18/08/2026

Quem é Pélope (Pélops) na Mitologia Grega?

Considerado uma das personalidades mais emblemáticas dos mitos clássicos, Pélope representa a intersecção entre o hibrismo humano, a intervenção divina, o rito de passagem e o estabelecimento de dinastias reais que moldaram a paisagem geográfica e cultural da Grécia Antiga, em especial a península do Peloponeso, cujo nome deriva diretamente do seu.

Para compreender a relevância mitológica de Pélope, é fundamental recuar até às suas origens familiares. Filho do rei Tântalo, que governava a Lídia ou a Sípilo, e de Dione ou Eurianassa, Pélope pertencia a uma linhagem abençoada pelo convívio direto com os deuses, mas profundamente marcada pela impiedade e pela desmesura. Tântalo desfrutava da rara prerrogativa de frequentar os banquetes no Monte Olimpo, mas a sua soberba levou-o a cometer um dos atos mais abomináveis da tradição mítica: no intuito de pôr à prova a omnisciência das divindades olímpicas, Tântalo assassinou o próprio filho, esquartejou o corpo de Pélope e serviu os seus restos num suntuoso festim oferecido aos imortais.

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Percebendo de imediato a monstruosa armadilha, a maioria dos deuses recusou-se a tocar na comida sacrílega. No entanto, a deusa Deméter, profundamente mergulhada em luto e distração por causa do recente rapto de sua filha Perséfone por Hades, acabou por consumir uma porção da carne, devorando o ombro esquerdo do jovem. Diante de tal atrocidade, Zeus e o panteão olímpico puniram severamente Tântalo, condenando-o ao tormento eterno no Tártaro, onde ficaria atormentado pela fome e pela sede perpétuas. Paralelamente, os deuses decidiram ressuscitar o jovem Pélope. Juntando as partes do seu corpo num caldeirão sagrado, devolveram-lhe a vida, e o deus artesão Hefesto confeccionou uma prótese de marfim radiante para substituir o ombro devorado por Deméter. Assim, o ombro de marfim tornou-se a marca física indelével de Pélope e um símbolo distintivo transmitido aos seus descendentes.

A ressurreição de Pélope não apenas restaurou a sua existência, mas conferiu-lhe uma beleza sobre-humana aprimorada pelas bênçãos divinas. Atraído por essa formosura, Poseidon, o deus dos mares e dos cavalos, apaixonou-se pelo jovem e tomou-o como seu protegido e aprendiz no Olimpo, num padrão mitológico que prefigura a relação entre erastes e eromenos. Durante a sua permanência no reino divino, Pélope aprendeu os segredos da arte da condução de carros e da equitação. Quando mais tarde retornou ao mundo dos mortais, expulsos ou impelido pelas guerras na Ásia Menor, trouxe consigo um presente inestimável concedido por Poseidon: um carro dourado e cavalos alados imortais, capazes de ultrapassar qualquer vento.

Ao chegar à Grécia continental, Pélope fixou os seus olhos em Hipodâmia, a bela filha de Enômau, rei de Pisa na Élida. Enômau, contudo, recusava-se a conceder a mão da filha. Temendo uma profecia oracular que previa a sua morte pelas mãos do genro, ou tomado por um desejo incestuoso por Hipodâmia, o rei desafiava todos os pretendentes para uma corrida de carros mortaística. O pretendente devia levar Hipodâmia no seu carro e partir rumo ao Istmo de Corinto, enquanto Enômau, equipado com armas sagradas e cavalos velocíssimos dados por Ares, dava uma vantagem inicial ao jovem antes de o perseguir e degolar. Treze pretendentes haviam sido derrotados e executados antes da chegada de Pélope, com as suas cabeças empaladas nos portões do palácio real.

Ciente do perigo fulminante, Pélope recorreu tanto à sua destreza quanto à astúcia. Além de contar com os cavalos alados dados por Poseidon, buscou o auxílio de Mírtilo, o cocheiro de Enômau. Mírtilo, persuadido pela promessa de metade do reino ou pelo privilégio de passar a primeira noite com Hipodâmia, sabotou o carro do rei substituindo os cavilhas de bronze das rodas por peças feitas de cera de abelha. Durante a disputa frenética, o atrito derreteu a cera, o carro de Enômau despedaçou-se e o tirano foi arrastado até a morte.

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Com a vitória, Pélope casou-se com Hipodâmia e assumiu o trono de Pisa e de Olímpia. Contudo, no momento de cumprir a promessa feita a Mírtilo, tomou a decisão trágica de traí-lo, arremessando o cocheiro de um precipício para o mar. Enquanto despencava para a morte, Mírtilo rogou uma terrível maldição sobre Pélope e toda a sua descendência. Esse ato de perfídia uniu a bênção divina do triunfo à mancha moral da traição, selando a fada trágica da Casa de Atreu. De Pélope e Hipodâmia nasceram importantes figuras da mitologia, como Atreu e Tiestes, cujas disputas sangrentas desdobraram-se nas tragédias de Agamêmnon, Menelau, Egisto e Orestes.

Apesar da maldição ancestral, a figura de Pélope permaneceu reverenciada em toda a Hélade. Ele unificou vastos territórios do Sul da Grécia, dando o seu próprio nome à região, que passou a ser chamada de Peloponeso, significando a ilha de Pélope. Ademais, a tradição mítico-histórica associa Pélope à reorganização dos Jogos Olímpicos na região sagrada de Olímpia, onde o seu túmulo e santuário, o Pelópion, tornou-se objeto de cultos heroicos rituais de enorme prestígio durante a Antiguidade Clássica. 

Referências Bibliográficas

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VERNANT, J-P. O Universo, os Deuses, os Homens. [Tradução de Rosa Freire Aguiar]. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.


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Frederico Lima é graduado em Letras (Licenciatura Plena em Língua Portuguesa), mestre e doutor em Letras (Literatura, Teoria e Crítica) pela UFPB. Também possui formação em Psicanálise e especializações em Teoria Psicanalítica, Literatura Brasileira, e Literatura Contemporânea.

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