Publicado em 1890, no limiar da consolidação da República no Brasil, O Cortiço é considerada a obra-prima de Aluísio Azevedo (1857-1913). Em pleno ápice do Naturalismo na literatura brasileira, o romance traduz o ambiente socioeconômico do Rio de Janeiro do final do século XIX, marcado pelo trabalho escravo em declínio, pelo fluxo imigratório europeu e pela nascente urbanização desordenada. Azevedo, maranhense radicado na então capital do país, aplicou ao texto as doutrinas cientificistas que vigoravam na Europa do período, em especial o determinismo de Émile Zola e Hippolyte Taine, reelaborando esses pressupostos para compor uma radiografia crua e pessimista das relações de classe e raça na sociedade urbana nacional.
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A estrutura da diegese é orquestrada por um narrador heterodiegético de terceira pessoa, cuja focalização é eminentemente onisciente e voyeurística. Essa escolha de foco narrativo permite ao autor mover-se livremente pelas diversas esferas de ação que compõem a habitação coletiva, assumindo uma postura analítica que mimetiza o olhar de um cientista em laboratório. A gradação temporal do romance segue um tempo diegético predominantemente cronológico, no qual o avanço dos meses acompanha a aceleração do acúmulo de capital do comerciante português João Romão. O espaço, contudo, deixa de ser mero pano de fundo para ascender à condição de protagonista: o cortiço funciona como um ecossistema autônomo, um organismo vivo que devora, altera e degrada a conduta moral dos indivíduos que nele ingressam.
A construção das personagens rege-se pelo princípio da zoomorfização, recurso estético central do Naturalismo azevediano. Os indivíduos raramente são apresentados sob uma chave psicológico-individualizada; antes, atuam como tipos sociais subordinados ao meio, à raça e ao momento histórico. A trajetória do português Jerônimo ilustra com clareza essa mecânica: o trabalhador sóbrio e disciplinado tem sua conduta gradualmente alterada após o contato com o clima tropical, a cachaça e, fundamentalmente, pela atração física exercida pela mestiça Rita Baiana. Por outro lado, João Romão encarna a ganância mercantilista e o despojo moral em nome da ascensão social, enquanto a escravizada Bertoleza representa a exploração do trabalho e a ilusão da alforria no projeto de dominação burguesa. A verossimilhança do relato reside justamente no encadeamento rigoroso entre os impulsos biológicos e as determinantes ambientais.
Em termos estilísticos, Azevedo emprega uma prosa sensorial e incisiva, na qual metáforas biológicas, sinestesias e descrições minuciosas do corpo humano constroem um tom de marcada fluidez e crudeza visual. A construção do pathos não busca a comoção empática do leitor, mas a provocação de um estranhamento crítico diante do choque entre a miséria material e a expansão do capitalismo financeiro e imobiliário. O contraste entre o cortiço em transição e o sobrado aristocrático vizinho, pertencente ao barão Miranda, estabelece a tensão de classes que estrutura a narrativa, mostrando como a opulência e a marginalidade são duas faces da mesma moeda no processo de modernização brasileira.
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Acredito que Azevedo consegue fazer com que o seu romance supere a mera reprodução dos modelos franceses, firmando uma interpretação aguda do Brasil finissecular, e o faz expondo como o capital instrumentaliza os corpos e as paixões, o que torna O Cortiço uma das obras mais vigorosos da prosa de ficção nacional.
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