O que significa RESISTÊNCIA para a Psicanálise?

Longe de ser um mero obstáculo ao tratamento, a resistência é a manifestação clínica de que o processo terapêutico tocou em pontos nevrálgicos do psiquismo do sujeito. Para compreender o que ela significa, é preciso abandonar a ideia de que o paciente "não quer melhorar" de forma deliberada; trata-se, na verdade, de uma força automática e inconsciente que visa manter o status quo de um equilíbrio psíquico, ainda que esse equilíbrio seja sustentado pelo sofrimento neurótico.

A Gênese da Resistência e sua Relação com o Recalque

A descoberta da resistência por Sigmund Freud ocorreu quase simultaneamente ao nascimento da própria psicanálise. Nos primórdios, durante a fase da técnica hipnótica e do método catártico, Freud percebeu que, ao se aproximar das lembranças traumáticas dos pacientes, encontrava uma força que impedia a emersão desses conteúdos à consciência. Em Estudos sobre a Histeria (1895), obra escrita em colaboração com Josef Breuer, Freud postula que a resistência é a expressão clínica daquilo que, na teoria, ele denomina recalque (Verdrängung).

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Estudos sobre a histeria

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O recalque é o mecanismo de defesa pelo qual o Eu afasta da consciência representações (ideias, imagens, memórias) que são incompatíveis com as exigências éticas, estéticas ou morais do sujeito. No entanto, o material recalcado não é destruído; ele permanece ativo no Inconsciente, exercendo uma pressão constante para retornar à consciência. Quando o analista utiliza a Associação Livre para traçar o caminho de volta a essas origens, a mesma força que outrora expulsou a ideia do campo consciente agora se manifesta como um bloqueio ao trabalho analítico.

Portanto, a resistência é o "recalque em ação" durante a sessão. Ela prova que a neurose não é um vácuo de informação, mas um conflito dinâmico de forças. Como Freud aponta em A Interpretação dos Sonhos (1900), o censor que atua na elaboração do sonho é o mesmo que produz a resistência no divã. A resistência protege o indivíduo do desprazer que a revelação do desejo inconsciente traria, mantendo a "paz" psíquica à custa do sintoma.

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A interpretação dos sonhos

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A Dinâmica das Cinco Formas de Resistência

Com o avanço de sua obra, especialmente em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), Freud sistematizou a resistência, dividindo-a em cinco fontes distintas, provenientes das diferentes instâncias do aparelho psíquico. Essa distinção é crucial para o rigor técnico, pois permite ao analista identificar de onde parte a oposição ao tratamento.

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O futuro de uma ilusão e outros textos

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As três primeiras fontes originam-se no Eu (Ego):

  1. Resistência de Recalque: É a necessidade de manter as defesas contra as representações pulsionais.

  2. Resistência de Transferência: Ocorre quando o paciente reatualiza conflitos infantis na figura do analista, usando a relação presente para evitar a recordação do passado.

  3. Ganho Secundário da Doença: O Eu se apega ao sintoma porque ele oferece algum tipo de compensação ou facilitação na vida externa (como atenção ou fuga de responsabilidades).

A quarta fonte é a Resistência do Isso (Id), que Freud chama de "necessidade de elaboração" (Durcharbeitung). O Isso resiste à mudança devido à inércia psíquica e à viscosidade da libido. Mesmo após o Eu ter aceitado conscientemente uma interpretação, o Inconsciente continua a repetir os mesmos padrões de descarga pulsional, exigindo um tempo prolongado de trabalho analítico para que os caminhos associativos sejam efetivamente alterados.

Finalmente, a quinta fonte é a Resistência do Supereu (Superego). Esta é, talvez, a mais difícil de manejar, pois manifesta-se como um sentimento de culpa inconsciente e uma necessidade de punição. Aqui, o paciente não quer melhorar porque o sofrimento do sintoma satisfaz a exigência de punição de um Supereu tirânico. Em casos graves, isso se traduz na Reação Terapêutica Negativa, onde cada progresso na análise é seguido por uma piora deliberada do estado do paciente.

A Resistência de Transferência e o Atuar

Um dos momentos mais críticos e, paradoxalmente, mais produtivos da análise é quando a resistência assume a forma de Transferência. Em seu artigo técnico Recordar, Repetir e Elaborar (1914), Freud explica que o paciente, em vez de recordar o que foi recalcado, "atua" (acting out) o conflito através de suas ações e sentimentos em relação ao analista.

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Fundamentos da clínica psicanalítica

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A resistência de transferência transforma o analista em uma figura do passado (pai, mãe, rival). O paciente pode tornar-se excessivamente dócil, apaixonado ou hostil. Nesses momentos, o fluxo de associações livres costuma ser interrompido. O silêncio do paciente é, frequentemente, o signo mais claro de que uma resistência de transferência está em jogo, ele parou de falar porque está vivenciando algo intenso em relação à pessoa do terapeuta que não consegue verbalizar.

