A clivagem, termo derivado do francês clivage e originalmente do alemão Spaltung, representa um dos conceitos mais complexos e fundamentais da metapsicologia psicanalítica, descrevendo um fenômeno onde a unidade do ego ou do objeto é fragmentada em partes coexistentes, porém dissociadas. Diferente do recalque, que opera sob a lógica da exclusão de um conteúdo da consciência para o inconsciente, a clivagem atua mantendo duas atitudes psíquicas opostas, frequentemente uma que reconhece a realidade e outra que a nega, lado a lado, sem que ocorra uma síntese ou uma contradição consciente aparente. Esse mecanismo, inicialmente explorado por Sigmund Freud em seus estudos sobre o fetichismo e posteriormente aprofundado por teóricos como Melanie Klein e Ronald Fairbairn, serve como uma defesa primordial contra a angústia de aniquilação ou a perda de integridade do self. A natureza da clivagem é intrinsecamente paradoxal: ela é, ao mesmo tempo, um recurso de sobrevivência psíquica que permite ao sujeito lidar com conflitos insuportáveis e uma barreira que impede a integração da personalidade, mantendo o indivíduo em um estado de funcionamento fragmentado ou "em setores".
O Advento da Clivagem na Obra Freudiana e a Recusa da Realidade
No pensamento de Sigmund Freud, a clivagem do ego (Ichspaltung) surge como uma peça teórica central em sua fase final de produção, especialmente para explicar a estrutura da psicose e do fetichismo. Freud observa que, diante de uma exigência pulsional que entra em conflito direto com uma realidade externa traumática, o ego não escolhe um caminho único de resolução. Em vez de recalcar o desejo ou de se desligar totalmente da realidade, o sujeito opera uma manobra de convivência de contrários. No fetichismo, por exemplo, o indivíduo reconhece a castração em um nível intelectual, mas, simultaneamente, mantém uma crença inconsciente na existência do falo materno, materializada no objeto fetiche. Essa coexistência de duas posturas psíquicas que não se influenciam mutuamente marca a distinção entre a neurose clássica, onde o conflito é resolvido via repressão e retorno do recalcado, e os estados onde a clivagem predomina. Freud argumenta que a clivagem não é apenas uma característica da patologia, mas um mecanismo que revela a fragilidade constitucional da unidade do ego. A recusa (Verleugnung) é o processo que sustenta essa clivagem: o sujeito percebe a realidade perturbadora, mas age como se ela não existisse, criando um "buraco" na trama da experiência subjetiva onde a negação e o reconhecimento habitam espaços psíquicos paralelos.
A Perspectiva Kleinian e a Clivagem do Objeto na Posição Esquizoparanoide
A contribuição de Melanie Klein desloca o foco da clivagem do ego puramente defensiva para uma etapa estruturante do desenvolvimento emocional precoce. Para Klein, a clivagem é o mecanismo central da "posição esquizoparanoide", que ocorre nos primeiros meses de vida. O bebê, incapaz de tolerar a ambivalência de sentimentos em relação ao mesmo objeto (a mãe), cliva o objeto em "bom" e "mau". O seio bom é aquele que satisfaz, nutre e é amado; o seio mau é aquele que frustra, é perseguidor e odiado. Essa clivagem do objeto é acompanhada por uma clivagem correspondente do ego: uma parte do ego se identifica com o objeto bom para se proteger, enquanto a outra parte projeta a agressividade e o instinto de morte no objeto mau. Klein postula que essa fragmentação é essencial para a sobrevivência psíquica inicial, pois protege o "bom" da contaminação pelo "mau". No entanto, a saúde mental depende da transição para a "posição depressiva", onde a clivagem cede lugar à integração, permitindo que o indivíduo perceba que o objeto amado e o objeto odiado são, na verdade, a mesma pessoa. A persistência de uma clivagem excessiva na vida adulta impede a formação de relações objetais maduras e está na base dos transtornos de personalidade e estados limítrofes.
Clivagem e a Dinâmica do Self nos Estados Borderline e Narcísicos
Na psicanálise contemporânea e pós-kleiniana, a clivagem é compreendida como a defesa por excelência dos pacientes com organizações de personalidade borderline e narcísica. Teóricos como Otto Kernberg enfatizam que, nesses casos, a clivagem não é apenas uma separação entre bom e mau, mas uma falha ativa na síntese das representações do self e do objeto. O indivíduo oscila bruscamente entre idealização total e desvalorização completa, sem conseguir manter uma imagem constante e integrada de si mesmo ou dos outros. Quando o sujeito está operando sob a égide da clivagem, ele perde a capacidade de ambivalência; o outro é visto como inteiramente maravilhoso em um momento e como um monstro perigoso no momento seguinte, sem que haja memória afetiva da fase anterior para mediar o julgamento. Essa descontinuidade psíquica protege o ego da "angústia de difusão" e do caos interno, mas ao custo de uma percepção distorcida da realidade social e interpessoal. A clivagem, aqui, funciona como um anteparo contra a depressão e a culpa: se o objeto é puramente mau, ele pode ser atacado sem remorso; se o self é puramente bom, não há necessidade de reparação. A análise desses processos exige que o terapeuta atue como um elemento integrador, suportando as projeções clivadas para ajudar o paciente a reunir os fragmentos de sua experiência subjetiva.
A Clivagem do Eu e o Trauma na Teoria de Ferenczi e Winnicott
Além das visões de Freud e Klein, Sándor Ferenczi e Donald Winnicott trouxeram nuances cruciais sobre a clivagem como resposta ao trauma ambiental. Ferenczi descreve a "clivagem narcísica do ego" como uma reação a abusos ou falhas ambientais catastróficas, onde uma parte da personalidade morre ou se torna insensível para permitir que a outra parte continue sobrevivendo e se adaptando às exigências do agressor. Essa forma de clivagem cria uma separação entre uma "criança sábia" (intelectualizada e hiperadaptada) e um "self sofredor" que permanece escondido. Winnicott expande essa ideia através dos conceitos de Verdadeiro Self e Falso Self. O Falso Self é uma organização defensiva clivada que protege o núcleo vulnerável do Verdadeiro Self de intrusões ambientais. Nesses casos, a clivagem não é motivada apenas pela agressividade interna (como em Klein), mas pela necessidade de proteger a espontaneidade vital contra um mundo que não oferece holding suficiente. A clivagem traumática resulta em um sentimento de irrealidade e futilidade, onde o indivíduo pode ser socialmente bem-sucedido, mas sente-se internamente vazio. O processo analítico, dessa forma, visa criar um espaço seguro onde essas partes clivadas possam finalmente se encontrar, permitindo que o sujeito habite seu corpo e sua mente de forma unificada e autêntica.
Referências Bibliográficas
FERENCZI, Sándor. Confusão de língua entre os adultos e a criança. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
FREUD, Sigmund. O fetichismo (1927). Tradução de Paulo César de Souza. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2010. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud).
FREUD, Sigmund. A clivagem do ego no processo de defesa (1940 [1938]). Tradução de Paulo César de Souza. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2010. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud).
KERNBERG, Otto F. Transtornos graves de personalidade. Porto Alegre: Artmed, 1995.
KLEIN, Melanie. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991.
LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
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