O que é Transferência?

Divã/Fonte: Pixabay

A Transferência é, sem dúvida, o pilar central da clínica psicanalítica. Sem ela, o processo terapêutico seria apenas uma conversa intelectualizada ou um aconselhamento diretivo. Para Sigmund Freud, que a descobriu quase por acidente, a transferência é simultaneamente o maior obstáculo e o instrumento mais poderoso do tratamento.

Neste texto, exploraremos as origens, os mecanismos, as tipologias e a importância técnica desse fenômeno que transforma a relação entre analista e analisando em um "campo de batalha" onde o passado é reatualizado no presente.

A Descoberta: Do Obstáculo ao Instrumento

Nos primórdios da psicanálise, enquanto trabalhava com o método catártico ao lado de Josef Breuer, Freud percebeu um fenômeno intrigante: os pacientes passavam a projetar nele sentimentos intensos, de amor, ódio, dependência ou desconfiança, que não pareciam justificados pela realidade da relação profissional.

Inicialmente, Freud viu isso como uma resistência. Se o paciente estava "apaixonado" pelo médico, ele parava de produzir associações livres sobre seus sintomas para focar na pessoa do analista. No entanto, em seu artigo fundamental de 1912, "A Dinâmica da Transferência", Freud mudou de perspectiva. Ele compreendeu que o paciente não está apenas lembrando do seu passado; ele está repetindo o passado, mas agora direcionado à figura do analista.

O Mecanismo da Repetição

Para entender a transferência, precisamos entender a Compulsão à Repetição. O aparelho psíquico tende a repetir padrões relacionais estabelecidos na infância, especialmente com as figuras parentais.

Quando uma criança vivencia um desejo, uma frustração ou um trauma, essa experiência deixa um "clichê" (termo usado por Freud) ou um protótipo em seu inconsciente. Na vida adulta, ao encontrar alguém que ocupe uma posição de autoridade ou cuidado (como o analista), o sujeito "carimba" esse protótipo sobre a pessoa real.

O analisando não diz: "Eu me sentia negligenciado pelo meu pai". Em vez disso, ele sente que o analista está sendo frio, desatento ou desinteressado. O passado é tornado presente.

Os Tipos de Transferência

Freud categorizou a transferência em três modalidades principais, cada uma com implicações clínicas distintas:

Transferência Positiva

Refere-se aos sentimentos de carinho, confiança e admiração pelo analista. Ela se divide em:

  • Sublimada (Irreprochável): É o motor do tratamento. O paciente confia no analista e, por querer agradá-lo ou por respeitar sua autoridade, colabora com a regra fundamental da associação livre.

  • Erótica: Quando o afeto se torna um desejo sexual ou amor romântico manifesto. Aqui, ela se torna resistência, pois o objetivo do paciente passa a ser a satisfação pulsional e não a cura.

Transferência Negativa

Caracteriza-se por sentimentos de hostilidade, agressividade, inveja ou desprezo. O analista é visto como um perseguidor, um juiz severo ou alguém incompetente. Embora difícil de manejar, a transferência negativa é essencial para acessar o "ódio primordial" e as frustrações arcaicas do sujeito.

Transferência Ambivalente

É a coexistência de sentimentos amorosos e hostis. É a forma mais comum e reflete a realidade das relações humanas, onde o objeto de amor é também aquele que nos frustra.

O "Sujeito Suposto Saber" (A Contribuição de Lacan)

Jacques Lacan, ao retornar a Freud, trouxe uma nova dimensão teórica ao conceito através do Sujeito Suposto Saber (SSS).

Para Lacan, a transferência começa no momento em que o paciente atribui ao analista um saber sobre o seu sofrimento. O analisando pensa: "Eu sofro e não sei por quê, mas este analista sabe o segredo do meu sintoma". Essa suposição de saber confere ao analista uma autoridade quase divina no início, permitindo que o trabalho comece.

No entanto, o fim de uma análise envolve a "queda" desse saber. O paciente descobre que o analista não detém a verdade sobre ele; a verdade é produzida pelo próprio sujeito através da linguagem.

A Transferência como Neurose de Transferência

À medida que o tratamento avança, ocorre um fenômeno que Freud chamou de Neurose de Transferência. A doença original do paciente (seus sintomas externos, fobias, obsessões) é substituída por uma "doença artificial" vivida dentro do consultório.

Toda a libido do paciente, antes investida em seus sintomas, agora se concentra na relação com o analista. O consultório torna-se um laboratório controlado. Se o analista conseguir ajudar o paciente a resolver os conflitos ali, naquele "microcosmos" transferencial, o paciente estará curado de sua neurose na vida real.

O Papel do Analista: A Neutralidade e a Abstinência

Para que a transferência se desenvolva de forma pura, o analista deve seguir dois princípios:

  • Neutralidade: O analista não deve dar conselhos, opiniões pessoais ou julgamentos morais. Ele funciona como um "espelho opaco", refletindo apenas o que o paciente lhe traz.
  • Abstinência: O analista não deve satisfazer os desejos do paciente (nem sexuais, nem de afeto, nem de respostas prontas). A frustração do desejo na transferência é o que força o paciente a falar e a simbolizar, em vez de apenas agir (acting out).

A Contratransferência: O Espelho do Analista

Não podemos falar de transferência sem mencionar a Contratransferência. Trata-se do conjunto de reações inconscientes do analista às projeções do paciente.

  • Antigamente: Era vista como uma falha do analista (um ponto cego que precisava de mais análise pessoal).

  • Visão Moderna (Pós-Freudiana): É vista como uma ferramenta de diagnóstico. Se o analista sente uma súbita irritação ou uma sonolência inexplicável com determinado paciente, isso pode ser uma resposta ao que o paciente está comunicando de forma não verbal.

O analista deve usar sua contratransferência como um sismógrafo para entender as profundezas do inconsciente do outro, mas nunca deve agir com base nela.

O Manejo da Transferência: A Interpretação

O segredo da técnica psicanalítica não é apenas permitir que a transferência aconteça, mas interpretá-la no momento certo.

Interpretar a transferência significa mostrar ao paciente: "Veja, você está reagindo a mim hoje da mesma forma que reagia à sua mãe quando ela não atendia aos seus pedidos". Ao nomear essa repetição, o analista retira o poder do "clichê" inconsciente. O paciente deixa de ser escravo da repetição e passa a ter a possibilidade de escolha.

Por que a Transferência é Necessária?

Muitos perguntam: "Não seria mais fácil apenas conversar logicamente sobre os problemas?". A resposta da psicanálise é não.

O conhecimento intelectual ("Eu sei que meu pai era autoritário") não tem poder de cura por si só. A cura exige uma experiência emocional retificadora. É preciso que o conflito seja vivido "ao vivo" na frente do analista para que as defesas psíquicas possam ser rompidas. A transferência fornece essa "presença" necessária ao tratamento. É a diferença entre ler um livro sobre natação e pular na piscina.

Conclusão

A transferência é o coração pulsante da psicanálise. Ela transforma o consultório em um palco onde dramas antigos são encenados, permitindo que o sujeito reescreva seu script de vida.

É um fenômeno paradoxal: é uma forma de resistência (repetir para não lembrar) e, ao mesmo tempo, a única via de acesso ao inconsciente (repetir para poder elaborar). Entender a transferência é compreender que nossas relações atuais são povoadas pelos "fantasmas" do passado, e que somente ao iluminar esses fantasmas na relação analítica podemos nos tornar verdadeiramente senhores de nossa própria história.

Sem a transferência, a psicanálise seria apenas uma arqueologia de memórias mortas; com ela, é um processo vivo de transformação psíquica.

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