Quem é Pélope (Pélops) na Mitologia Grega?
Considerado uma das personalidades mais emblemáticas dos mitos clássicos, Pélope representa a intersecção entre o hibrismo humano, a intervenção divina, o rito de passagem e o estabelecimento de dinastias reais que moldaram a paisagem geográfica e cultural da Grécia Antiga, em especial a península do Peloponeso, cujo nome deriva diretamente do seu.
Para compreender a relevância mitológica de Pélope, é fundamental recuar até às suas origens familiares. Filho do rei Tântalo, que governava a Lídia ou a Sípilo, e de Dione ou Eurianassa, Pélope pertencia a uma linhagem abençoada pelo convívio direto com os deuses, mas profundamente marcada pela impiedade e pela desmesura. Tântalo desfrutava da rara prerrogativa de frequentar os banquetes no Monte Olimpo, mas a sua soberba levou-o a cometer um dos atos mais abomináveis da tradição mítica: no intuito de pôr à prova a omnisciência das divindades olímpicas, Tântalo assassinou o próprio filho, esquartejou o corpo de Pélope e serviu os seus restos num suntuoso festim oferecido aos imortais.
Percebendo de imediato a monstruosa armadilha, a maioria dos deuses recusou-se a tocar na comida sacrílega. No entanto, a deusa Deméter, profundamente mergulhada em luto e distração por causa do recente rapto de sua filha Perséfone por Hades, acabou por consumir uma porção da carne, devorando o ombro esquerdo do jovem.
A ressurreição de Pélope não apenas restaurou a sua existência, mas conferiu-lhe uma beleza sobre-humana aprimorada pelas bênçãos divinas. Atraído por essa formosura, Poseidon, o deus dos mares e dos cavalos, apaixonou-se pelo jovem e tomou-o como seu protegido e aprendiz no Olimpo, num padrão mitológico que prefigura a relação entre erastes e eromenos.
Ao chegar à Grécia continental, Pélope fixou os seus olhos em Hipodâmia, a bela filha de Enômau, rei de Pisa na Élida.
Ciente do perigo fulminante, Pélope recorreu tanto à sua destreza quanto à astúcia. Além de contar com os cavalos alados dados por Poseidon, buscou o auxílio de Mírtilo, o cocheiro de Enômau. Mírtilo, persuadido pela promessa de metade do reino ou pelo privilégio de passar a primeira noite com Hipodâmia, sabotou o carro do rei substituindo os cavilhas de bronze das rodas por peças feitas de cera de abelha. Durante a disputa frenética, o atrito derreteu a cera, o carro de Enômau despedaçou-se e o tirano foi arrastado até a morte.
Com a vitória, Pélope casou-se com Hipodâmia e assumiu o trono de Pisa e de Olímpia.
Apesar da maldição ancestral, a figura de Pélope permaneceu reverenciada em toda a Hélade. Ele unificou vastos territórios do Sul da Grécia, dando o seu próprio nome à região, que passou a ser chamada de Peloponeso, significando a ilha de Pélope.
Referências Bibliográficas
BULFINCH, T. O Livro da Mitologia: Histórias de Deuses e Heróis. [Tradução de David Jardim]. 2ª ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2017.
Ver na AmazonCOMMELIN, P. Mitologia Grega e Romana. 1ª ed. Belo Horizonte: Editora Garnier, 2025.
Ver na AmazonGRAVES, Robert. Os Mitos Gregos: Box com dois volumes. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.
Ver na AmazonGRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana. [Tradução de Victor Jabouille]. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.
Ver na AmazonKÉRÉNYI, K. Os Deuses dos Gregos. São Paulo: Cultrix, 1997.
Ver na AmazonMARCH, J. Mitos clássicos. Tradução de Maria Alice Máximo. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.
Ver na AmazonVERNANT, J-P. O Universo, os Deuses, os Homens. [Tradução de Rosa Freire Aguiar]. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
Ver na AmazonComprando pelos links acima, o editor recebe uma pequena comissão pela indicação, ou seja, você ajuda o blog a permanecer no ar sem pagar nada a mais por isso. Obrigado pelo apoio!
Postar um comentário
Por favor, use o espaço de comentários para responder ao post! Não utilize para promover spam, ódio, conteúdos ilegais ou ofender outros leitores. Os comentários costumam ser publicados imediatamente, a não ser que o sistema ache que se trata de um spam. Então você tem que esperar a aprovação da moderação. Ocasionalmente, posso ter que apagar alguns comentários, mas não por ponto de vista... apenas quando violam os pedidos acima. Evite utilizar itálico, nem que seja brevemente. Use asteriscos para dar ênfase. E não brinque com o formato mudando fontes, usando negrito ou tudo em maiúsculas. Dito isso, comente à vontade. Dúvidas, críticas, indicações erros, solicitação de informações etc. são bem-vindos.