A psicanálise, desde os seus primórdios com Sigmund Freud e Josef Breuer, buscou compreender como os eventos do passado moldam o sofrimento psíquico do presente. No centro dessa investigação inicial surgiu o conceito de ab-reação, uma peça fundamental para entender a transição do método hipnótico para a psicanálise propriamente dita.
O que é Ab-reação?
Em termos simples, a ab-reação é a descarga emocional ligada à recordação de um trauma. O termo deriva do alemão Abreagieren, que sugere uma reação "para fora" ou "a partir de".
Na teoria freudiana clássica, um trauma não é apenas um evento externo doloroso, mas um evento que o indivíduo não conseguiu processar adequadamente no momento em que ocorreu. Quando uma experiência é vivida com uma carga afetiva muito intensa e essa emoção não encontra uma via de expressão (seja por palavras, choro ou ação), ela fica "encistada" no psiquismo. A ab-reação é o processo de liberar esse afeto represado.
Os Componentes da Ab-reação
Para que uma ab-reação seja terapêutica, ela geralmente envolve dois elementos:
- Lembrança do evento: O paciente recupera a memória do fato traumático que havia sido esquecido ou reprimido.
- Afeto original: O paciente revive a emoção (medo, raiva, luto, humilhação) com a mesma intensidade do momento da ocorrência.
Sem a descarga do afeto, a simples lembrança intelectual do fato não tem efeito curativo. É o que Freud descrevia como "lembrar sem sentir", o que mantém o sintoma intacto.
Origem Histórica: O Caso Anna O. e os "Estudos sobre a Histeria"
Para entender a ab-reação, precisamos voltar ao final do século XIX, especificamente ao trabalho de Josef Breuer com a paciente Bertha Pappenheim, imortalizada como Anna O.
Anna O. sofria de uma série de sintomas histéricos: paralisias, distúrbios de visão e hidrofobia (medo de beber água). Breuer descobriu que, quando a paciente conseguia relatar, sob hipnose, a origem exata de um sintoma, revivendo a emoção daquele momento, o sintoma desaparecia. Ela mesma apelidou esse processo de talking cure (cura pela fala) ou "limpeza de chaminé".
Em 1895, Freud e Breuer publicaram Estudos sobre a Histeria, onde formularam a famosa tese: "Os histéricos sofrem principalmente de reminiscências". Eles argumentavam que o sintoma era um substituto para um processo psíquico que não foi "ab-reagido".
O Exemplo da Hidrofobia
No caso de Anna O., ela não conseguia beber água há semanas. Sob hipnose, ela lembrou-se de ter visto a cadela de sua acompanhante beber água de um copo, o que lhe causou um profundo nojo que ela reprimiu por educação. Após relatar essa cena com grande raiva e repulsa (ab-reação), ela acordou da hipnose e pediu um copo de água, bebendo-o sem dificuldades. O afeto tinha sido liberado.
A Teoria do Afeto Estrangulado
A lógica por trás da ab-reação baseia-se no que Freud chamou inicialmente de princípio de constância. O aparelho psíquico tende a manter a quantidade de excitação (energia) no nível mais baixo possível.
- Experiência Normal: Você sofre uma ofensa, fica com raiva, discute ou chora (reage) e a energia se dissipa.
- Experiência Traumática: Você sofre uma ofensa, mas por alguma razão (medo, imposição social, choque) não pode reagir. O afeto fica "estrangulado".
Esse afeto estrangulado permanece ligado à lembrança, mas como a lembrança é dolorosa, ela é expulsa da consciência (repressão). No entanto, a energia não desaparece; ela se converte em um sintoma físico (na histeria) ou em uma ideia obsessiva. A ab-reação funciona como uma "catarse", uma purificação que permite que a energia finalmente flua e o equilíbrio seja restaurado.
Tipos de Ab-reação
A ab-reação não ocorre apenas de uma forma. Ela pode ser classificada de acordo com sua origem e manifestação:
Ab-reação Espontânea
Ocorre naturalmente logo após um evento. Quando uma pessoa chora a morte de um ente querido ou grita após um susto, ela está ab-reagindo. A cultura e os rituais (como o velório) servem como facilitadores sociais para a ab-reação coletiva e individual.
Ab-reação Provocada (Terapêutica)
É aquela buscada no ambiente clínico. Inicialmente feita via hipnose, depois através da associação livre. O analista cria um ambiente seguro para que o paciente possa contatar núcleos de dor que seriam insuportáveis em outro contexto.