É fundamental compreender que a transferência não é um erro do processo, mas o terreno onde a batalha da cura deve ser travada. A resistência faz com que o passado seja vivido como presente. O desafio técnico consiste em transformar esse "atuar" em "recordar". Ao manejar a resistência de transferência, o analista ajuda o paciente a perceber que seus sentimentos atuais são, na verdade, repetições de clichês psíquicos antigos. Sem a análise da resistência, a psicanálise se tornaria apenas uma sugestão intelectual, incapaz de promover uma mudança estrutural no sujeito.

O Manejo Técnico: Da Interpretação à Elaboração

O tratamento da resistência evoluiu drasticamente ao longo da história da psicanálise. Inicialmente, Freud acreditava que bastava comunicar ao paciente o significado de seus sintomas (dar o "nome" ao recalcado) para que a cura ocorresse. Contudo, ele logo percebeu que o conhecimento intelectual não é suficiente para dissolver a resistência.

A regra de ouro passou a ser: a análise deve começar por onde o paciente apresenta sua maior resistência. Em A Dinâmica da Transferência (1912), fica claro que o analista não deve lutar contra o paciente, mas ajudá-lo a reconhecer as forças que o impedem de falar. Interpretar a resistência antes de interpretar o conteúdo recalcado é um princípio técnico basilar. Se o analista interpreta um conteúdo profundo enquanto a resistência do Eu está alta, o paciente apenas negará a interpretação ou a aceitará de forma puramente intelectual, sem efeito terapêutico.

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A Transferência

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A Elaboração (Durcharbeitung) é o processo que se segue à interpretação da resistência. É um trabalho de "formiguinha", onde o sujeito deve confrontar repetidamente suas resistências em diversos contextos da vida. É através da elaboração que a resistência do Isso e do Supereu é gradualmente vencida. É um período de luto e renúncia: o sujeito precisa abrir mão do prazer (ainda que doloroso) contido no sintoma em favor de uma nova organização subjetiva. O rigor terminológico aqui nos lembra que a análise não é um insight súbito, mas um processo laborioso de superação das forças opostas à mudança.

A Resistência como Ferramenta Diagnóstica e Ética

Por fim, é necessário entender que a resistência diz algo sobre a singularidade do sujeito. Cada paciente resiste à sua própria maneira, e a forma da resistência revela a estrutura de sua defesa. Na clínica lacaniana, por exemplo, Jacques Lacan subverteu parte dessa discussão ao afirmar, em seus primeiros seminários (como o Seminário 2), que "não há resistência do paciente, há apenas resistência do analista".

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O Seminário, livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise

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Embora pareça uma crítica a Freud, Lacan ressalta que a resistência muitas vezes é alimentada quando o analista tenta forçar um saber ou se coloca no lugar de um "mestre" que sabe o que é melhor para o sujeito. Quando o analista insiste em uma direção que o paciente não pode seguir, ele cria uma barreira. Assim, a resistência torna-se um sinalizador ético: ela indica que o analista deve dar um passo atrás, renunciar ao seu desejo de curar (furor sanandi) e escutar o que o silêncio ou a interrupção do paciente está tentando anunciar.

A resistência, portanto, não deve ser vista como um sinal de fracasso. Pelo contrário, ela é a prova de que o tratamento é real. Onde há fumaça (resistência), há fogo (desejo inconsciente). Ela é o material de trabalho por excelência. Ao atravessar suas resistências, o sujeito não apenas se livra de um sintoma, mas adquire uma nova posição diante da própria vida, reconhecendo as leis que regem seu Inconsciente.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund (1893-1895). Estudos sobre a histeria. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 2.

FREUD, Sigmund (1900). A Interpretação dos Sonhos. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v. 4

FREUD, Sigmund (1912). A Dinâmica da Transferência. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v. 4, pp. 133-143.

FREUD, Sigmund (1914). Recordar, Repetir e Elaborar (Novas Recomendações sobre a Técnica da Psicanálise II). In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. v. 12, pp. 193-203.

FREUD, Sigmund (1926). Inibição, Sintoma e Angústia. In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Tradução sob a supervisão de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. 20, pp. 107-207.

LACAN, J. (1954-1955). O Seminário, livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.-B. (2001). Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes.

ROUDINESCO, E.; PLON, M. (1998). Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

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Frederico Lima é psicanalista e especialista em Teoria Psicanalítica. Possui trabalhos publicados em periódicos científicos, capítulos de livros e anais de eventos.

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