O que é o SINTOMA para a Psicanálise? Entenda a visão de Freud e Lacan

Sigmund Freud, Retrato 1926
Sigmund Freud. Fonte: Pixabay

Para a psicanálise, o sintoma não é um erro do corpo, um defeito biológico ou um simples sinal de doença que deve ser eliminado o mais rápido possível. Enquanto a medicina tradicional vê o sintoma como algo a ser "calado" por meio de medicamentos ou intervenções cirúrgicas, a psicanálise o encara como uma produção subjetiva, um enigma a ser decifrado e, acima de tudo, uma mensagem endereçada ao próprio sujeito.

O sintoma é, paradoxalmente, a forma que o sujeito encontrou para lidar com um sofrimento insuportável. É uma criação singular que carrega um sentido oculto. Abaixo, detalhamos a evolução desse conceito, desde as histéricas de Freud até as formulações de Lacan.

O Sintoma como Formação do Inconsciente

Sigmund Freud revolucionou o pensamento clínico ao postular que o sintoma possui um sentido. Em seus primeiros estudos sobre a histeria, ele percebeu que paralisias, tosses ou dores sem base orgânica eram, na verdade, manifestações de conflitos psíquicos recalcados.

O sintoma pertence à mesma família dos sonhos, dos atos falhos e dos chistes: são as chamadas Formações do Inconsciente.

  • O Mecanismo: Um desejo ou memória traumática é considerado inaceitável pela consciência (pelo Ego). Para evitar o sofrimento, o psiquismo utiliza o recalque para empurrar esse conteúdo para o inconsciente.
  • O Retorno: O que foi recalcado não morre. Ele busca retornar. O sintoma é o resultado desse retorno, mas ele aparece "disfarçado" para que a consciência não o reconheça imediatamente.

A "Satisfação Substitutiva" e o Ganho Secundário

Uma das descobertas mais desconcertantes de Freud foi que o sujeito, embora reclame de seu sintoma, obtém dele uma satisfação inconsciente. É o que ele chamou de "satisfação substitutiva".

Como o desejo original não pode ser realizado na realidade (por ser proibido ou moralmente reprovável), o sintoma surge como um compromisso. Ele permite que o desejo seja satisfeito de forma simbólica e distorcida. Por exemplo, uma pessoa que sofre de uma lavagem compulsiva das mãos (TOC) pode estar, inconscientemente, tentando "limpar" uma culpa relacionada a um desejo que considera sujo.

Além disso, existe o ganho secundário da doença: o sintoma pode conferir ao sujeito atenção, cuidado ou a desculpa necessária para evitar responsabilidades ou situações angustiantes. Isso explica por que é tão difícil abandonar um sintoma, mesmo que ele cause dor.

A Transmissão Simbólica: O Sintoma como Linguagem

Jacques Lacan, ao retomar a obra de Freud, trouxe a famosa máxima: "O sintoma é estruturado como uma linguagem". Para Lacan, o sintoma é um "significante" que representa algo para o sujeito, mas que está fora de sua compreensão imediata.

Ele é uma metáfora. Assim como na poesia uma palavra substitui outra para criar um novo sentido, no sintoma um sofrimento físico ou mental substitui uma palavra que não pôde ser dita. O trabalho da análise consiste em transformar esse sintoma-coisa (sofrimento mudo) em sintoma-palavra (discurso), permitindo que o sujeito fale sobre o que o sintoma está tentando dizer.

O Sintoma na Clínica: Inibição, Sintoma e Angústia

Em 1926, Freud escreveu Inibição, Sintoma e Angústia, onde diferenciou essas três manifestações:

  • Inibição: É uma limitação de uma função do Ego (como não conseguir estudar ou perder o apetite sexual). É um "freio" para evitar a angústia.
  • Angústia: É o afeto que não engana. É o sinal de que algo está prestes a emergir do inconsciente, mas ainda não encontrou uma forma.
  • Sintoma: É a formação que vem para "tratar" a angústia. O sintoma amarra a angústia em algo concreto (um medo de baratas, um tique, uma dor). De certa forma, o sintoma é uma defesa contra algo pior: a angústia avassaladora.