Ab-reação Massiva vs. Fracionada
Nem sempre a ab-reação acontece em um grande "clímax" emocional. Na psicanálise moderna, observa-se que o paciente muitas vezes libera pequenos "quanta" de afeto ao longo de várias sessões, em um processo de elaboração mais lento e gradual.
Da Catarse à Elaboração: A Evolução do Conceito
Embora a ab-reação tenha sido a "estrela" do início da psicanálise (o chamado período do método catártico), Freud percebeu que ela sozinha tinha limitações. Muitos pacientes apresentavam melhoras dramáticas após uma ab-reação, mas os sintomas retornavam meses depois ou novos sintomas apareciam.
Por que isso acontecia? Porque a ab-reação ataca o afeto, mas não necessariamente a estrutura que causou a repressão.
O Surgimento da "Elaboração" (Durcharbeiten)
Freud percebeu que o paciente precisava de algo mais do que uma descarga emocional; ele precisava entender o lugar que aquele trauma ocupava em sua história de vida. A ênfase mudou da catarse explosiva para a elaboração psíquica.
- Ab-reação: É o "descarregar".
- Elaboração: É o "tecer". É integrar a experiência traumática na rede de significados da pessoa, para que ela deixe de ser um corpo estranho no psiquismo.
Ab-reação e a Transferência
Um dos pontos de virada na psicanálise foi a descoberta de que a ab-reação não precisava apenas de uma lembrança do passado, mas que muitas vezes ela ocorria na relação com o analista. Isso é o que chamamos de transferência.
O paciente não apenas lembra que sentia raiva do pai; ele sente raiva do analista "como se" ele fosse o pai. A ab-reação que ocorre dentro da transferência é considerada extremamente poderosa, pois o afeto está vivo e presente no "aqui e agora" da sessão. Ao vivenciar e nomear essa emoção em relação ao analista, o paciente tem a chance de dar um destino diferente para aquele afeto estrangulado.
Críticas e Limitações do Conceito
Apesar de sua importância histórica, o conceito de ab-reação enfrentou críticas ao longo do desenvolvimento da teoria:
- O perigo da re-traumatização: Forçar uma ab-reação em um paciente com ego fragilizado pode ser perigoso. Reviver o trauma sem ter ferramentas para contê-lo pode piorar o quadro.
- O "Vício" na Catarse: Alguns pacientes buscam o alívio imediato da descarga emocional (chorar compulsivamente na sessão), mas usam isso como uma resistência para não pensar seriamente sobre suas escolhas e desejos. A descarga torna-se um fim em si mesma, em vez de um meio para a mudança.
- Memórias Falsas: Na fase da hipnose, a busca obstinada pela ab-reação de um trauma às vezes levava à sugestão, onde pacientes "criavam" memórias para satisfazer a busca do médico.
A Ab-reação na Clínica Contemporânea
Hoje, raramente ouvimos um psicanalista dizer "vou induzir uma ab-reação". No entanto, o fenômeno continua ocorrendo. Quando um paciente, após meses de análise, subitamente faz uma conexão entre um padrão atual e um evento de infância e desaba em um choro profundo de reconhecimento, isso é ab-reação.
Ela é vista agora como um facilitador da integração. A descarga emocional limpa o terreno para que a palavra possa finalmente dar sentido ao que era apenas dor muda.
Diferença entre Ab-reação e Acting Out
É importante não confundir ab-reação com acting out (atuação).
- No acting out, o sujeito age o conflito (ex: quebra algo, briga na rua) para não ter que lembrar ou sentir a dor psíquica. É uma fuga.
- Na ab-reação, o sujeito sente a dor e a expressa no contexto da lembrança. É um encontro.
Conclusão
A ab-reação é o conceito que permitiu à psicanálise nascer como uma "cura pela fala". Ela nos ensina que o corpo e a mente não esquecem o que não foi devidamente "chorado" ou "dito". Embora a técnica psicanalítica tenha evoluído para formas muito mais complexas de interpretação e análise da resistência, a necessidade humana de liberar afetos estrangulados permanece universal.
Entender a ab-reação é entender que a saúde mental não depende apenas do esquecimento do que nos feriu, mas da nossa capacidade de revisitar essas feridas, conferir-lhes uma voz emocional e, finalmente, permitir que o passado deixe de ser um presente perpétuo na forma de sintoma.
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