05/11/2025

Josef Breuer

A história da psicanálise, embora indissociavelmente ligada ao nome de Sigmund Freud, tem sua gênese nas obras e descobertas de Josef Breuer (1842–1925), um médico e fisiologista austríaco cuja contribuição inicial foi fundamental para pavimentar o caminho das futuras teorias do inconsciente. Nascido em Viena em 15 de janeiro de 1842, Breuer foi criado por sua avó materna após a morte prematura de sua mãe, enquanto seu pai, Leopold Breuer, era professor de religião na comunidade judaica de Viena. Após completar o Ginásio Acadêmico, decidiu-se pela carreira médica, diplomando-se em 1867. Sua formação sólida e seu interesse pela pesquisa o mantiveram na Universidade de Viena como assistente de Johann Oppolzer até 1871.

Apesar de ter deixado a pesquisa universitária para se dedicar à clínica em 1871, Josef Breuer demonstrou ser um dos mais eminentes fisiologistas do século XIX. Sua carreira científica produziu cerca de 20 trabalhos importantes em fisiologia nervosa. Em 1868, em colaboração com Ewald Hering, ele publicou seu primeiro trabalho de relevância, demonstrando a natureza reflexa da respiração, um mecanismo autônomo do sistema nervoso dos mamíferos que hoje é conhecido como reflexo de Hering-Breuer. Pouco depois, em 1873, voltando sua atenção para a fisiologia do aparelho auditivo, ele fez uma descoberta notável ao elucidar a função dos canais semicirculares do ouvido interno e sua relação com a sensação de equilíbrio do corpo, solidificando sua reputação científica.

O momento que mudaria o curso da história da medicina e da psicologia ocorreu no início da década de 1880, por meio do tratamento de uma paciente que se tornaria famosa na literatura psicanalítica sob o pseudônimo de Anna O. O nome verdadeiro da jovem, Bertha Pappenheim, era uma mulher de 21 anos que apresentava um quadro complexo de depressão e nervosismo, repleto de diversos sintomas histéricos, como paralisias intermitentes, distúrbios visuais, contraturas musculares, perda de sensibilidade e a incapacidade temporária de falar seu idioma nativo, o alemão.

Em 1880, Breuer descobriu acidentalmente que, ao induzir a paciente a relatar sob hipnose as experiências traumatizantes que havia sofrido, especialmente as relacionadas à morte de seu pai, os sintomas podiam ser aliviados. A própria Bertha Pappenheim apelidou o tratamento de "cura pela conversa" (talking cure) ou de "limpeza de chaminé" (chimney sweeping). Breuer, estimulando a paciente a falar sem rodeios, percebeu que a hipnose poderia ser gradualmente dispensada se a conversa fosse habilmente conduzida para provocar a recordação das vivências mais difíceis. Ele descobriu que os sintomas histéricos eram conexões simbólicas com recordações dolorosas que haviam sido reprimidas, e que ao trazer esses processos inconscientes à consciência, eles desapareciam. A esse processo de descarga emocional e alívio de sintomas pela revivência do trauma, Breuer deu o nome de catarse.

Contudo, a profundidade do caso de Anna O. revelou a Breuer o principal problema do método que acabara de inventar: os fenômenos de transferência e contratransferência, termos que seriam subsequentemente conceituados e desenvolvidos por Freud. A intensidade do interesse de Breuer por Bertha, que culminou em uma forte atração mútua, gerou uma crise matrimonial que o forçou a interromper o tratamento. O episódio se encerrou dramaticamente quando Bertha enviou um chamado falso, dizendo-se grávida e em trabalho de parto, um último e desesperado ato de transferência que levou Breuer a se afastar definitivamente da paciente e a viajar com a esposa para restaurar a vida conjugal.

Dessa experiência, Breuer extraiu a conclusão científica de que os sintomas neuróticos eram o resultado de processos inconscientes. Embora não quisesse continuar a prática terapêutica inovadora nem publicar de imediato seus achados, ele compartilhou seu método e suas conclusões com seu jovem colega e amigo, Sigmund Freud. Essa parceria intelectual resultou em um artigo conjunto em 1893 e, dois anos depois, no livro seminal "Estudos sobre a Histeria" (Studien über Hysterie, 1895). Este livro, que detalhava o caso de Anna O. e outros casos tratados por Freud, é universalmente considerado o marco inicial da psicanálise.

Apesar de ter sido o catalisador do novo campo, a parceria entre Breuer e Freud foi interrompida devido a uma divergência central. Breuer não aceitava o crescente ponto de vista de Freud de que as recordações infantis de sedução relatadas pelas pacientes eram reais; ele insistia que eram fantasias infantis. Breuer, que havia sido alvo de críticas dolorosas por parte de seus colegas vienenses após a publicação dos "Estudos sobre a Histeria", não seguiu o caminho das modificações introduzidas por Freud, mantendo-se fiel à técnica de catarse sem adotar a ênfase na etiologia sexual da neurose. Mais tarde, o próprio Freud reconheceria que Breuer estava certo ao contestar o caráter universalmente real dos traumas de sedução.

Josef Breuer faleceu em Viena em 20 de junho de 1925, deixando um legado de eminência na fisiologia e uma herança intelectual que, embora ele próprio tenha se distanciado da psicanálise em sua forma final, foi indispensável para o nascimento da disciplina. Sua filha Dora, mais tarde, com a ascensão do nazismo, preferiria o suicídio a cair nas mãos dos alemães, enquanto outros membros da família foram forçados à emigração ou foram vítimas da perseguição, um trágico epílogo para a vida de um dos grandes pioneiros da ciência médica de Viena.

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