Como a Psicanálise interpreta a AGORAFILIA?

A agorafilia é um termo que designa um tipo específico de fetiche sexual, caracterizado pelo prazer ou excitação erótica em realizar práticas sexuais em espaços públicos ou abertos, onde há a possibilidade de ser visto ou descoberto. O termo deriva do grego ágora (praça pública) e filia (afinidade, atração), e se insere no campo das parafilias, ou seja, manifestações eróticas que se desviam daquilo que é considerado normativo. A psicanálise, desde Freud, oferece uma lente interpretativa para compreender como tais manifestações se relacionam com o inconsciente, com a dinâmica pulsional e com os mecanismos de defesa.

A definição de agorafilia e sua inserção nas parafilias

A agorafilia pode ser entendida como uma forma de erotização do espaço público. O sujeito encontra prazer não apenas no ato sexual em si, mas na circunstância de realizá-lo em locais onde há risco de exposição. Essa característica aproxima a agorafilia de outras parafilias, como o exibicionismo e o voyeurismo, mas com uma diferença fundamental: enquanto o exibicionista busca mostrar-se e o voyeur busca observar, o agorafílico encontra prazer na possibilidade de ser surpreendido ou de transgredir a norma social que regula a intimidade.

Do ponto de vista clínico, a agorafilia não é necessariamente patológica. A psicanálise não a reduz a uma simples "anomalia", mas a interpreta como expressão de desejos inconscientes, de fantasias ligadas à pulsão escópica (o prazer de ver e ser visto) e à transgressão das barreiras sociais. Freud, em seus estudos sobre a sexualidade, já havia destacado que as parafilias revelam aspectos fundamentais da vida psíquica, pois nelas se manifestam conteúdos recalcados e modos singulares de lidar com o desejo.

A psicanálise e a interpretação do fetiche

Na psicanálise, o fetiche é compreendido como um objeto ou situação que substitui o objeto sexual primário, funcionando como mediador da excitação. Freud, em seu texto "Fetichismo" (1927), descreve o fetiche como uma formação de compromisso entre o desejo e a angústia de castração. O fetiche surge como defesa contra a percepção da falta, e ao mesmo tempo como fixação em um detalhe que se torna erotizado.

Aplicando essa lógica à agorafilia, pode-se compreender que o espaço público funciona como fetiche. O risco de ser visto, a transgressão da norma e a excitação diante da possibilidade de exposição tornam-se elementos centrais da experiência erótica. O sujeito desloca sua libido para o cenário, transformando o espaço em objeto de desejo. A praça, a rua, o parque ou qualquer lugar público tornam-se investidos de significação sexual.

Além disso, a agorafilia pode ser interpretada como uma manifestação da pulsão escópica. Lacan, ao desenvolver sua teoria sobre o olhar, destacou que o desejo está sempre implicado na dimensão do ser visto. O agorafílico, ao se expor ao risco, atualiza essa dinâmica: ele deseja ser visto, mas ao mesmo tempo teme a descoberta. Esse jogo entre desejo e angústia é constitutivo da experiência fetichista.

Dinâmica inconsciente e mecanismos de defesa

A agorafilia pode ser compreendida como resultado de uma série de mecanismos inconscientes. Entre eles, destacam-se:

  • Repressão e retorno do recalcado: o desejo reprimido de transgressão retorna sob a forma de fetiche. O espaço público, interditado para práticas sexuais, torna-se justamente o local da excitação.
  • Deslocamento: a excitação sexual é deslocada do corpo do parceiro para o espaço. O cenário torna-se tão importante quanto o ato em si.
  • Formação de compromisso: o fetiche funciona como solução psíquica para conciliar desejo e angústia. O risco de ser descoberto intensifica o prazer, mas também gera ansiedade. O sujeito encontra satisfação nesse equilíbrio instável.

Do ponto de vista clínico, a agorafilia pode ser interpretada como uma tentativa de lidar com a angústia de castração e com o interdito social. O sujeito erotiza a transgressão, transformando o risco em fonte de prazer. Essa dinâmica revela como o inconsciente opera por meio de deslocamentos e simbolizações.

Considerações finais

A agorafilia, longe de ser apenas uma curiosidade sexual, é um fenômeno que permite compreender a complexidade da vida psíquica. A psicanálise mostra que o fetiche não é um simples desvio, mas uma formação que revela o modo como o sujeito lida com o desejo, com a falta e com a lei. O espaço público, investido de significação erótica, torna-se o palco onde se encena o drama inconsciente do ser visto e do risco de transgressão.

Assim, a agorafilia pode ser entendida como:

  • Uma forma de erotização do espaço público.
  • Uma manifestação da pulsão escópica e da dinâmica do olhar.
  • Um fetiche que funciona como formação de compromisso entre desejo e angústia.
  • Uma expressão da transgressão e do retorno do recalcado.

A psicanálise, ao interpretar esse fetiche, não o reduz a patologia, mas o insere na lógica do inconsciente, mostrando que o desejo humano sempre se articula com a lei, com a falta e com a fantasia.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972, v. 7, pp. 121-237.

FREUD, Sigmund (1927). Fetichismo. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 21, pp. 175-185. 

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. 11 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário da psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. 

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Frederico Lima é psicanalista e especialista em Teoria Psicanalítica. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.

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