Ao organizar os fatores constitutivos de qualquer ato de comunicação, emissor, receptor, mensagem, contexto, código e canal, o linguista russo Roman Jakobson associou a cada um desses elementos uma função de linguagem específica. A função emotiva centra-se no emissor; a conativa, no receptor; a referencial, no contexto factual; a fática, no canal de contato; e a metalinguística, no código. A função poética, por sua vez, é definida pelo foco direcionado para a própria mensagem. Isso significa que, na função poética, a seleção e o arranjo das palavras não buscam somente retratar a realidade externa, mas também atrair a atenção do leitor para a estrutura, a sonoridade, o ritmo e a tessitura do próprio texto.
Dizer que o foco está na mensagem não implica afirmar que o conteúdo se torna irrelevante, já que a forma e a matéria verbal passam a integrar o significado de maneira indissociável. A teórica linguística chama esse fenômeno de projeção do princípio de equivalência do eixo da seleção sobre o eixo da combinação. Em termos mais simples e práticos: ao construirmos uma frase comum, selecionamos palavras de um repositório mental e as combinamos segundo regras gramaticais básicas. Na função poética, essa combinação deixa de ser neutra e passa a explorar semelhanças sonoras, simetrias sintáticas, ecos métricos, jogos morfológicos e trocadilhos conceituais. A palavra deixa de ser uma janela transparente pela qual olhamos o mundo e passa a ser um vitral colorido cuja própria substância deve ser admirada.
É a função poética que transforma o discurso em arte e confere densidade expressiva ao texto literário. Quando observamos a poesia lírica, essa dinâmica manifesta-se em seu estado mais puro e cristalino. Tomemos como exemplo a poesia barroca de Gregório de Matos. Em seus sonetos religiosos, a angústia existencial e o fervor espiritual do eu lírico não são transmitidos apenas pela declaração explícita de conceitos teológicos, mas pela arquitetura rigorosa do verso. O contraste entre o pecado e a salvação ganha vida através de antíteses, quiasmos e jogos de palavras onde o som de um termo espelha e tensiona o som do termo oposto. O leitor é capturado pelo ritmo marcante e pela sonoridade densa antes mesmo de decodificar integralmente a mensagem teológica.
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Essa valorização da matéria verbal atinge outro grau na modernidade, como se observa na produção dos poetas do Parnasianismo e do Simbolismo. No Parnasianismo, com autores como Olavo Bilac, a busca pela perfeição métrica, a rima rica e a escolha vocabular precisa transformam o poema em uma escultura de palavras. A função poética opera aqui como uma lapidação minuciosa da linguagem. Já no Simbolismo de Cruz e Sousa, há uma exploração dos aspectos fônicos da língua através do uso ostensivo de aliterações e assonâncias. No famoso poema dedicado ao som dos violões, a repetição sistemática de consoantes consonantais e vogais fechadas recria auditivamente a atmosfera soturna e melancólica do instrumento. A mensagem não é apenas lida, mas ouvida e tida sensorialmente pelo leitor por meio do arranjo sonoro arquitetado pelo poeta.
Entretanto, seria um equívoco conceitual limitar a função poética ao texto em verso. A prosa literária também é profundamente irrigada por essa dimensão expressiva. No romance moderno, a forma como a história é contada frequentemente se sobrepõe à própria anedota ou ao enredo factual. Consideremos a narrativa de Guimarães Rosa na monumental obra Grande Sertão: Veredas. A linguagem utilizada pelo sertanejo Riobaldo não é uma mera reprodução documental do falar sertanejo, mas sim uma recriação artística e invenção linguística de altíssima densidade poética. Rosa subverte a sintaxe tradicional, cria neologismos extraordinários e funde termos arcaicos a construções populares. Nesse universo narrativo, a travessia do sertão, o medo do diabo e o amor por Diadorim acontecem dentro da própria estrutura da frase. A função poética em Guimarães Rosa transforma a norma culta em um território mitológico e sonoro singular, onde cada frase exige do leitor uma desaceleração contemplativa.
De maneira análoga, Clarice Lispector utiliza a função poética na prosa para capturar estados d'alma e momentos de epifania que escapam à lógica cartesiana. Em obras como Perto do Coração Selvagem ou A Paixão segundo G.H., a sequência linear dos fatos cede lugar a uma exploração minuciosa do fluxo de consciência e da angústia existencial. Clarice trabalha a pontuação, o ritmo das orações e as metáforas inusitadas de forma a desestabilizar a percepção convencional do leitor. A linguagem clariceana se dobra sobre si mesma, hesita, busca termos improváveis e constrói silêncios na página impressa. O significado surge justamente da estranheza e da beleza dessa construção sintática e semântica, demonstrando como a função poética pode servir à sondagem dos abismos psicológicos humanos.
Outro exemplo fundamental de como a função poética reestrutura o texto narrativo pode ser encontrado no Realismo machadiano. Em Dom Casmurro, Machado de Assis constrói a narrativa de Bento Santiago não apenas com fatos, mas com uma fina ironia que se expressa na seleção precisa de cada adjetivo, na digressão metalinguística e na omissão calculada. A ambiguidade que cerca a figura de Capitu e o suposto adultério não está fundamentada em provas empíricas apresentadas ao longo da trama, mas no modo poético e retórico como a memória do narrador alinhava e manipula as palavras. A dúvida é criada pelo próprio arranjo discursivo, demonstrando como o efeito de sentido literário depende crucialmente da forma como a linguagem é orquestrada.
Referências Bibliográficas
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 3. ed. Jandira–SP: Principis, 2019.
Comprar na AmazonBILAC, Olavo. Poesias. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
Comprar na AmazonCRUZ E SOUSA, João da. Broquéis. 1. ed. São Paulo: LePM, 2002.
Comprar na AmazonEAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
Comprar na AmazonJAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. 22. ed. São Paulo: Cultrix, 2013.
Comprar na AmazonLISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G. H.. 1. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.
Comprar na AmazonMATOS, Gregório de. Poemas Escolhidos. Jandira–SP: Principis, 2020.
Comprar na AmazonROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 22. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Comprar na AmazonTODOROV, Tzvetan. Teoria da literatura: Textos dos formalistas russos. Tradução de Roberto Leal Ferreira. 1. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2014.
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