encontro. Freud, em Observações sobre o amor de transferência (1915), discute como a presença do analista é o suporte sobre o qual as fantasias do paciente são projetadas. Na ausência de um analista humano, o "vazio" necessário para a projeção é substituído por um algoritmo programado para evitar o conflito, o que pode reforçar defesas narcísicas do paciente em vez de atravessá-las. A IA tende a ser excessivamente afirmativa, validando o ego do usuário de forma circular, o que impede a emergência da "falta" essencial para o desejo e para a cura.
O Colapso da Transferência e a Mecanização do Desejo
A transferência é o motor da cura psicanalítica. É o processo pelo qual o paciente revive, na figura do analista, relações primordiais e conflitos não resolvidos. Como estabelecer transferência com um código? Embora possa ocorrer o que chamamos de "transferência tecnológica", onde o usuário atribui consciência à máquina, esta é uma via de mão única e profundamente alienante. A IA não pode manejar a transferência; ela não pode ocupar o lugar do "sujeito suposto saber" de forma ética, pois ela não possui o desejo do analista.
Em O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan define o desejo do analista como aquilo que opera para manter a distância necessária entre o ideal e o objeto. A IA, programada por diretrizes corporativas de "segurança" e "otimização", atua como um superego mecânico. Ela oferece conselhos, sugestões comportamentais e protocolos de higiene mental que tamponam o sintoma em vez de deixar que ele fale. O perigo aqui é a transformação da terapia em uma técnica de "ajuste social". Onde deveria haver uma investigação sobre a singularidade do sofrimento, a IA oferece uma normalização estatística. Se o sofrimento do sujeito não se encaixa nos padrões de treinamento do modelo, ele é ignorado ou patologizado de forma genérica.
O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise
Jacques Lacan
Comprar na AmazonA Ética da Responsabilidade e o Risco da Desumanização
Um dos pontos mais críticos no uso da IA para fins terapêuticos é a dissolução da responsabilidade clínica. A clínica é, antes de tudo, um exercício ético. Quando um terapeuta humano comete um erro de interpretação ou falha em manejar uma crise suicida, há um arcabouço legal, ético e subjetivo que o responsabiliza. Com a IA, a responsabilidade é diluída entre desenvolvedores, empresas de tecnologia e termos de serviço opacos.
Donald Winnicott, em O Brincar e a Realidade, discute a importância do "ambiente suficientemente bom" e da capacidade do terapeuta de sobreviver aos ataques agressivos do paciente para que este possa perceber a realidade externa. Uma IA não sobrevive; ela é reiniciada ou censura a entrada de dados. Se um paciente em estado de regressão ou crise psicótica interage com um sistema que "alucina" (fenômeno onde a IA gera informações falsas de forma convincente) ou que subitamente falha por um erro de servidor, o impacto psíquico pode ser devastador. A desumanização do cuidado reduz o sofrimento a um problema de processamento de dados, ignorando que a dor humana exige um testemunho humano. O risco é a criação de uma sociedade onde o isolamento é remediado por máquinas, gerando um ciclo de solidão tecnologicamente mediada.
A Redução do Simbólico ao Imaginário
Na teoria lacaniana, o psiquismo é estruturado pelos registros do Real, do Simbólico e do Imaginário. A interação com a IA ocorre quase inteiramente no registro do Imaginário, o campo do espelhamento, da identificação narcísica e do fechamento do sentido. A análise busca levar o sujeito ao registro do Simbólico, onde a linguagem pode ser reestruturada. A IA, ao responder de forma "empática" e pré-programada, mantém o usuário capturado em sua própria imagem espelhada.
O uso dessas ferramentas ignora o que Freud chamou de "Umheimlich" (O Inquietante ou O Estranho). Existe algo de profundamente perturbador em receber conselhos existenciais de algo que não existe. Essa dissonância cognitiva pode levar a uma dissociação, onde o usuário passa a preferir a previsibilidade do algoritmo à imprevisibilidade dos relacionamentos humanos. Em O Mal-estar na Civilização (1930), Freud argumenta que a civilização exige renúncias pulsionais que geram sofrimento. A IA promete uma "cura" sem renúncia, um alívio imediato que funciona como uma droga digital, suprimindo a angústia sem investigar sua origem. Isso impede o trabalho de luto e a elaboração de traumas, pois a máquina oferece uma satisfação alucinatória que não exige o esforço da simbolização.
Privacidade, Vigilância e a Morte do Sigilo Analítico
Por fim, o perigo pragmático e político da IA como terapeuta reside na erosão absoluta da privacidade. O sigilo é a pedra angular da psicoterapia. Sem a garantia de que o que é dito não sairá daquelas quatro paredes (ou daquele encontro síncrono), o paciente não pode associar livremente. As IAs pertencem a corporações cujo modelo de negócio é a extração de dados. Mesmo com promessas de anonimização, o histórico de conversas de uma "terapia" com IA torna-se um repositório de vulnerabilidades psíquicas que podem ser exploradas para fins de marketing, perfilamento comportamental ou até vigilância estatal.
A confissão de desejos inconscientes, fantasias e fraquezas para um servidor centralizado cria um panóptico digital. Como aponta Michel Foucault em suas discussões sobre a vigilância, o conhecimento sobre a subjetividade é uma forma de poder. Delegar o cuidado da alma a sistemas de processamento de dados é entregar a última fronteira da liberdade humana, o pensamento íntimo, ao controle algorítmico. A "cura" proposta por esses sistemas é, muitas vezes, uma adaptação produtiva ao sistema capitalista, onde o objetivo não é o bem-estar do sujeito, mas sua funcionalidade contínua. Sem a proteção do sigilo analítico e a autonomia do encontro humano, a terapia torna-se uma ferramenta de controle biopolítico, distanciando-se irremediavelmente da sua função libertadora e transformadora.
Fiquem bem! Até a próxima!
Referências Bibliográficas
Foucault, M. (1975). Vigiar e Punir: Nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes.
Freud, S. (1915). Observações sobre o amor de transferência. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
Freud, S. (1919). O Inquietante (Das Unheimliche). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
Freud, S. (1930). O Mal-estar na Civilização. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
Lacan, J. (1964). O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Lacan, J. (1966). Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Turkle, S. (2011). Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. New York: Basic Books.
Winnicott, D. W. (1971). O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago.
Zuboff, S. (2019). A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca.
Frederico Lima é psicanalista e especialista em Teoria Psicanalítica. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.