Do Sintoma ao Sinthome: A Perspectiva Lacaniana Tardia

Nos estágios finais de seu ensino, Lacan introduziu uma mudança fundamental na compreensão do sintoma. Ele percebeu que nem todo sintoma pode ser totalmente dissolvido pela palavra. Existe um "resto", um núcleo de gozo que resiste à interpretação.

Lacan passou a escrever sintoma como Sinthome (grafia arcaica francesa). Nesta fase, o sintoma deixa de ser apenas algo a ser eliminado e passa a ser visto como o que "anoda" ou sustenta o sujeito. É o que impede que o sujeito desmorone na psicose ou na desestruturação total.

Nesse sentido, o fim de uma análise não é a cura completa (no sentido de ausência de sintomas), mas sim o momento em que o sujeito "sabe fazer" com o seu sintoma. Ele identifica sua marca singular e consegue viver sem ser esmagado por ela.

A Diferença Fundamental: Medicina vs. Psicanálise

Para entender o que é o sintoma para a psicanálise, é preciso compará-lo com a visão biomédica:

CaracterísticaVisão Médica / PsiquiátricaVisão Psicanalítica
OrigemDisfunção orgânica ou química.Conflito psíquico e história do sujeito.
SentidoO sintoma é um erro, não faz sentido.O sintoma é uma mensagem cifrada.
ObjetivoEliminar o sintoma (supressão).Decifrar o sintoma e integrá-lo.
AbordagemUniversal (o mesmo remédio para todos).Singular (cada sintoma é único).

O Sintoma na Contemporaneidade

Hoje, vivemos em uma era que exige produtividade e felicidade constante. Nesse cenário, o sintoma é visto como um estorvo. A depressão é tratada apenas como falta de serotonina, e a ansiedade apenas como um desequilíbrio do sistema nervoso.

A psicanálise resiste a essa visão. Ela devolve ao sujeito a autoria do seu sofrimento. Ao perguntar "o que isso significa para você?", o analista retira o paciente da posição de vítima passiva de sua biologia e o coloca como um sujeito que tem algo a dizer sobre sua própria dor.

Os sintomas modernos, como o burnout, os transtornos alimentares e as adições, são novas formas de o inconsciente protestar contra uma cultura que tenta reduzir o ser humano a um objeto de consumo.

Conclusão

O sintoma é a bússola de um tratamento psicanalítico. É através dele que o analista e o analisante caminham em direção às verdades mais profundas do sujeito. Ele é o preço que pagamos por sermos seres de linguagem, mas é também a nossa maior singularidade.

Como dizia Freud, o objetivo da psicanálise é transformar o "sofrimento histérico" em "infelicidade comum", ou seja, dar ao sujeito a capacidade de lidar com as dificuldades da vida sem precisar adoecer para expressar o que sente.

Sugestão de leitura sobre essa temática

Inibição, sintoma e angústia

Michel Plon

No mais novo título da Coleção Para Ler Freud, Michel Plon percorre o itinerário do discurso de Freud sobre a angústia. Tendo como centro o ensaio Inibição, sintoma e angústia (1926), o psicanalista parisiense propõe tanto verificar os antecedentes que levaram Freud a escrever seu texto essencial sobre o tema quanto analisar os acontecimentos que sucederam a publicação.

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Sobre o Autor

Frederico Lima é escritor, psicanalista em formação contínua, especialista em Teoria Psicanalítica, doutor em Letras pela UFPB, com trabalhos publicados em Revistas científicas, capítulos de livros e anais de eventos.

Aviso Ético

O conteúdo deste blog tem caráter informativo, não substituindo a análise pessoal ou supervisão, e não deve ser utilizado como meio para autodiagnósticos. Se estiver passando por um momento psíquico complicado, busque apoio presencial de um analista.