Desenvolvido pelo filósofo e crítico literário russo Mikhail Bakhtin em seus ensaios sobre a teoria do romance, o termo heteroglossia, tradução do russo raznorecie, que significa literalmente "diversidade de linguagens" ou "variedade discursiva", designa a presença coexistente e conflitante de múltiplas vozes, linguagens sociais, dialetos, jargões e registros no interior de uma mesma obra literária. Para Bakhtin, a linguagem jamais é um sistema abstrato, neutro e homogêneo; pelo contrário, a língua viva é marcada por estratificações sociais, históricas, profissionais, ideológicas e geracionais. Quando o texto literário acolhe e orquestra essa pluralidade sem reduzi-la a uma voz única ou dominante, presenciamos o fenômeno da heteroglossia.
Na poesia lírica tradicional, frequentemente predomina uma busca por uma voz unificada, um eu lírico que centraliza a visão de mundo. No romance, por outro lado, a heteroglossia encontra seu ambiente natural. O romance funciona como uma grande arena dialógica na qual diferentes visões de mundo entram em fricção. O autor romanesco não fala em uma língua monolítica, mas maneja um coro de vozes, permitindo que a linguagem dos magistrados, a gíria das ruas, o falar camponês, o jargão científico e o discurso religioso convivam na mesma estrutura narrativa.
Para compreender como a heteroglossia se materializa na prática literária, vale observar a evolução da narrativa ocidental. Em Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, a tensão heteroglóssica é a própria força motriz da trama. O choque entre a linguagem erudita, arcaica e sublimada dos livros de cavalaria enunciada por Quixote e a fala popular, repleta de provérbios e pragmatismo, de Sancho Pança expõe duas visões do mundo que se interpenetram e se ironizam mutuamente. Não há uma voz que anule a outra; o romance vive justamente no espaço entre esses discursos.
Outro exemplo emblemático manifesta-se na obra de Fiódor Dostoiévski, autor a quem Bakhtin dedicou estudos fundamentais. Em romances como Crime e Castigo, as personagens não são meros joguetes nas mãos do narrador, mas sujeitos de seus próprios discursos. O discurso racionalista e utilitarista de Raskólnikov dialoga e combate com a linguagem da fé e da redenção de Sônia, assim como com o tom cínico de Svidrigáilov. Cada personagem encarna um registro sócio-ideológico distinto, e a narrativa dostoievskiana recusa-se a impor uma conclusão definitiva que silencie essa polifonia.
No contexto da literatura brasileira, a heteroglossia revela-se de forma magistral no Naturalismo e na literatura moderna. Em O Cortiço, de Aluísio Azevedo, observa-se o entrecruzamento de registros linguísticos que marcam as origens sociais, étnicas e regionais das personagens, desde a fala do imigrante português até a linguagem das camadas populares urbanas do Rio de Janeiro do século XIX. Contudo, é em Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, que a heteroglossia atinge um de seus ápices na nossa língua. Guimarães Rosa reconstrói o falar sertanejo e o funde a termos arcaicos, neologismos, construções eruditas e reflexões filosóficas profundas. A voz do narrador Riobaldo é simultaneamente a voz do sertanejo, do jagunço e do pensador existencialista, demonstrando que a língua do sertão é habitada por múltiplos saberes e registros.
Da mesma forma, na literatura universal do século XX, o romance Ulysses, de James Joyce, eleva a heteroglossia a um nível quase enciclopédico. Ao longo de vinte e quatro horas na vida de Leopold Bloom, Joyce parodia o inglês jornalístico, o catecismo católico, o estilo da ficção sentimental, a linguagem da publicidade e a oratória política, transformando o romance em um laboratório da diversidade discursiva da modernidade.
Referências Bibliográficas
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da obra de Dostoiévski. Tradução de Sheila Vieira de Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova. 1. ed. São Paulo: Editora 34, 2022.
BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. 1. ed. São Paulo: UNESP/Hucitec, 2010.
LUKÁCS, Georg. A teoria do romance. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2009.
VOLÓCHINOV, Valentin. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. 1. ed.São Paulo: Editora 34, 2017.
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