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07/08/2026

Breve resenha crítica do livro Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado

Publicado em 1966, Dona Flor e Seus Dois Maridos está inserido na fase de maturidade de Jorge Amado (1912-2001), momento em que o romancista baiano se distanciou do tom panfletário do romance de trinta e do realismo socialista inicial para consolidar uma estética mais centrada no lirismo, no pitoresco e no realismo mágico urbano. Ambientado na Salvador dos anos 1940, o livro reflete um período de transição socioeconômica e cultural no Brasil, que une a efervescência popular, a religiosidade sincrética e a afirmação de uma identidade nacional costurada pelo cotidiano das classes populares. A trajetória de Floripides Paiva, a Dona Flor, é o eixo em redor do qual o autor articula os dilemas entre o dever social e o desejo individual.

Nesta arquitetura romanesca, a diegese desdobra-se a partir de uma focalização heterodiegética de terceira pessoa. O narrador, contudo, recusa o distanciamento olímpico tradicional; comporta-se como um cronista das ruas baianas, integrando o ecossistema do romance ao dirigir-se ao leitor com cumplicidade, ironia e leveza. Esse foco narrativo onisciente e seletivo organiza a temporalidade diegética em ritmo pausado, intercalando o tempo cronológico com digressões anacrônicas que reconstroem o passado dos personagens e os hábitos da comunidade. As esferas de ação concentram-se na trinca protagonista: Vadinho, a corporificação do dionísiaco, do jogo e da transgressão; Dr. Teodoro Madureira, o arquétipo do apolíneo, da ordem, do método e da estabilidade burguesa; e Flor, que habita a zona de tensão entre essas duas forças antagônicas.

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Sob a perspectiva dos aspectos estéticos e estilísticos, Amado vale-se de uma prosa marcada pelo sensorialismo e pela oralidade incorporada à norma culta. Recursos como a sinestesia e a enumeração caótica surgem com frequência nas sequências dedicadas à culinária, onde as receitas de comida baiana funcionam como metáfora da mescla cultural e do apelo carnal, e no uso constante de expressões cotidianas. O realismo mágico manifesta-se não como ruptura com o mundo ordinário, mas como extensão natural da cosmovisão soteropolitana, na qual a fronteira entre o plano terreno e o transcendental é porosa. A verossimilhança interna da obra constrói-se justamente nessa aceitação orgânica do sobrenatural, sustentada pela presença do candomblé e pelas crenças populares que legitimam a coexistência dos mundos.

A densidade dramática do romance apoia-se na construção do pathos da protagonista. Após a morte prematura de Vadinho durante o Carnaval, evento que inaugura o conflito central, Flor vivencia o luto, a negação do desejo e o posterior recasamento com o respeitável farmacéutico Teodoro. Se a nova união garante a respeitabilidade social e a segurança econômica que a sociedade patriarcal exigia de uma mulher viúva, também revela a privação do ímpeto erótico. A crise psicológica da personagem intensifica-se à medida que a memória do primeiro marido deixa de ser apenas uma lembrança dolorosa para se materializar em presença intangível, exigindo dela uma negociação interior entre a convenção moralista da pequena burguesia e as demandas inegociáveis do próprio corpo.

Dona Flor parece encenar um ponto de convergência de dois universos complementares que a crítica tradicional frequentemente insistia em separar, representadas por Jorge Amado sob a forma de uma alegoria da própria identidade brasileira, que oscila entre a disciplina pragmática e a celebração festiva. A viúva, em sua busca por plenitude, não escolhe entre a segurança do lar e a transgressão do desejo, mas reconfigura as normas da própria realidade para acomodar ambas as forças, revelando a capacidade do célebre romancista de transformar o cotidiano soteropolitano em uma reflexão universal sobre a liberdade individual e a complexidade do afeto.

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