Trata-se de um recurso em que o texto literário rompe a ilusão de transparência e verossimilhança, chamando a atenção do leitor para o fato de que está diante de uma construção artística, de uma invenção. Em outras palavras, a metaficção é a ficção que fala de si mesma, que se volta para o seu processo de criação, revelando mecanismos narrativos e questionando os limites entre realidade e representação.
Esse fenômeno pode ser compreendido como uma forma de autorreflexividade textual. Enquanto a narrativa tradicional busca manter o leitor imerso na diegese, apagando as marcas de sua fabricação, a metaficção expõe essas marcas, desestabilizando a leitura e convidando o público a refletir sobre o estatuto da literatura. Nesse sentido, ela se relaciona com conceitos como metalinguagem, intertextualidade e ironia, todos recursos que ampliam a consciência crítica do texto sobre si mesmo e sobre o sistema literário em que se insere.
Um exemplo clássico de metaficção pode ser encontrado em Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. A obra não apenas narra as aventuras do cavaleiro, mas também comenta sobre os livros de cavalaria, ironiza seus excessos e, em diversos momentos, insere reflexões sobre a própria escrita. Cervantes cria um narrador que se apresenta como compilador de manuscritos, introduzindo uma camada de questionamento sobre a autoria e a veracidade da narrativa. Esse jogo entre ficção e comentário sobre a ficção é um dos pilares da metaficção.
Outro exemplo notável é Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino. Nesse romance, o leitor é colocado como personagem central, e a narrativa se constrói a partir da experiência de leitura interrompida e retomada em diferentes histórias. Calvino explicita o ato de ler e escrever, transformando o processo literário em tema da própria obra. Aqui, a metaficção se manifesta de forma radical, pois o romance não apenas conta histórias, mas reflete sobre o que significa contar e ler histórias.
Na literatura latino-americana, podemos citar La verdad sobre el caso Savolta, de Eduardo Mendoza, e La muerte de Artemio Cruz, de Carlos Fuentes, que também exploram a consciência narrativa e a fragmentação da voz autoral. No Brasil, Machado de Assis é um mestre da metaficção: em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador defunto-autor comenta sobre sua escrita, dialoga com o leitor e ironiza os próprios limites da narrativa. Esse recurso machadiano antecipa práticas modernas e pós-modernas, mostrando como a literatura brasileira já se engajava em reflexões sobre sua própria natureza.
A metaficção, portanto, dialoga diretamente com o conceito de verossimilhança, pois ao expor os mecanismos da narrativa, questiona a ideia de que a ficção deve parecer real. Ela também se relaciona com o pacto ficcional, já que o leitor é constantemente lembrado de que está diante de uma obra inventada. Além disso, aproxima-se da noção de intertextualidade, uma vez que muitas obras metaficcionais fazem referência a outros textos, discutem gêneros literários ou parodiam estilos narrativos.
No contexto da pós-modernidade, a metaficção ganha ainda mais relevância. Autores como John Fowles, em A Mulher do Tenente Francês, ou Julian Barnes, em O Papagaio de Flaubert, exploram a instabilidade da narrativa e a impossibilidade de alcançar uma verdade absoluta por meio da ficção. A obra literária passa a ser vista como um espaço de experimentação, em que o leitor é convidado a participar ativamente da construção de sentido, consciente de que não há neutralidade no ato de narrar.