O conceito de afanise (aphanisis) é uma das contribuições mais instigantes para a teoria psicanalítica clássica, introduzido pelo psicanalista galês Ernest Jones em 1927. Embora Jones seja frequentemente lembrado como o biógrafo oficial de Freud, sua elaboração sobre a afanise propôs um debate profundo sobre a natureza do medo, da castração e do desejo, influenciando inclusive os desenvolvimentos posteriores de Jacques Lacan.
Definição: O desaparecimento do desejo
Etimologicamente, o termo deriva do grego aphanisis, que significa "desaparecimento" ou "invisibilidade". Para Ernest Jones, a afanise não é a perda física de um órgão ou a morte biológica, mas sim a extinção total e permanente do desejo sexual (libido).
Jones argumentava que, abaixo do medo da castração (descrito por Freud como o medo da perda do pênis), existe um medo ainda mais fundamental e arcaico. Ele sugeriu que tanto homens quanto mulheres temem, acima de tudo, a perda da capacidade de alcançar o prazer erótico. Enquanto a castração seria a "ferramenta" ou a "ameaça" que impede o prazer, a afanise é o estado final temido: um vazio subjetivo onde o sujeito não consegue mais desejar ou ser desejado.
A Afanise e o Complexo de Castração
Para Freud, o complexo de castração era o motor da organização psíquica, mas sua aplicação era diferenciada entre os sexos (o medo de perder o órgão no menino e a percepção de já tê-lo perdido na menina). Jones, buscando uma teoria que equilibrasse melhor o desenvolvimento psíquico de ambos os sexos, introduziu a afanise como um denominador comum.
No Homem: O medo da castração é a forma específica que a angústia de afanise assume. Perder o pênis é temido porque, no imaginário masculino, isso significaria o fim da possibilidade de satisfação sexual.
Na Mulher: Jones utilizou a afanise para explicar o desenvolvimento feminino sem depender exclusivamente da ideia de "inveja do pênis". Para a mulher, o medo seria a perda da capacidade de prazer ou a privação de afeto, o que levaria ao mesmo resultado: a extinção do desejo.
Portanto, para Jones, a castração é apenas um caso particular (embora importante) do medo mais geral da afanise.
A Importância da Frustração
Jones associava a afanise à frustração extrema. Segundo sua teoria, se um desejo é sistematicamente frustrado e não encontra nenhuma via de escoamento ou sublimação, o sujeito corre o risco de entrar em um estado de "morte psíquica" em relação àquele impulso.
Nesse sentido, o medo da afanise atua como um regulador. O sujeito aceita certas proibições da cultura (o "Não" do complexo de Édipo) para preservar a sua capacidade geral de desejar. Preferimos renunciar a um objeto específico de desejo (a mãe ou o pai) do que arriscar a perda total de nossa capacidade de sentir prazer (afanise).
A Releitura de Jacques Lacan
Décadas depois, Jacques Lacan resgatou o termo de Jones, mas deu a ele uma roupagem estruturalista. No Seminário 11, Lacan utiliza "afanise" para descrever o desaparecimento do sujeito no movimento de oscilação entre os significantes.
Para Lacan, o sujeito do inconsciente é fugaz. Quando o sujeito aparece em um significante (por exemplo, quando eu digo "Eu sou..."), ele se aliena e, ao mesmo tempo, "desaparece" (afanise) sob o peso das palavras. Aqui, a afanise deixa de ser apenas o medo de perder o prazer sexual e passa a ser uma condição da subjetividade: o sujeito está sempre em um jogo de aparecer e desaparecer na linguagem.
Diferença entre Morte e Afanise
É crucial distinguir que a afanise não é o medo da morte biológica. Muitas vezes, um sujeito pode preferir a morte física à afanise. Na clínica, observamos isso em casos de depressão profunda ou melancolia severa, onde o paciente relata que "nada mais tem graça" ou que "o mundo perdeu a cor".
Embora o paciente esteja vivo, ele sofre de uma forma de afanise psíquica: a libido foi retirada do mundo e dos objetos, restando um eu exaurido. O trabalho analítico, nesses casos, visa justamente "reanimar" o desejo, permitindo que o sujeito volte a investir energia na vida, superando o estado de desolação que a ameaça de afanise impôs.
A Afanise na Clínica Contemporânea
Na prática clínica atual, o conceito de Jones nos ajuda a entender as patologias do vazio. Em um mundo marcado pelo excesso de estímulos e, paradoxalmente, por uma sensação de apatia generalizada, a afanise se manifesta como o "tédio existencial" ou a incapacidade de desejar algo que não seja o consumo imediato.
O analista deve estar atento para identificar quando o paciente não está apenas em conflito com seus desejos (neurose clássica), mas quando ele teme que seu desejo tenha sido "aniquilado" por traumas ou por uma educação excessivamente repressiva.
Conclusão
Ernest Jones, ao propor a afanise, ampliou os horizontes da psicanálise. Ele nos ensinou que o maior terror do ser humano não é apenas a dor ou a perda material, mas o silenciamento do motor que nos mantém vivos: o desejo.
A afanise é o pano de fundo de todas as nossas angústias. Lutamos, amamos e criamos para evitar que o brilho do desejo se apague. Compreender esse conceito é fundamental para qualquer um que deseje mergulhar nas profundezas da alma humana e entender por que, às vezes, o "sentir nada" é muito mais assustador do que o "sentir dor".
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